O símbolo adinkra Sunsum, originário do povo Akan, em Gana, representa uma energia invisível que anima o corpo e a alma. É uma força ligada à intuição, à intenção e à coletividade —uma espécie de elo espiritual entre indivíduo e comunidade. Foi nesse conceito ancestral que a cantora baiana Melly encontrou o eixo para “Mais Forte que a Dúvida”, seu segundo álbum de estúdio, que será lançado nesta quinta-feira (28), no qual transforma insegurança em afirmação.
“A dúvida é da cabeça, a certeza é da alma”, resume a artista sobre o trabalho. Se em “Amaríssima“, disco de estreia indicado ao Grammy Latino, Melly parecia expor as feridas do coração sem filtros, agora ela busca um lugar de maior inteireza. “Em ‘Amaríssima’, eu coloquei meu coração. Agora, quis colocar minha alma”, afirma.
O novo álbum nasce desse movimento de voltar-se para dentro. Durante o processo de composição, Melly mergulhou em leituras sobre espiritualidade africana, corpo e consciência coletiva. Foi então que encontrou os símbolos adinkra, sistemas gráficos ancestrais usados para transmitir ensinamentos e valores nas culturas da África Ocidental. “São mensagens que fazem com que o subconsciente se conecte com essa noção de coletividade, de espiritualidade, de vida”, diz.
Essa pesquisa aparece não apenas na narrativa conceitual do disco, mas também na maneira como Melly pensa a própria música pop. Aos 24 anos, ela reitera seu desejo de construir uma linguagem pop atravessada pela afro-baianidade, incorporando pagodão, samba de roda, reggae, R&B, arrocha e percussões inspiradas nos blocos afro de Salvador. “Eu ainda insisto em dizer que é possível fazer música pop com riqueza cultural”, afirma.
Há uma sensação de confiança inédita em “Mais Forte que a Dúvida”. A artista diz que essa é a principal diferença em relação aos trabalhos anteriores. “Eu estou muito mais segura das minhas escolhas, daquilo que escolho versar e tocar”, afirma. O disco foi feito em cerca de quatro meses —bem menos que os dois anos consumidos por “Amaríssima”. “A alma é um território que a gente não precisa pensar duas vezes.”
Essa segurança aparece logo na abertura, “Como Deve Ser (Nem Me Estresso Mais)”, em que canta: “Pinto o mundo colorido, eu nem me estresso mais”. Já “Mirante”, Melly amplia essa reflexão ao relativizar a dimensão humana diante do mundo. “A gente é só um grão de areia no mundo”, canta, antes de concluir que “só o mar sabe onde quer chegar”.
O disco oscila entre contemplação espiritual e prazer corporal sem estabelecer fronteiras rígidas entre uma coisa e outra. Em “Mexer”, corpo e alma aparecem fundidos: “Quando o corpo se junta com a alma/ melhor você mexer”.
A Bahia é o centro gravitacional da obra. É da terra de Melly que vêm algumas das imagens mais solares do álbum. Em “Gosto Mucho”, a artista toma cenas cotidianas de Salvador como inspiração: a volta na Gamboa, o sorvete na Cubana, o calor de meio-dia, o “banho à fantasia”. Já “Devagar Sem Agonia”, com Léo Santana, mergulha no universo do pagodão.
O disco também amplia o alcance pop da cantora ao reunir participações de Anitta, Liniker, Luedji Luna. Com Anitta, Melly divide “Ela Gosta de Menina”, faixa sobre um desejo sáfico que a tira do prumo. “Ela veio pra me perturbar”, canta. A parceria nasceu após as duas se aproximarem em um camp de composição do novo disco da cantora carioca, “Equilibrium”, para o qual Melly compôs três músicas.
A presença do amor entre mulheres, aliás, atravessa toda a obra de Melly desde seus primeiros trabalhos, mas ganha novas camadas aqui. Em “Ana”, parceria delicada com Liniker, ela faz da namorada sua musa inspiradora. “Ana é tanta coisa, quase um continente”, canta.
Para Melly, cantar relações entre mulheres é também um gesto político —especialmente quando atravessado pela experiência de ser uma mulher negra. A artista afirma que cresceu sentindo-se menos desejada do que as colegas brancas e que demorou a compreender como raça e afeto moldavam essas diferenças. “Eu entendi que existem diversas variáveis para tornar essas nossas experiências tão discrepantes”, diz.
Por isso, em seu trabalho ela insiste em afirmar que mulheres negras também merecem afeto pleno. “A gente também é digna de um relacionamento saudável, a gente também é digna de desejo, a gente também é digna do amor”, afirma. Para ela, falar sobre amor entre mulheres negras é uma forma de reparação simbólica diante de uma sociedade que frequentemente lhes nega humanidade e delicadeza.













