Crítica: Paulo Henriques Britto encara o crepúsculo do fim da vida em ‘Embora’

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Crítica: Paulo Henriques Britto encara o crepúsculo do fim da vida em ‘Embora’


“Desta vez é para valer. Vai dar certo”, enuncia o primeiro verso de “Embora”, nono livro de poemas de Paulo Henriques Britto. “Escrito na Primeira Página de um Caderno” é um perfeito abre-alas, ao condensar características definidoras da obra do autor carioca.

Primeiro, é um soneto, estrutura favorita entre as formas fixas que Britto adota como regra, por crer que o verso livre o impele ao banal. É, ainda, um poema metalinguístico, como nunca faltam em seus livros. E é banhado de autoironia, outro aspecto infalível seu.

Sobretudo pelo último traço, dá para imaginar que o soneto conclui que não, não dá certo. Mas determina: “(Escreva, porém. Apesar. Embora.)”

A conjunção do título encerra sinteticamente o tema que vai se desenrolar no livro todo, o de que o gesto poético —ou qualquer outro— é inútil frente ao fato de que, no fim, vamos embora.

É, pois, o livro em que o poeta de 74 anos encara a finitude. É o que sugere o título, é o que manda o clichê do artista na maturidade. Até o fato de que Britto se tornou imortal no ano passado, assumindo a cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, poderia, numa “boutade”, justificar tal leitura.

No entanto, a futilidade da existência está na obra de Britto já há muito, ao menos desde “Macau”, de 2003, em poemas que temperam o pessimismo com o humor e a autoderrisão.

Seu livro anterior a este, “Fim de Verão”, de 2022, é outonal, como sugere o título, quase como um longo domingo, em que o real vence a fantasia e o presente esmaga o futuro. Ali, o poeta abraça o crepúsculo não com lamentos, mas com estoicismo.

É certo, porém, que “Embora” é invadido pelo assunto de maneira mais insistente. Paradoxalmente, a repetição não ajuda a fixação dos versos. Antes, a dilui.

Britto tem pendor por séries de poemas. Como se fossem pequenas peças musicais, cada qual com seu leitmotiv, espelham a melomania do autor e compõem boa parte de todos os seus livros. Mas em “Embora” elas saturam o cerne, dando ao conjunto certo tom monocórdio.

Não será por acaso que os poemas individuais acabam se destacando, caso por exemplo de “Mais uma Falange” —a primeira “Falange” estava em “Trovar Claro”, de 1997. Brotado de um sonho, como conta Britto em um vídeo de divulgação, tem ao mesmo tempo o ar soturno do pesadelo e o tom zombeteiro de um “tangolomango”, reforçado pelo esquema rímico e métrico que segue a popular redondilha maior.

“Natureza-morta III” é, em “Embora”, o representante dos textos que exaltam a felicidade da matéria inanimada. Essa vertente, que ecoa Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, é muito frequentada por Britto e aqui se declara no verso “ser coisa não deve ser cansativo”.

A ambição de “passar no mundo sem deixar resquício”, último verso do poema, se combina com a pretensão de ascese algo budista, também recorrente em Britto. Em “Embora”, ela se expressa na sequência “Do Desejo”, aberta com “eu não queria não querer o que não quero”.

Um grande respiro no panorama vem nas “Quatro Glosas”. Professor e tradutor, o poeta é expert nesse exercício de dialogar com seus favoritos e, desta vez, Emily Dickinson, Wallace Stevens, Samuel Beckett e Edimilson de Almeida Pereira arejam “Embora” perto das páginas finais.

Paulo Henriques Britto é dono de uma rara combinação de erudição e humor que propiciam sempre momentos de deleite, seja pelos escritos “à clef” que satisfazem os leitores fiéis de poesia, incitados a pescar as referências mais ou menos explícitas, seja pelo engenho capaz de seduzir até os menos afeitos ao gênero. Não cabe a hipótese de que escreva um livro mau.

E, se “Embora” talvez seja menos memorável, isso possivelmente se deve à falta, nele, do único traço distintivo de sua obra que ficou de fora —o hedonismo sutil que faz o poeta abrir a janela e calcular que, apesar dos pesares, vai dar praia.



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