“Inesquecíveis: Quatro Séculos de Poetas Brasileiras”, obra organizada por Ana Rüsche e Lubi Prates, é, para usar uma palavra da moda, leitura incontornável.
A longa e detalhada pesquisa se apresenta como uma teia tecida a partir do trabalho de toda a vida das estudiosas da literatura de mulheres Nelly Novaes Coelho e Zahidé Muzart, teia a que se acrescentam elos com contribuições, teses e ensaios de estudiosas diversas.
O debate sobre os poderes do cânone surge na academia estadunidense partir de estudos da literatura afro-americana. Tomou corpo e se politizou nos anos 1990. Henry Louis Gates, teórico do movimento negro, inflama o debate tratando os cânones como instrumento da guerra cultural dos homens brancos e seus mecanismos de controle intelectual e educacional contra as minorias.
Lá como aqui as antologias, como as diversas histórias da literatura, são frequentemente baseadas nas relações estabelecidas entre classe, gênero e raça. Todas essas produções definem currículos e pesquisas universitárias.
A história da literatura brasileira, elaborada pelos defensores do cânone masculino e branco, foi resultado de “escolhas ideológicas”, afirmam as autoras, “forças conservadoras que rondam a história brasileira”, responsáveis “pelo apagamento racial e de gênero”.
Situando as poetas nos momentos em que escreveram e nas circunstâncias de suas vidas, priorizando relações e mesmo desejos, evitam uma historiografia patriarcal, feita de heranças masculinas. A livre escolha dos cem poemas oferece não apenas a reabilitação de nomes esquecidos ou sufocados, mas apresentam novidades surpreendentes.
Entre as mulheres que escrevem no período colonial, a poeta Beatriz Brandão evidencia as contradições da formação social do país. Protesta em seus versos contra “o jugo infame da escravidão”, denuncia o “feroz despotismo insano” e os “ímpios decretos” que, com a repressão à chamada Inconfidência, “banhavam ondas de sangue/ os degraus do cadafalso”.
Passamos, com a seleção, a conhecer Adelaide de Castro Alves de Azevedo, irmã do icônico poeta romântico que, se não tinha a voz do irmão, não fazia maus sonetos. E várias outras de sobrenomes famosos.
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Os poemas mostram que, com os critérios a que eram submetidas, especialmente para conseguir que suas obras fossem publicadas, a exclusão das mulheres do espaço literário e das antologias se deu não pela qualidade dos textos, mas pela autoria feminina.
É assim que, passando por três momentos da poesia brasileira com escritoras nascidas no Brasil Colônia, no Império e na República, chegando às que compõem o panorama contemporâneo, as sensíveis estudiosas nos oferecem uma história da literatura que corrige o rumo do que até aqui constituía nosso cânone.
Os três núcleos são organizados de forma intencionalmente aleatória, cada poema com uma importância peculiar. Um trecho de Gilka Machado talvez sintetize esse ímpeto: “Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada/ para gozos da vida, a liberdade e o amor”.
O quarto e último núcleo dá conta de escritoras que nasceram de 1940 a 1970. A partir do século 20, a maior novidade que percebemos é a ocupação, pelas próprias autoras, do processo editorial com revistas, coleções e antologias preparadas por grupos organizados e militantes.
As novas formas de veiculação permite abandonar levantamentos que, várias vezes, continuam mesmo agora “afastando escritoras, principalmente as racializadas, desses lugares de prestígio e reconhecimento”.
O cânone literário, sabemos, é inevitável. Vivemos esse desafio a cada aula ou seleção que preparamos. Por isso, quando Heloisa Teixeira (ainda Buarque de Hollanda) lançou, em 2021, “As 29 Poetas Hoje” (todas mulheres), afirmou que queria incluir na que seria sua última antologia poética “vozes fora do eixo dominante, heteronormativo e branco: são vozes lésbicas, vozes negras, vozes trans, vozes indígenas, interseccionais”.
A chegada ao momento contemporâneo, no livro, evidencia o perigo que se corre ao questionar, subverter ou interpelar o cânone: recriá-lo autoritariamente. O trabalho das duas poetas contorna esse risco transformando o livro num coro de mulheres que, juntas, impõem a voz da mulher poeta.


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