Crítica: Filme faz de relatos de empregadas domésticas uma narrativa de terror

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Crítica: Filme faz de relatos de empregadas domésticas uma narrativa de terror


Como se ainda fosse necessário justificar a importância das cotas ditas raciais em nosso país, “Aqui Não Entra Luz” marca a estreia de Karol Maia, cineasta formada graças à existência das ditas cotas.

Isso merece ser saudado, pois o filme traz o ponto de vista de uma jovem negra, filha de uma empregada doméstica, isto é, um ponto de vista que alguns anos atrás não teria como se manifestar.

O filme é um documentário sobre pessoas que trabalharam nessa função e que também compartilham suas experiências, quase sempre amargas —para dizer o mínimo. A impresso que deixa é um tanto paradoxal: não se trata de ser bom ou não. Independentemente disso, é importante.

Ele pode ser bom quando mostra, com um plano apenas, onde a autora descobriu o sentido de espaço. O filme pode ser muito bom quando mostra cenas exteriores de favela, como nesses momentos em que a câmera se abre para o espaço da favela.

Ele é infinitamente menos bom na primeira entrevista, no entanto, em que a conversa gira para todo lado e parece nunca chegar ao ponto. Mas aos poucos Maia parece se tornar mais à vontade, identifica diferentes experiências (todas ruins, diga-se) que informam sobre a maneira como essas profissionais são tratadas por diversos tipos de patroas.

Então, aos poucos, “Aqui Não Entra Luz” vai se transformando num filme de terror, onde o mais terrível é fatos como espancamentos, proibição de ouvir rádio ou ver TV, trabalho escravo, sequestro de crianças, entre outras monstruosidades, serem narrados num tom intimista, quase como se as pessoas tomassem essas coisas como parte natural da vida.

Há momentos em que Maia trabalha suas entrevistas com desenvoltura e favorece a narrativa de suas entrevistas, embora o tratamento visual nos interiores seja com frequência vacilante.

Isso é compensado, no entanto, por entradas sólidas, como quando a diretora (e roteirista) introduz a planta baixa de um apartamento, com os exíguos aposentos destinados às empregadas (por vezes sem janela e sempre junto à área ao cheiro dos produtos de limpeza).

Há detalhes que não surgem nos filmes de pessoas sem o chamado lugar de fala, e é isso que faz a diferença e torna este filme importante.

Assim também, o reencontro, já no final do filme, entre a diretora e a mãe, com quem estava rompida há anos, demonstra o surgimento, ainda em estágio larvar, de um dom dramatúrgico interessante e talvez original.

É possível assinalar uma secreta afinidade temática entre este filme e “O Agente Secreto“, em que a personagem de Wagner Moura busca, obsessivamente, um registro, uma foto, um sinal da existência de sua mãe, que violentada pelo patrão e depois desaparecida, deixando como único traço o filho.

Aqui, o fato de uma jovem recuperar a imagem de algumas empregadas domésticas fala bastante sobre a necessidade que temos de acertar as contas com o passado escravista, cujos traços ainda são muito presentes em nosso cotidiano.



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