Um casal em crise convida os vizinhos do apartamento de cima para um jantar. Angela e Joe, personagens de Olivia Wilde e Seth Rogen, querem coisas diferentes a respeito desse convite e no relacionamento em geral. Logo começa uma discussão, interrompida pela campainha. O filme é “O Convite”, terceiro longa dirigido por Olivia Wilde.
Na porta estão Piña e Hawk, personagens de Penélope Cruz e Edward Norton. Aparentemente, esses sabem muito bem o que querem, e nós descobriremos lá pelo miolo do filme o que os motiva, quando eles finalmente abrem o jogo.
Esse encontro de casais tem tudo para se transformar numa espécie enviesada de terapia. Angela sente a comichão de um relacionamento estagnado pelo tempo e por algumas escolhas.
Joe é um músico frustrado. Após o fracasso de sua antiga banda com nome —e só o nome— de heavy metal, “The Onslaught”, resolveu abdicar de uma parte importante de sua vida, a música, o que obviamente afeta o casamento.
Joe quer reclamar das madrugadas de sexo selvagem dos convidados, dos barulhos que não o deixam dormir. Angela, por outro lado, gosta de ouvi-los porque se conecta com um outro tempo do relacionamento. Por isso, ela pede para Joe não comentar nada sobre o assunto com os convidados, o que ele jamais promete fazer.
As coisas saem de controle, e talvez precisassem sair mesmo, para que o relacionamento entre Angela e Joe mudasse seu curso. Com o descontrole da situação, temos muita lavagem de roupa suja, necessária para que as coisas sejam repensadas, e um final de grande força poética.
“O Convite” é a refilmagem de um filme espanhol de 2020 intitulado “Sentimental”, dirigido por Cesc Gay, com Javier Cámara e Griselda Siciliani no papel dos anfitriões e Belén Cuesta e Alberto San Juan como os convidados.
Nem sempre é salutar comparar um livro com sua adaptação para o cinema, pois a literatura possui uma linguagem própria e bem distinta. Mas entre um filme e sua refilmagem, a comparação é inevitável, ainda mais quando apenas seis anos separam um do outro.
Há, para começar, a diferença entre Espanha e EUA. Entre um diretor e roteirista nascido em Barcelona e uma diretora e produtora, mas acima de tudo atriz, nascida em Nova York. A mudança do idioma também provoca novas variantes, ainda que Penélope Cruz esteja ali para representar a Espanha.
Alguns diálogos são bem parecidos, embora Wilde coloque detalhes a mais na refilmagem e adote uma direção mais virtuosa, com alguns enquadramentos que reforçam a divisão dos personagens em compartimentos que revelam seus comportamentos diferentes e as situações em que se encontram.
Muitas vezes os vemos isolados dentro de espelhos ou entre dois batentes de porta. No começo, em alguns momentos, o enquadramento deixa mais espaço para o teto do apartamento, como se quisesse mostrar a influência do casal de cima antes mesmo que eles chegassem.
De fato, está na direção a maior vantagem de “O Convite”. Olivia Wilde realizou um ótimo primeiro longa —a alucinada comédia colegial “Fora de Série”, de 2019— e um decepcionante segundo: “Não se Preocupe, Querida“, de 2022. Com este terceiro longa, se recupera consideravelmente.
Nas atuações, Seth Rogen, apesar do talento humorístico, não chega ao nível de Javier Cámara. Os outros três do elenco se equiparam. Talvez compremos menos o apetite sexual do casal do filme espanhol, o que revela o mérito de Edward Norton e Penélope Cruz no mais recente.
Em ambos há uma certa simplificação dos relacionamentos amorosos com o passar dos tempos e talvez os detalhes acrescidos por Wilde tenham contribuído para atenuar um pouco esse problema, embora ele persista na refilmagem.
De todo modo, o filme americano é superior, tem uma fineza maior na maneira de mostrar os comportamentos em cena e uma atenção a detalhes que combina com as opções de direção.











