Crítica: Filme recria de forma inteligente o programa de rádio PRK-30

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Crítica: Filme recria de forma inteligente o programa de rádio PRK-30


Filmar um programa de rádio, se pudermos resumir assim a ideia deste documentário, é uma certa traição ao veículo mais popular das décadas de 1940 e 1950, um veículo cujas imagens estariam apenas na cabeça do ouvinte. Se for um programa de rádio antigo, a traição é atenuada, pois alguns deles eram feitos com plateia, ou mesmo num teatro.

É o caso de “PRK-30: O Rádio pelo Avesso”, documentário dirigido por Eduardo Albergaria, que recria o antigo programa humorístico da Rádio Nacional, que estreia agora no circuito paulistano.

PRK-30 circulou de outubro de 1944 a junho de 1964, tendo como apresentadores principais Lauro Borges e Castro Barbosa, que interpretavam, respectivamente e além de outros personagens, os apresentadores Otelo Trigueiro e Megatério Nababo d’Alicerce. O nome deste último já indica o espírito zombeteiro que reinava no programa.

Borges e Barbosa, por sua vez, são interpretados, neste filme, por Tim Rescala e Cláudio Mendes, cabendo ao primeiro a direção geral da reconstituição do programa por meio de alguns sketches cômicos selecionados. O resgate daquele espírito parece bem-feito e o filme o registra com carinho e cuidado.

Para isso foi importante a descoberta, pelo pesquisador e roteirista Maurício Lissovsky, de um rolo do filme “Abacaxi Azul”, de 1944, com imagens do programa. A partir daí, foi mais fácil reencenar o programa, com transmissão ao vivo em 2024.

Albergaria fez sucesso há três anos com o longa “Nosso Sonho: A História de Claudinho e Bochecha“, uma biografia digna da bem-sucedida dupla brasileira de soul music. Neste documentário, muda de foco, mas só um pouco, já que o humor do programa é também musical.

“PRK-30” não renuncia às entrevistas presentes em 90% dos documentários deste século, desde que Eduardo Coutinho popularizou o formato e abriu o caminho para novos cineastas em “Santo Forte“.

Algumas dessas entrevistas são bem curiosas, como a realizada com o doutor Paulo Saldiva, que argumenta como a ausência de audição torna a pessoa solitária, e que, por isso, seria a mais terrível das deficiências.

Logo depois, temos dois minutos de tela negra, emulando o poder do rádio daquela época, a pessoa ouvindo todos os sons colocados para formar na cabeça do ouvinte uma cena especial.

É um convite à imaginação, que tira o documentário de sua redoma segura e o insere numa seara mais aventurosa, lembrando o momento do túnel em “Cartola: Música para os Olhos“, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.

No restante, porém, temos o documentário dentro da mencionada redoma, em que se confia no conteúdo e se aplica a ele uma forma consagrada, ainda que essa forma, apesar de algumas entrevistas que pouco contribuem, seja geralmente bem trabalhada.

Outra entrevista curiosa é com o saudoso Chico Anysio, um dos participantes do programa que iria se tornar um dos mais célebres humoristas brasileiros com a popularização da televisão. Indicar seu início no rádio é estabelecer como o veículo se comunicava brilhantemente com o grande público, como, de resto, era uma característica da Rádio Nacional.

Já que se recorre a entrevistas, o maior mérito é o de não as picotar. Os entrevistados têm seus tempos respeitados, sem o típico jogral que se tornou frequente nos documentários, como herança do jornalismo televisivo.

“PRK-30: O Rádio pelo Avesso” é um filme simples, razoavelmente didático e curto, com pouco mais de uma hora de duração. É realizado e atuado com inteligência para valorizar o tema, sem grandes invenções e com poucos riscos. O feijão com arroz levemente temperado que sempre cai bem.



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