“O que não pode faltar num filme sobre circo?”, pergunta o diretor em “Mambembe”. A resposta é o que menos importa, pois esse diretor, Fabio Meira, o mesmo de “As Duas Irenes” e “Tia Virgínia”, quis filmar, aparentemente, para descobrir coisas ao redor do circo: personagens, histórias, lembranças, lugares.
Temos então uma história de descoberta, de aceitação, de investigação das possibilidades do “filmar o real”, conceito um tanto vulgarizado no cinema brasileiro recente, mas que ainda pode render com um bom pensamento por trás. Portanto, logo levaremos uma bem-vinda rasteira.
O filme, que se anuncia como um documentário, logo parece introduzir um personagem de ficção, Ruy, um topógrafo vivido por Murilo Grossi. Trata-se de um homem que se envolve com três mulheres de circo no sertão nordestino: Índia Morena, Madona Show e Jéssica.
Essa última é a personagem de Dandara Guerra, que no filme está creditada como Dandara Ohana –ela é filha de Ruy Guerra com Claudia Ohana. Jéssica abandonou a família aos 15 anos e se refugiou no circo. Mas inicialmente o diretor nos apresenta outra Jéssica, que também fugiu de casa aos 15 e “no circo encontrou o seu lugar no mundo”.
Então é um filme de duplicidades, mas também de reencontros. Do documentário com a ficção. De personagens inventados com personagens reais. Das pessoas como eram e como seriam anos depois. Mais: de personagens reais com suas representações.
“Mambembe” é, então, um filme sobre outro filme, um documentário sobre uma ficção abandonada por falta de conhecimento dos caminhos que se poderia e queria seguir. Um filme começado em 2010 e retomado somente em 2024.
O diretor sai à procura das personagens de seu projeto abandonado, resgatando ideais, desejos, memórias, observando o que mudou nessas mulheres sonhadoras do circo. Elas se veem nas imagens anteriores, recuperam os sonhos de outrora e se emocionam com isso. Não há como não nos emocionarmos com elas.
Não estamos muito longe de um “Cabra Marcado para Morrer“, ainda que a distância entre o filme abandonado e o retomado seja menor do que no longa de Coutinho, e que haja mais implicações metalinguísticas em “Mambembe”. Há outros elementos de Coutinho, como a procura da razão de ser do filme e a maneira de conversar com as personagens.
Outra referência é “Já Visto Jamais Visto”, de Andrea Tonacci, pela reorganização de imagens que ganham novo significado, mas com uma carga ensaística suavizada.
Fabio Meira deixa algumas pistas, mas elas servem também para nos confundir. Diz que o personagem seria inspirado no seu pai, e por isso não sabia bem como ele se desenvolveria. Corta para Madona dizendo como e quando foi aceita pelo seu pai, num registro puramente documental. Ou seria também ficção? A esta altura, tudo é possível.
Mais adiante, o diretor incorpora um momento de leve tensão com Murilo Grossi sobre a marcação da atriz, que teria parado no lugar certo, mas pediram para ela entrar novamente e repetir a cena. É um procedimento bressaneano dos mais interessantes, do making of incorporado ao filme. E desnuda a insegurança do diretor em 2010, o que pode explicar o porquê do abandono daquele material.
Curiosamente, se pensarmos na cena ficcional, com Ruy forçando Madona a algo sexual que ele poderia suportar, mesmo sem interesse nela, é um momento de parcial recusa que parece desagradável, em desencontro com o que o filme parecia seguir. É no filme atual, com a ressignificação das imagens e com a negação desse momento filmado, que a mágica se faz e a delicadeza do trato se impõe.
Filme de surpresas e enganos, de armadilhas e despistes, de alternâncias de tons e registros, a ponto de já não fazer mais sentido falar em ficção e documentário, “Mambembe” mostra um diretor que soube recuperar, em sua imaturidade do passado, elementos que revelam sua maturidade atual.
A pesquisa em circos já tinha originado um belo curta em 2011, “Hoje Tem Alegria”, com o qual Fabio Meira mostrou ter ampla capacidade de olhar e sensibilidade para trabalhadores mambembes. Talvez o longa recente feche um ciclo importante em sua carreira. Ou pode indicar um recomeço.
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