São Paulo
A Mostra Mão Dupla, que ocupa o hub cultural ºAndar, em Santa Cecília a partir deste sábado (16), celebra as três décadas de cumplicidade entre Maristela Chelala e Daniel Warren. O evento é a síntese de uma trajetória que começou em 1997, nos corredores do Indac – Escola de Atores, e que hoje se consolida em dois monólogos que dialogam entre o riso e a melancolia.
Daniel Warren no espetáculo solo ‘Pontos de Vista de um Palhaço’
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Divulgação
A dinâmica da mostra justifica seu nome: a mão dupla reside na reciprocidade constante. Enquanto um está sob os refletores, o outro atua nos bastidores, operando o som ou assinando a direção. Para os artistas, ocupar um espaço independente como o ºAndar é um ato político e poético.
“Uma cidade que consegue ter teatros pequenos e independentes e consegue lotar todos eles, provavelmente é uma cidade que consegue respirar para além do cotidiano esmagador”, diz a dupla que vê nessa liberdade de formato uma esperança no futuro.
Em “Dos Prazeres”, Maristela Chelala mergulha no universo de Gabriel García Márquez para dar vida a María, uma mulher que, após um sonho premonitório, decide organizar o próprio funeral o próprio funeral.
O espetáculo, dirigido por Ivan Andrade, extrapola a literatura. Chelala costura suas próprias dores à pele da personagem, como a perda trágica de seus pais e vivências anarquistas.
O desafio, para a atriz, é manter a conexão humana em uma era de estímulos fugazes. “Como conseguir arrebatar as pessoas novamente, como quando não estávamos mergulhados numa tela? Por isso mexo muito no texto, converso com a direção e mudamos coisas, para que a emoção chegue ao público sem ruídos”, diz.

Maristela Chelala em ‘Dos Prazeres’, baseado no conto ‘María dos Prazeres’, de Gabriel García Márquez
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Ligia Jardim/Divulgação
Já no monólogo “Pontos de Vista de um Palhaço”, baseado na obra de Heinrich Böll, Daniel Warren dá vida a Hans Schnier, um artista em franco declínio na Alemanha do pós-guerra. Warren, figura reconhecida por sua atuação pedagógica em programas como “Art Attack” (Disney) e “Click” (Gloob), utiliza a linguagem do palhaço para desnudar hipocrisias sociais e dogmas religiosos.
Indicado ao Prêmio Shell pelo papel, o ator destaca como as inúmeras temporadas fortaleceram sua prontidão física e mental. “Isso cria músculos reais —de carregar cenário— e outro tipo de músculo que nos ajuda a estar atentos para não perder sequer um milésimo de segundo de comunicação com o público”, explica Daniel.
Para ele, o riso é uma ferramenta de corte: “O riso é construído para revelar a decadência humana. Não há o que equilibrar entre comédia e tragédia quando não existe oposição; ambas têm igual valor de propor um espelho à vida”.
A solidez da Mostra Mão Dupla também se apoia na faceta educadora da dupla. Com décadas dedicadas ao ensino de teatro para crianças e jovens, a dupla trouxe da sala de aula uma compreensão ímpar sobre a economia de recursos cênicos e a honestidade do gesto.
A disciplina que mantêm hoje é herança do rigor acadêmico dos anos 1990, quando estudavam Samuel Beckett. “Nossos mestres nos ensinaram que o ator é um atleta. A leitura como abertura de mundos faz parte do cotidiano e traz um respeito profundo pelo ofício”, dizem.
Mostra Mão Dupla
ºAndar – r. Dr. Gabriel dos Santos, 88, Santa Cecília, região central. De 16/5 a 20/6. ‘Dos Prazeres’, sáb. às 20h (exceto no dia 13/6) 17/5 a 21/6. ‘Pontos de Vista de um Palhaço’, dom., às 18h. Ingr.: a partir de R$ 50 em Sympla
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