Crítica: Autobiografia resgata uma grande liderança africana do século 20

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Crítica: Autobiografia resgata uma grande liderança africana do século 20


Após a leitura de poucas páginas de “Meu País, a África“, causa surpresa que apenas agora o título chegue aos leitores brasileiros.

Os motivos são muitos e vão de razões editoriais à política, o que faz do livro de memórias de Andrée Blouin —a “Eva Perón africana” ou “pasionaria negra”, entre tantas denominações que recebeu— uma porta de entrada para um conjunto de eventos que marcaram a geopolítica mundial nos anos 1960, assim como o testamento de uma mulher que, diante do inesperado, se tornou uma face da liberdade e da esperança.

Do ponto de vista político, o nome de Blouin ainda é ignorado, o que contradiz sua importância na articulação dos processos de independência em toda a África.

Nascida na República Centro-Africana, ela foi colaboradora de Patrice Lumumba na luta da República Democrática do Congo; teve seu trabalho admirado por lideranças como Kwame Nkrumah e Sékou Touré, que defendiam a autonomia e a união do continente frente ao colonialismo europeu; recebeu uma gama de figuras históricas da esquerda mundial em sua casa; fez fortes denúncias do imperialismo na África e, inúmeras vezes, acendeu a chama daqueles que tentaram assassiná-la.

Da perspectiva pessoal, o livro apresenta a vida de uma pessoa no limite das contradições. Filha da relação extraconjugal de um empresário francês com uma centro-africana, ela foi uma mulher mestiça que transitava por algumas posições de prestígio no mundo colonial, ainda que exposta às violências da condição de negra.

Criança, por exemplo, foi retirada da mãe e internada pelo pai em um orfanato para meninas mestiças; já adulta, embora envolvida com europeus, sofreu com o não reconhecimento de suas relações dada sua nacionalidade e sua raça. Na passagem mais dolorida de todo o livro, Andrée vê seu filho definhar com a malária, já que o tratamento farmacológico era exclusivo para os brancos.

Embora jogue luz sobre uma personalidade ofuscada na história política, a autobiografia de Andrée Blouin não constrói uma heroína ou mártir. A escrita tem um tom retrospectivo e pessoal, trazendo à tona os eventos que formaram a autora e a própria consciência africana.

Nesse sentido, o texto mescla aquilo que é particular com contextos mais amplos, explicando as ações pelo que elas puderam ser.

Se o desejo da jovem Blouin era fugir do orfanato, isso não ocorreu por questões ideológicas, mas pela necessidade de não sofrer. No campo afetivo, o breve relacionamento com Charles Graetz —que nos incomoda pelo encontro de um homem racista com a militante— revela que não era o amor que movimentava Andrée, mas conveniência e segurança para os filhos.

Por outro lado, cada passagem do texto se liga às exigências cobradas da África (Charles de Gaulle é uma figura silenciosa que ronda o livro). Os curtos e intensos meses no Congo, fase em que a personalidade política de Andrée está constituída, ilustram a frustração legítima com o machismo e com um projeto interrompido. Junto a isso, há a distância da família, a maternidade, a preocupação com a mãe e o peso de trabalhar por uma causa.

O fato de Blouin construir uma narrativa pragmática de si não significa o esgotamento de sonhos e projetos políticos. A autora apostou na unidade de toda a África, na mobilização de mulheres e na recusa de tensões tribais induzidas pela Europa.

Seu princípio de solidariedade não recusou as diferenças, mas rompia com fronteiras, trabalhando o continente como uma unidade patriótica. Daí que os inimigos não sejam apenas os estrangeiros, mas também as lideranças interesseiras ou coniventes com ganhos fúteis.

A primeira edição de “Meu País, a África” foi publicada em italiano sem a autorização de Blouin, que teve os manuscritos roubados. Na segunda impressão, os direitos do texto foram novamente furtados para uma edição britânica. Não bastassem as injustiças em vida, outra batalha em torno da África foi traçada no campo editorial pelos filhos da revolucionária.

A escritora desejou que sua obra fosse mais um testamento político do que um drama pessoal. Como há um descontrole entre a obra e a recepção dos leitores, essa separação seria injusta.

Em dado momento, Blouin afirma que “as contradições de minha vida são aquelas de que a África padeceu”. Aí está o grande trunfo de um volume impressionante: não criar uma heroína, e, sim, uma referência.



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