Na França, o desejo de ordem sempre estraga a festa dos revolucionários

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Na França, o desejo de ordem sempre estraga a festa dos revolucionários


A França volta a encantar o mundo com suas manifestações destrutivas. O mundo encolhe os ombros. É a França. A violência nas ruas é uma especialidade nacional desde, pelo menos, 1789.

Serei o último a contestar essa tradição. Pelo contrário: defendo, há vários anos, que as autoridades gaulesas deveriam publicar um guia turístico com os melhores confrontos da temporada. Se a Espanha tem a festa do tomate e a Itália as corridas do Palio, por que não montar uma arquibancada na praça da Bastilha para assistir ao espetáculo pirotécnico?

É verdade que os manifestantes poderiam incendiar a própria arquibancada. Mas isso só tornaria o espetáculo mais emocionante: o turismo de risco, que tanto floresceu nos últimos anos, certamente não se deixaria intimidar por estes brandos passatempos gauleses.

Claro que, no meio da banalidade, há um pormenor que costuma escapar aos admiradores da desordem francesa: as revoluções nem sempre terminam com a vitória dos revolucionários.

Diria até, com algum abuso, que isso é uma lei do país: depois da desordem, a ordem. Nem sempre democrática.

A Revolução Francesa trouxe o terror e a virtude dos jacobinos. Mas também trouxe a ditadura militar de Napoleão Bonaparte, que acabou com a grande festa revolucionária.

Em 1848, as barricadas voltaram às ruas de Paris para derrubar o rei Luís Filipe. Nascia a Segunda República. Mas a “França profunda”, chamada a votar, não se comoveu com a “república social” das esquerdas. Elegeu o sobrinho do primeiro Napoleão para a presidência, com modestos 74% dos votos. Aliás, não apenas o elegeu, como, em 1851, ratificou o seu golpe de Estado em plebiscito.

Os franceses tinham feito uma revolução para derrubar um rei e acabaram, poucos anos depois, com um imperador.

A Comuna de Paris, em 1871, teve um fim igualmente instrutivo: foi esmagada pelo governo de Adolphe Thiers, apoiado por uma Assembleia Nacional de maioria conservadora. A França tinha voltado a demonstrar que Paris não falava em seu nome.

E se o Maio de 1968 ainda povoa a imaginação da velha guarda, alguém deveria lembrar quem venceu aquela contenda. Não, não foram os estudantes que queriam “a praia debaixo da calçada”. Foram os gaullistas, que venceram esmagadoramente as eleições legislativas desse mesmo ano. A “França profunda”, mais uma vez, estragou os festejos dos “soixante-huitards”.

No século 21, as ruas francesas não têm tido descanso —da revolta dos subúrbios em 2005 aos “coletes amarelos” de 2018, sem esquecer os protestos contra a reforma da previdência em 2023 e as escolas em chamas de 2026.

Curiosamente, ou talvez não, a direita radical foi crescendo eleitoralmente. Nas eleições presidenciais do próximo ano, Marine Le Pen aparece na dianteira. Mas o seu inimigo de estimação à esquerda, Jean-Luc Mélenchon, parece convencido de que a melhor maneira de a derrotar passa por “compreender” e “apoiar” os protestos em curso.

Pobre Mélenchon. Não haverá em seu “entourage” uma alma caridosa que lhe empreste um livro de história?



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