Vitória em Pernambuco fortalece a governadora, que precisará ampliar sua base de prefeitos e disputar o Recife antes de um eventual salto nacional.
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O Brasil cobra de suas lideranças uma escolha permanente entre lulismo e bolsonarismo. Isso é cansativo. Pernambuco acaba de reeleger uma governadora que se recusou a organizar sua trajetória em torno dessa obrigação. Raquel Lyra (PSD), a única mulher eleita para um governo estadual no primeiro turno de 2026, conquistou aproximadamente 53,3% dos votos válidos, contra 44,8% de João Campos (PSB).
O resultado abre uma possibilidade que ultrapassa as fronteiras pernambucanas. Ela reúne condições para caminhar em direção ao posto de mulher mais importante da política nacional nos próximos anos. E pode tentar facilmente um voo nacional com essa proposta bem consolidada, não de ignorar os eixos programáticos da esquerda e da direita, mas de absorver de cada lado aquilo que importa para o brasileiro.
Autonomia
A condição de mulher dá singularidade à vitória pernambucana, mas a autonomia diante da polarização ajuda a explicar seu potencial político. Raquel conseguiu manter uma posição própria numa eleição em que a pressão era para que assumisse um dos lados. Essa pressão persiste até hoje, por causa do segundo turno nacional. Mas é a capacidade de conversar com ambos que permite apresentar ao país uma liderança que não precisa transformar cada decisão administrativa numa profissão de fé ideológica.
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Há espaço para isso num Brasil em que a disputa presidencial continua alimentada pela rejeição. O Datafolha divulgado nesta semana mostrou que 46% não votariam em Lula (PT) e 43% não votariam em Flávio Bolsonaro (PL). Esses números medem rejeição aos candidatos, não diretamente cansaço com a polarização. Ainda assim, ajudam a dimensionar uma política na qual o medo do adversário ocupa um espaço enorme.
Raquel tem a oportunidade de construir uma resposta a esse ambiente com uma combinação que faz sentido na vida cotidiana. Proteção social para enfrentar a pobreza e firmeza na segurança pública para enfrentar a criminalidade, por exemplo, tendo Pernambuco como vitrine. O eleitor quer ajuda para alimentar os filhos e quer que eles voltem vivos para casa. Ninguém deveria precisar escolher entre essas necessidades para demonstrar fidelidade à esquerda ou à direita.
O Mães de Pernambuco é um exemplo concreto dessa possibilidade. O programa oferece R$ 300 mensais a mulheres em situação de vulnerabilidade que atendam aos critérios, complementando a proteção de famílias já alcançadas pelo Bolsa Família. É uma política que dialoga com a base social historicamente atendida pelo PT, executada por uma governadora que preserva sua independência em relação ao partido.
Na segurança pública, o reforço das forças policiais e das atividades investigativas permite conversar com o eleitor que cobra autoridade e rigor, pautas fortemente associadas à direita. Nenhum campo tem exclusividade sobre essas políticas. Uma gestora pode aproveitar o que há de melhor de um lado e do outro. Sua obrigação é avaliar o que funciona e entregar resultados.
A autonomia também produz um efeito imediato. Raquel afirmou ter sido procurada pelas campanhas de Lula e Flávio, mas manteve a decisão de não declarar apoio presidencial. Ambos precisam conversar com ela. Isso não significa que seus votos sejam transferíveis por ordem, mas mostra que a posição própria conquistada em Pernambuco tem valor na negociação nacional.
Adversário
A dimensão dessa vitória no estado também passa por João Campos (PSB). Durante muito tempo, a narrativa sobre a eleição pernambucana, especialmente no eixo Rio-São Paulo, tratou sua chegada ao governo como um desfecho praticamente contratado. João já era governador porque era João Campos. Faltava apenas a eleição confirmar.
O sobrenome, a força do PSB e a projeção do então prefeito do Recife alimentavam essa expectativa. O apoio de Lula acrescentava peso à candidatura. Raquel enfrentou esse conjunto e encerrou a disputa no primeiro turno. A urna mostrou o tamanho do erro de tratar prestígio como vitória antecipada.
Derrotar um adversário desse porte amplia o significado da reeleição. A governadora ganhou autoridade para ser ouvida fora do estado porque venceu uma candidatura que já circulava nacionalmente como promessa de futuro. E conseguiu isso sem subordinar sua campanha à disputa presidencial.
Prefeitos
A próxima grande prova será a eleição municipal de 2028, com a Prefeitura do Recife no centro da disputa. Raquel precisará eleger um número de prefeitos aliados ainda maior do que na eleição anterior, ampliar a presença de seu grupo nas diferentes regiões de Pernambuco e buscar o comando da capital.
O Recife terá um peso especial nesse processo. É onde o grupo de João Campos construiu sua principal base de poder. Conquistar a prefeitura daria outra dimensão à vitória de Raquel sobre o PSB e mostraria sua capacidade de transformar a força conquistada na eleição estadual em um projeto político com raízes na capital.
Será a oportunidade de demonstrar que consegue unir Pernambuco em torno desse projeto. O número de prefeitos aliados dará uma medida concreta da expansão. A conquista do Recife reforçaria a consolidação de sua liderança no conjunto do estado.
Só depois dessa etapa uma tentativa de eleição nacional poderá entrar no horizonte, se esse for o caminho escolhido. A reeleição deu a Raquel projeção para crescer no Brasil. A eleição municipal, sobretudo no Recife, mostrará se ela consolidou em Pernambuco a força necessária para sustentar esse salto e se tornar uma opção natural para um futuro em que presidentes sejam eleitor por boas propostas e não por medo do outro.













