Entre sepultamentos e casos contados com muita graça, o coveiro nordestino Djalma vive em São Paulo para alcançar o principal objetivo de sua vida: encontrar a mãe, de quem foi separado na infância.
Em meio à busca, ele tenta reparar algumas “injustezas” de que é testemunha e transforma a insubordinação em gestos de humanidade —uma reação de resistência ao esquecimento dos que já se foram.
A trama da peça “A Última Cova”, que estreia nesta quarta, 1º de julho, no Espaço Cênico do Sesc Pompeia, foi criada pelo dramaturgo Newton Moreno a pedido do ator e músico Marco França, interessado em ocupar o palco com um solo que fizesse a roda girar em sua própria existência.
Ele explica: após diversas participações em montagens idealizadas por outros artistas, teve vontade de realizar um projeto que partisse de seus sonhos, movido pela paixão por contar histórias.
No espetáculo, a busca do filho pela mãe é um fio condutor para que outros relatos cheguem ao público, em uma narrativa folhetinesca inspirada no cordel e nos repentes nordestinos.
França, vindo do Rio Grande do Norte e há dez anos em São Paulo, interpreta vários personagens e tem como parceiros de palco os músicos Bruno Menegatti e Juliano Veríssimo.
Os dois executam uma sonoplastia cúmplice das aventuras de Djalma no mundo dos vivos e dos mortos. A direção é de Ana Rosa Genari Tezza, fundadora da Trupe Ave Lola, de Curitiba.
Além de ter com a morte uma relação de fascínio e temor, o ator se inspirou na peça espanhola “El Enterrador”, sobre Leoncio Badía Navarro, um coveiro que viveu na ditadura franquista e usou o seu ofício para enfrentar as atrocidades da guerra civil.
Ele assistiu a montagem em 2024, no Chile, e levou a Moreno o desejo de abordar a finitude, com uma narrativa que mistura humor e lirismo, canções e assombros.
O cemitério cênico criado por Kleber Montanheiro usa vestígios que remetem às sagas dos enterrados, como o sapato vermelho na sepultura da dama da noite e a botina na do cangaceiro. São elementos vinculados a uma gente que viveu às margens, mas foi amada por alguém.
“A partir das ideias trazidas por Marco França, fui somando camadas, imagens e materialidades até chegarmos a uma forma que não ilustra as histórias, mas as faz emergir como memória viva”, afirma o cenógrafo e figurinista.
Uma das lápides homenageia o pai de França, morto há quase três décadas, quando o ator tinha apenas 21 anos.
“Lembro que apesar da tristeza havia um sentimento de comunhão naquele momento, com as pessoas reunidas para celebrar a existência dele”, diz. “Vi gente que não encontrava há muito tempo e aquilo foi um abraço, um carinho no coração”.
O pai não sai da memória do artista, assim como Titina Medeiros, atriz morta aos 48 anos em janeiro, com quem ele conviveu no grupo Clowns de Shakespeare, de Natal.
A partida dela, vítima de um câncer no pâncreas, causou comoção na classe artística, mas também trouxe à tona muitas lembranças sobre a dedicação às artes cênicas.
Ao falar sobre coisas da vida (e da morte), “A Última Cova” aborda a urgência de existir.













