A rivalidade contínua entre João e Raquel reduz capital político geral, enfraquece negociações e aumenta a instabilidade institucional no estado
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Aconteceu, de verdade, há quase duas décadas numa cidade do interior. O grupo do então governador Eduardo Campos iria enfrentar a primeira eleição municipal com ele ocupando o Palácio do Campo das Princesas.
Algumas cidades eram estratégicas e ele sabia que precisava garantir a vitória nelas para começar a pavimentar sua reeleição dois anos depois. Mas uma, específica, estava dando trabalho.
A questão é que os dois maiores líderes políticos dessa cidade tinham se desentendido. A melhor opção para o grupo era que um deles fosse candidato a prefeito, mas o outro líder local não aceitava. As desavenças eram muitas, rusgas, mágoas, ataques diretos e indiretos.
Eduardo partiu para lá e foi visitar a casa de um correligionário no município. Mandou convidar os dois líderes. Um não queria encontrar o outro, mas convite de governador não se recusa, ainda mais aliado e poderoso. Foram.
A chave
Chegando lá, Eduardo não tinha dito a ninguém o que pretendia fazer, mas combinou com os donos da casa que precisava da chave do quarto principal. Com todos os presentes sob o mesmo teto, chamou os dois brigões sozinhos para o quarto e entrou com eles. Fez um discurso rápido sobre a necessidade vital de eles se entenderem, para não haver risco de ruptura do grupo naquela região e depois explicou o que faria.
“Vou sair e vou trancar a porta por fora. Vocês briguem, gritem, façam o que vocês quiserem, lavem toda a roupa suja. Mas só batam na porta para me chamar quando tiverem feito as pazes e estiverem prontos para disputar a eleição sem briga. Aí eu abro”. E passou a chave na fechadura.
Freio
Sabe-se lá como, mas a estratégia do então governador deu certo. A paz entre os dois líderes nessa cidade durou oito anos, de 2008 até 2016, e hoje o cenário todo se modificou de uma maneira que não exige mais essa união, mas o fato é que o “freio de arrumação” do principal líder político do estado naquela época serviu como estabilizador do ambiente político numa região.
A pergunta que precisa ser feita hoje é: quem pode ter esse papel atualmente? Porque se há algo essencial para se entender é que ninguém ganha nada com a animosidade que toma conta da política pernambucana. Os dois lados perdem e todos os integrantes dos dois grupos políticos antagonistas no palco principal de 2026 terão prejuízo.
Hoje
Eduardo Campos estava preocupado com a briga local de 2008 porque aquele embate enfraquecia seu grupo. Mas e quando a briga enfraquece Pernambuco, quem assume o papel de liderar a paz?
Na Assembleia Legislativa, na Câmara de Vereadores do Recife, em cargos do governo e da prefeitura, há dezenas de pré-candidatos que gostariam de estar agora pensando em ir buscar votos, organizar suas campanhas na RMR ou no interior, mas ficam presos ocupando espaços nas trincheiras de uma guerra que, no frigir dos ovos, não resolve a votação deles. Essa é a verdade.
Quem?
E ninguém espera que Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) peçam votos um para o outro e se tornem melhores amigos.
Mas alguém precisa lembrá-los da necessidade de harmonia e respeito institucional mútuo que sustenta e fortalece a noção ainda tão frágil do que conhecemos como República. Está faltando alguém, que seja respeitado pelos dois, assumir o papel de colocá-los numa sala, passar a chave na porta e dizer que eles só podem sair de lá quando estiverem prontos para, no mínimo, apertarem as mãos. Alguém se habilita?
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