Estamos interessados em histórias sobre a Lagoinha. Se você tiver algum relato, mande um email para a gente: [email protected]
A bandeira do Brasil tremulava em um painel de led moderno, enquanto uma mulher branca de cabelos castanhos exclamava que o país e a família brasileira pertencem ao “senhor Jesus”. Tudo isso aconteceu às 18h38 de 4 de outubro, o domingo do primeiro turno das eleições.
“Que o Brasil seja conhecido como o país que se rendeu ao teu poder, à tua vontade, aos teus planos, ao teu querer. Senhor, liberte essa nação”, anunciou a pastora.
A cena não era, ao menos oficialmente, um palanque eleitoral do Partido Liberal (PL), a legenda do candidato a presidente Flávio Bolsonaro, senador da República e filho de Jair. As exclamações da pastora Rafaela Fontenelli, vestida com uma calça de couro preta e uma blusa preta, aconteceram na Igreja Lagoinha, na unidade da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
“O Brasil é do Senhor. Nós não estamos presos à política, a governos. Quem rege a nossa vida é o Espírito Santo de Deus. Clame ao Senhor por libertação da nossa nação”. Ela então se ajoelhou, levantou as mãos e inclinou o rosto para o teto da Igreja como forma de pedir ajuda divina.
Vários ali presentes dividiram a atenção entre o culto e o celular, com a atualização dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o avançar da apuração para a presidência do país.
Enquanto Fontenelli falava sobre o Brasil ser de Jesus, 31% das urnas estavam apuradas e Flávio Bolsonaro acumulava mais de 18 milhões de votos, ou 50,74% dos considerados válidos. Se as eleições terminassem naquele momento, Flávio estaria eleito no primeiro turno.
A Lagoinha, uma das maiores igrejas evangélicas do país, e o seu administrador, André Valadão, ganharam os holofotes do noticiário brasileiro com as investigações do escândalo Master. Fabiano Zettel, ex-pastor da denominação, é cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e acusado de ser o operador financeiro do banqueiro. Segundo relatório do COAF, Fabiano Zettel depositou R$ 19 milhões nas contas da Igreja Lagoinha entre dezembro de 2024 e 2025.
Os cultos, então, se tornaram também momentos de dar satisfação aos fiéis. No dia 24 de março, André Valadão se pronunciou por meio de um vídeo sobre a prisão de Fabiano Zettel, detido desde 4 de março, e reiterou que ele não tem nenhuma relação com o maior escândalo financeiro do Brasil. A mensagem foi exibida no telão da Lagoinha na unidade da Barra Funda. Na oportunidade, ele ainda relacionou as investigações ao período eleitoral.
“É interessante que esse ano é um ano eleitoral. É um ano muito difícil, é um ano onde existe claramente também um movimento, onde pessoas que não têm os valores cristãos, os quais nós carregamos, querem destruir a imagem da liderança, tentar difamar e tentar tirar a autoridade da Igreja naquilo que ela tem”, afirmou.
Apesar de tentar se afastar da disputa eleitoral de 2026, André Valadão e a Lagoinha são próximos de políticos bolsonaristas. Fabiano Zettel, por exemplo, foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022.
André Valadão, por outro lado, chegou a intermediar uma conversa entre Daniel Vorcaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado mais votado do Brasil em 2026. Depois do parlamentar criticar um evento em Londres, patrocinado pelo Master, Vorcaro pediu a Valadão para conversar com Ferreira para contornar as críticas feitas ao evento.
No culto do dia 4 de outubro, o principal pregador foi o pastor Mauro Ferreira, um homem negro com um blazer azul marinho, um sapato preto lustroso, uma calça social cinza, e um relógio dourado.
Durante a pregação, ele compartilhou de maneira repetida para os fiéis uma mensagem: “Falta pouco”.
Principal pastor da noite, ele pedia para as pessoas não desistirem dos desafios da vida, vencerem as dificuldades com o apoio de Deus, e confirmava que naquela semana todos ali teriam uma importante notícia.
Enquanto isso, às 18h50 daquela noite de domingo, o TSE apontava para 41,57% das urnas apuradas, com Flávio Bolsonaro na liderança, com 24 milhões de votos, ou 50,41% dos votos válidos. A vitória ainda estava garantida no primeiro turno.
Procuramos a Igreja Lagoinha para que comentasse os fatos elencados nesta reportagem. Não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
A estética da Lagoinha
A Lagoinha da Barra Funda fica em um galpão adaptado para receber um culto, com uma estrutura que mais parece a de uma casa de shows, na zona oeste de São Paulo. O ambiente tem luz baixa e as paredes todas pretas, o que aumenta o contraste de um palco iluminado. As cadeiras comportam aproximadamente 300 pessoas, mas em algumas oportunidades são acrescentados assentos de plástico, o que permite a ampliação do público a depender da ocasião.
A igreja também tem uma preferência pela língua inglesa. Desde a recepção, com o escrito “Welcome”, em vez de “Bem-vindo”, até os grupos focais, o inglês às vezes até prevalece sobre o português. O grupo fechado para homens da igreja se chama “heroes“, heróis na língua estrangeira, e o das mulheres é o “shine”, ou simplesmente “brilho”, em português. A escolha está em consonância com o atual chefe da Lagoinha, André Valadão, que tem uma igreja em Orlando, nos Estados Unidos, e vive por lá.
O público da Barra Funda é uma maioria de jovens, entre 25 e 40 anos, com uma predominância de pessoas brancas. As roupas não são sociais, como as de denominações pentecostais, mas vestimentas mais casuais. É um público de classe média que vai para a igreja com roupas semelhantes às que usaria para ir ao shopping. Os homens vão aos cultos de calça jeans, casacos do tipo bombo jaco, camisetas apertadas com gola no formato V. As mulheres vestem normalmente calças jeans, camisetas de cores pouco chamativas, como o preto e o branco, com maquiagens perceptíveis mesmo para quem pouco entende sobre.

Os primeiros 40 minutos do culto costumam ser de música gospel, cantadas por uma banda afinada, impulsionada pela acústica do local, que permite ouvir a letra e todos os instrumentos com nitidez.
Os cultos costumam ter um pastor principal, responsável por fazer uma pregação mais longa. Eles costumam fazer falas carregadas de tons de incentivo, sobretudo diante de um público que pode estar em dificuldade ou em sofrimento. Nicolas Miranda, o principal pastor da unidade da Barra Funda, disse no dia 5 de março para as pessoas não se “esconderem” e usarem todos os dons dados por Deus, inclusive a qualidade de servir.
“Talvez o meu talento é servir. Eu posso mudar a vida de alguém como que eu posso cumprir o meu propósito de servir. Parece ser algo tão pequeno, mas se foi aquilo que o Senhor confiou a você exatamente isso que ele espera que você faça”, pregou.
Antes da pregação, tem-se início ao programa Lake News, feito pela própria unidade da Barra Funda e exibido no telão de led da unidade. O vídeo exibe jovens da unidade, homens e mulheres, negros e brancos, com novidades sobre a programação da Lagoinha.
Com um jeito descolado que lembra a série “Malhação” da Rede Globo, os participantes são convidados a conhecerem os cultos voltados para adolescentes, os encontros focais para homens, mulheres, empresários e casais. Ainda existe um serviço gratuito prestado por psicólogos voluntários da Lagoinha. Todo o mês também é organizado um café da manhã para os novos membros da Lagoinha, uma forma de aproximar e fidelizar o cliente.
A Lagoinha também segue um modelo de outras igrejas, com encontros quinzenais de grupos de mulheres, de homens e até de empresários.
Segundo os pastores da Lagoinha, a ideia é debater estratégias de Deus para “abençoar” os negócios das pessoas. Os grupos de homens têm outro papel, de discussão de valores, e alguns casos, de debater até questões de ordem política.
Heroes, o grupo de homens da Lagoinha
“Tem homem aqui na Lagoinha?”, costumam perguntar os pastores durante os cultos abertos ao público. A resposta, normalmente tímida dos homens, que só parecem cansados ou reticentes à euforia forçada, é suficiente para tentar atrair todos ali a participarem do grupo de “Heroes”.
Em março, existiam 14 membros no Heroes, e atualmente são 34, um número ainda pequeno na comparação com o das mulheres, que tem mais de 200 pessoas. O encontro dos homens ainda não é cobrado pela igreja —diferentemente do grupo de mulheres, cuja participação custa R$ 180 para cada seis encontros.
Os encontros costumam acontecer às segundas, a partir das 20h, com uma duração de 1h30 aproximadamente. Durante a conversa, os homens costumam partilhar os seus desafios enquanto pais e maridos e são orientados por um pastor ou outros colegas a enfrentarem todos os problemas com a “palavra de Deus”.

Naquele espaço de segurança, os homens se sentem à vontade para compartilhar as suas fragilidades e os seus vícios. No dia 6 de julho, um participante chegou a partilhar com os colegas as dificuldades que enfrentava para conter o “fetiche” que sente pelos pés de mulheres, a chamada “podolatria”. Ele contou que superou outros vícios, como de drogas, mas que a podolatria é o pior, mais difícil. Para ele, a Lagoinha é uma maneira de lidar com esse drama. “Eu tenho certeza que não é à toa que a gente ouve a palavra e coloca ela em prática”, afirmou.
Os diálogos extrapolam os assuntos familiares e esbarram na agenda política social. No dia 20 de abril, um dos participantes chegou a reclamar do fato de Erika Hilton (PSOL-SP) ter sido eleita a “Mulher do Ano” em 2025 pela Marie Claire, revista especializada no público feminino.
“O diabo pega você, e não deixa você ver o próximo passo. Ele não deixa você ver a página dois. Então tem que tomar cuidado. Quem estou permitindo que tenha voz na minha vida? Quem está me influenciando? Porque agora a onda é dos influentes, né? Como é que Erika Hilton é a mulher do ano? Cara, olha que mundo que a gente está vivendo”, afirmou. Para ele, a solução é “restaurar a identidade que Deus colocou em cada um de nós”.
O descontentamento foi ampliado para outras mulheres. Na reunião do dia 18 de maio, um dos participantes reclamou do fato do governador reeleito de São Paulo, o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), ter nomeado Glauce Cavalli para o comando geral da Polícia Militar em São Paulo, em 29 de abril deste ano. Ela se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo.
“Cara, a comandante da polícia militar é uma mulher lésbica. Olha aonde os homens estão chegando? Os homens estão recuando. Não é minha esposa que me chama para ler a Bíblia. Eu que me chamo a minha esposa e a minha filha”, contou.
História de crescimento exponencial e repleta de disputas
A igreja surgiu em 1957, no bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), sob a denominação Batista, uma linha protestante com importância destacada para o batismo dos fiéis. Márcio Valadão, pai de André, assumiu a igreja em 1972 e logo aproximou a música gospel dos cultos. O sucesso da banda gospel Diante do Trono, fundada em 1997 por Ana Paula Valadão, irmã de André, impulsionou a proliferação de unidades da Lagoinha.
A igreja chegou a ter o Movimento Cores, um grupo de pessoas LGBTQIAPN+, criado em 2015 na unidade da Lagoinha do bairro Savassi, em Belo Horizonte, com o aval do pastor Márcio Valadão. Eles organizavam encontros de fiéis LGBTQIAPN+ com artistas da música gospel e outros pastores. Dentro da igreja, conseguiam debater temas que envolvem pessoas LGBTs e negras, a exemplo da discriminação sofrida por eses grupos na sociedade e na igreja.
Mas tudo mudou depois que André Valadão assumiu a direção da igreja em dezembro de 2022. No ano seguinte, o Movimento Cores deixou a denominação depois de Valadão afirmar que “Deus odeia o orgulho”, em referência ao orgulho LGBT.
Alan Rodrigues, ex-membro da Lagoinha e um dos idealizadores do movimento Cores, conta que esse foi o momento de maior acolhimento que já sentiu dentro da igreja como um homem negro LGBT.
“Eu acho que a crise maior se dá nessa mudança, principalmente da liderança do Márcio Valadão para o André, quando as coisas começaram a ficar um pouco mais complicadas”, contou em entrevista para a Alma Preta.
Depois do trauma vivido na Lagoinha, Alan Rodrigues fundou outra denominação, Comunidade da Gente, no bairro da Floresta em Belo Horizonte. Ele continua o trabalho que, em outro momento, fez dentro da Lagoinha
“A gente hoje trabalha com as questões de gênero, principalmente com a mulher, e as questões raciais. A gente quer se tornar também uma igreja antirracista. Então o que a gente mais tem trabalhado são os templos e a transexualidade, porque nós temos mulheres trans na nossa igreja. É tudo muito novo”, afirmou.
Na Comunidade da Gente, não há uma demonização sobre a sexualidade LGBT. “Somos afirmativos. Não entendemos o ser [LGBT] e a prática como pecados”, afirmou Rodrigues.
O posicionamento contra a população LGBT e a crise do Master não foram as únicas polêmicas envolvendo a Lagoinha. Desde que André assumiu a direção da igreja, ele passou a ter problemas com a irmã, Mariana Valadão, e seu cunhado, Felippe Valadão. André acusou Felippe e Mariana de terem utilizado o nome “Lagoinha Niterói” de maneira inadequada e pediu a alteração do nome.
As divergências geraram uma disputa judicial pelo nome da denominação, e o casal Mariana e Felippe deixou de usar a marca Lagoinha na igreja que gerencia em Niterói, no Rio de Janeiro. A marca Lagoinha se tornou valiosa no mundo evangélico.
Reza com o envelope de doação nas mãos erguidas
Depois da primeira apresentação de música Gospel na abertura do culto, um integrante da Lagoinha então sobe ao palco para pedir dinheiro. Ele avisa para as pessoas que existe um cartão no bolso do banco da frente de cada fiel, com diversas opções de pagamento. No culto do dia 4 de outubro, às 19h07, a pastora Michele Assad pediu para todos pegarem o envelope de dinheiro e rezarem com ela com o envelope nas mãos erguidas para o alto.
“Mesmo que seja a sua primeira vez, e você não esteja entendendo esse momento, levante o seu envelope que eu quero orar por você”, afirmou.

Depois, ela explicou as quatro formas de doar para a igreja: pagamento pix por QR code, via cartão pelas máquinas de débito e crédito, transferência ou doação de dinheiro em espécie. Algumas pessoas chamam as atendentes para pagar por cartão e outros trabalhadores da igreja passam, fileira por fileira, com um saco preto, para receberem as possíveis doações nos envelopes.
“Não há nenhum pecado nisso, é somente um método”, explicou. As explicações sobre as opções de pagamento não são restritas ao culto, estão no site da unidade e nas paredes da igreja.
No encerramento do culto, a bandeira do Brasil voltou para o telão, com novas canções de louvor. “Vá para casa na paz, em nome de Jesus”, exclamou o pastor João Fontenelli.
A essa altura, Flávio Bolsonaro tinha 49,58% dos votos válidos e mais de 64% das urnas apuradas. A vitória, pelo menos naquele momento, havia escapado.














