Em tempos obscuros, com guerras, intolerância, governos autoritários e o avanço desenfreado da tecnologia, a arte é a luz no fim do túnel. Pelo menos essa é a tônica de grande parte dos filmes que compuseram esse Festival de Cannes, o mais importante para o cinema do mundo.
Só na competição pela Palma de Ouro, láurea máxima do festival, 12 dos 22 filmes seguiram por essa abordagem, entre narrativas intimistas ou universais.
Em “The Beloved”, por exemplo, Javier Bardem vive um diretor de cinema egocêntrico e agressivo, que traumatizou a filha, agora uma atriz, com sua presença e ausência na infância. O ofício parece a única coisa que os conecta, capaz de expurgar os traumas, ao mesmo tempo em que os obriga a encarar as limitações de gênero ainda presentes na indústria cinematográfica.
“Natal Amargo”, novo filme de Pedro Almodóvar, vai numa toada parecida ao mostrar um diretor de cinema que se apropria do sofrimento dos outros para criar histórias. O longa faz uma grande reflexão sobre os limites da criação, e como ela pode servir, em alguns casos, como cura.
Já em “All of a Sudden”, de Ryusuke Hamaguchi, uma mulher cria uma ligação intensa com uma diretora de teatro a beira da morte depois de ver sua peça. As duas têm conversas filosóficas sobre a crise do capitalismo e a finitude da vida, e chegam à conclusão de que a criação é uma das belezas deste mundo, apesar de seu caos.
Assim seguem também “Fatherland“, “Coward” e “La Bola Negra”, em que artistas resistem em meio à guerra ou à desesperança, ou “Sheep in the Box“, que rivaliza robôs feitos por inteligência artificial e a criação manual.
Fora da competição, o tema se manteve recorrente em “Teenage Sex and Camp Miasma”, “Roma Elastica” e “John Lennon: The Last Interview”, todos com reflexões sobre o papel da arte na construção de narrativas e de identidades em tempos difíceis.
Não por acaso, o avanço da inteligência artificial, a guerra em Gaza e a restrição imposta sobre certos assuntos foram os assuntos que dominaram conversas nos corredores do Palácio dos Festivais, onde acontece o evento, e nos luxuosos hotéis da Croisette, lugar de encontro com celebridades.
Peter Jackson, agraciado com uma Palma honorária, e Steven Soderbergh, do documentário sobre John Lennon, disseram que a IA é apenas mais uma ferramenta, desde que regularizada para que não utilize conteúdos ou rostos de atores sem consentimento e remuneração.
Outros, como Guillermo del Toro e Tilda Swinton, criticaram a qualidade dos filmes produzidos com a ferramenta. Em comum, todos defenderam que arte é, essencialmente, humana —e que, por isso, criadores não podem ser substituídos.
Durante o festival, Cate Blanchett anunciou a RSL Media, nova organização que pretende criar uma espécie de registro universal de consentimentos para a IA no qual qualquer pessoa poderá registrar se permite, proíbe ou condiciona o uso de sua imagem, voz, e obras criativas por ferramentas de inteligência artificial. A iniciativa teve apoio de nomes como Bardem, Soderbergh, Kristen Stewart, Viola Davis e Meryl Streep.
As estrelas de Hollywood que compareceram ao festival como convidadas apaziguaram os ânimos em uma edição que, pela primeira vez em pelo menos cinco anos, não teve blockbusters. A ausência é um sintoma de uma indústria insegura frente às bilheterias frágeis com o avanço do streaming.
Não faltaram falas políticas, como costuma ser em Cannes. Em conversa com jornalistas, Bardem voltou a dizer que acontece um genocídio em Gaza, e que as novas gerações não aceitam censura sobre o tema. Almodóvar usou um broche escrito “Palestina livre” em sua aparição no evento, em que falou sobre como é importante que cineastas toquem em assuntos proibidos.
O festival já dava sinais de que o conflito seria um tópico quente. Susan Sarandon, que recentemente falou da retaliação em Hollywood contra aqueles que criticam Israel, estampou o cartaz da edição.
Na abertura, o presidente do júri, Park Chan-wook, disse que arte e política estão ligadas, apoiado por Demi Moore, que alertou para o perigo da autocensura. Foi uma resposta clara ao que aconteceu no Festival de Berlim, em fevereiro, quando Wim Wenders disse que artistas não deveriam ser cobrados por posicionamentos políticos.
Em paralelo, a diretora do evento Tricia Tuttle, quase foi demitida pelo ministro da Cultura alemão por suposto antissemitismo —isso porque apareceu, numa foto, com a equipe de um filme palestino, ainda que ela tenha defendido uma posição de neutralidade no evento.
Conflitos também serviram de pano de fundo para as tramas de “Minotaur“, sobre a violência embutida no cotidiano dos russos, com indiretas à guerra na Ucrânia, e “Fjord“, um conto afiado da intolerância e do ódio intensificados pela polarização política.
Thierry Frémaux, diretor do festival, lembrou que o evento nasceu em 1939, conforme o mundo se encaminhava para a Segunda Guerra Mundial, quando reunir filmes e artistas de diferentes países era algo urgente. Em uma nova era de instabilidade, Cannes parece reafirmar a sala de cinema como um local essencial de partilha —e de celebração da capacidade humana de pensar e criar futuros melhores.













