A indiferença é brutal

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A indiferença é brutal



Na tradicional missa da Páscoa, em um domingo de restrições em Jerusalém, o pontífice alertou para a apatia diante do sofrimento dos outros

Por

JC


Publicado em 06/04/2026 às 0:00

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Enquanto o mundo assiste ao aumento dos conflitos armados, das invasões e crimes de guerra, e da insegurança de populações à mercê de líderes insensatos, com a escalada da crise no Oriente Médio, as vozes pacifistas restantes parecem pregar para uma multidão atônita e impotente. Seja no tablado da diplomacia internacional, seja do púlpito sagrado em que a indignação é externada, as palavras contra as trocas de mísseis e drones, a retórica de ameaças e ofensas e, até mesmo nos países em paz, a disparada dos gastos com armas, soam como palavras sem direção. Nas ditaduras e nas democracias, o século 21 é marcado, em seu primeiro quarto, pelo investimento crescente na violência.
Em mais um alerta aos patrocinadores das guerras, matanças e destruições, o papa Leão XIV aproveitou o domingo de Páscoa para disseminar a mensagem da paz, acuada por estilhaços, bombardeios e sangue. Além de rogar pelo entendimento do diálogo que silencie as bombas, o papa falou sobre a naturalização da violência em nossos dias. Recordando a expressão de seu antecessor, o papa Francisco, que se referiu à globalização da indiferença, Leão XIV afirmou: “Estamos nos habituando à violência, nos resignando a ela e nos tornando indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências econômicas e sociais que produzem e que todos sentimos”.
Para o pontífice, há um ciclo de ódio que impulsiona a pulsão de morte para o cotidiano das nações, estimulado por lideranças para as quais a indiferença é licença para matar e bombardear. No dia em que o símbolo da ressureição do Cristo evoca “uma vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio”, até a restrição de visitantes em Jerusalém, cercada pelo medo da guerra, representa a derrota dos valores máximos cristãos – da vida, do amor e da luz – para tudo que a violência traz.
“Todos temos medo da morte e, por medo, voltamo-nos para o outro lado, preferimos não olhar, mas não podemos continuar indiferentes! Não podemos resignar-nos ao mal!”, conclamou o líder supremo da Igreja Católica, cuja figura deteve efetivo poder político – inclusive liderando conflitos – num passado distante. Hoje, a manifestação do papa numa conjuntura de evidente fracasso da humanidade, que não se vê como um todo, mas fragmentada e dividida, deveria ser um chamado á razão para a superação da barbárie institucionalizada. Mas a voz de Leão XIV retumba mais, a exemplo da voz de Francisco, feito sintoma de nosso erro coletivo.
Dos cidadãos comuns, dos políticos, legisladores e juízes, dos autocratas que posam de salvadores, dos bilionários que lucram ou perdem dinheiro como se a vida dos outros não passasse de peças de um jogo fútil. A brutalidade da indiferença humana é desumana, quando até a Páscoa se apaga, apocalipticamente.



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