Na noite de quinta-feira (25), Ouro Preto viu um encontro marcante da cultura brasileira. Em uma cerimônia no cinema a céu aberto na praça Tiradentes, a diretora Helena Solberg recebeu o troféu Vila Rica aos 88 anos. Logo em seguida, foi homenageada por duas cineastas das gerações seguintes, Lúcia Murat e Tata Amaral.
No frio que dominava o espaço central da cidade histórica mineira, as três vestiam casaco e cachecol.
À direita de Solberg, estava Murat, de 77 anos, que exibiu nesta edição da CineOP “Que Bom Te Ver Viva”, seu primeiro longa-metragem. À esquerda, Tata, de 65, que vai apresentar a cópia restaurada de “Um Céu de Estrelas”, também seu longa de estreia.
Um dos motes da mostra mineira é “Como Elas Começaram? Memórias do Primeiro Filme”. Esse olhar momentâneo para o passado não significa, porém, excesso de nostalgia. As três continuam filmando.
Pioneira de um cinema de acento feminista no Brasil, Solberg falou sobre “A Entrevista”, de 1966, e “Meio-dia”, lançado quatro anos depois, seus dois filmes que seriam exibidos na sequência.
O primeiro, disse ela, “é uma revisão da minha formação burguesa e seus valores”. O segundo, “uma metáfora sobre a censura e a repressão, um filme experimental anarquista”.
“Vocês vão conhecer duas joias raras que muito inspiraram a minha geração”, complementou Tata.
Muito inovador para a época, “A Entrevista” mantém seu ímpeto criativo seis décadas depois. Como jovem da classe média-alta do Rio de Janeiro, Solberg olha para si mesma e põe em xeque o que vê. Mas o curta está distante de uma observação ensimesmada.
Por meio de uma jovem que vai à praia e, em seguida, prepara-se para o casamento, o filme questiona a sexualidade e as perspectivas profissionais das mulheres, além da vida política do país.
“Meio-dia” não resistiu ao tempo tão bem quanto o curta anterior. Mas merece ser visto como um gesto de rebeldia ao sabor da época, ao som de “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso.
Ao final da sessão, os aplausos foram veementes. Assim, como aconteceu alguns anos atrás com amigos da sua geração, como Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, a produção inicial de Solberg vai sendo redescoberta.
No dia seguinte, quando questionada se ela se considerava uma “cinemanovista”, Solberg respondeu que sim —e não. “O cinema novo tinha essa característica de retratar quem era explorado, e eu queria descobrir quais eram as forças que atuavam na minha formação, não na do outro.”
Por outro lado, ela gostava de conviver com nomes como Glauber Rocha e Mário Carneiro, responsável pela fotografia de “A Entrevista”, além de Cacá e Jabor. E todos —ela e eles— pensavam que iriam “mudar o mundo”.
A visão de Solberg sobre a realidade feminina sempre foi intuitiva —costuma dizer que, no caso dela, “a intuição chega antes da linguagem”. Mas também foi estimulada por livros, como “A Mística Feminina”, da ativista Betty Friedan, publicado em 1963. E lia avidamente Simone de Beauvoir.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
No início da década de 1970, Solberg se mudou para os Estados Unidos, onde realizou três documentários, mais tarde amarrados sob o nome de Trilogia da Mulher.
Em “A Nova Mulher”, de 1974, reconstitui a história do movimento feminista na Inglaterra e nos EUA. Lançado no seguinte, “Dupla Jornada” se baseou em viagens de Solberg por quatro países da América Latina para mostrar a vida de operárias e camponesas. Em “Simplesmente Jenny”, de 1977, ela ouviu jovens bolivianas vítimas de violência.
Esses três estão em exibição no site da CineOP.
Um de seus últimos filmes antes de voltar definitivamente para o Brasil foi “Carmen Miranda – Banana Is My Business”, de 1995, um de seus trabalhos mais premiados.
“Helena é uma grande inspiração para as cineastas mais jovens porque, entre outros motivos, começou na década de 1960 e segue filmando até hoje, mesmo com tantos desafios pelo caminho”, disse Mariana Tavares, autora do livro “Helena Solberg – Do Cinema Novo ao Documentário Contemporâneo”, durante debate em Ouro Preto.
Agora a diretora prepara seu 18º filme, um documentário sobre Wesley Teixeira, um jovem líder evangélico do Morro do Sapo, em Duque de Caxias. Grande parte das filmagens já foi feita, mas ela conta que ainda se inquieta com muitas dúvidas. “Todo filme é uma aventura”, diz.
‘O Ébrio’ de volta
Na sexta-feira à noite, a praça central de Ouro Preto recebeu a primeira exibição pública da nova cópia de “O Ébrio”, dirigido por Gilda Abreu. Lançado em 1946 pela produtora carioca Cinédia e logo um sucesso enorme de bilheteria, esse melodrama demonstra como uma restauração cuidadosa pode dar outra vida a um filme.
Com o cantor Vicente Celestino como protagonista, o longa-metragem foi produzido por Adhemar Gonzaga, fundador da Cinédia em 1930.
A cópia anterior expunha diferenças evidentes nas tonalidades de preto e branco, além de uma série de ruídos.
Sob a liderança do pesquisador e conservador Hernani Heffner, a equipe do laboratório da Mapa Filmes/Link Digital, do Rio de Janeiro, corrigiu desajustes de som e enquadramento, entre outros detalhes, para transformar “O Ébrio” em um arquivo digital em 4K –resolução de cerca de 4.000 pixels, classificada como de alta definição; quanto mais pixels, mais nítida é a imagem.
Como já escreveu o crítico Inácio Araújo, “O Ébrio” não é uma obra-prima. Alguns dos seus lances cômicos ainda podem divertir, mas os excessos melodramáticos têm envelhecido mal.
Ainda assim, sua relevância histórica é indiscutível, como fenômeno de público, como registro do alcance de Celestino e ainda como um testemunho da vida privada no Brasil de oito décadas atrás.
Segundo Alice Gonzaga, filha de Adhemar e diretora da Cinédia, a produtora tem 56 filmes em catálogo, dos quais pelo menos 20 foram restaurados nos últimos anos. O Sesc tem apoiado alguns desses projetos, como “O Ébrio”.
Aos 91 anos, Alice planeja iniciar a recuperação de “Tererê Não Resolve” e “Maridinho de Luxo”, ambos dirigidos por Luís de Barros em 1938, e “Eterna Esperança”, filme de Leo Marten de 1940.
Como Helena Solberg, Alice não quer saber de parar.
O jornalista viajou a convite da CineOP














