Um rio de tecido corre pelo palco, veloz, suas ondas se agigantando. Leques de plumas giram em círculos, imitando o movimento dos girassóis em busca de luz. Formas fosforescentes se metamorfoseiam no breu do teatro, ora abstratas, ora figurativas —para confusão do espectador, que passa parte do número tentando entender como o truque funciona.
É exatamente essa reação de assombro que a Momix, companhia de dança dos Estados Unidos atualmente em turnê pelo país, deseja gerar, afirma o seu criador, Moses Pendleton. “Gosto de situações em que sentimos que não podemos acreditar nos nossos próprios olhos”, diz ele, acrescentando que muito do seu trabalho consiste em pesquisar como aguçar os sentidos do público. “No fundo, é sobre treinar o cérebro.”
A trupe se apresenta em Belo Horizonte nesta quarta (30) e em São Paulo de sexta (2) a domingo (4) —a temporada brasileira, que teve início no Rio de Janeiro na semana passada, termina com espetáculos em Curitiba em 6 de outubro e em Porto Alegre em 8 de outubro.
Pendleton iniciou sua carreira na dança em 1971, quando fundou com colegas de faculdade a histórica Pilobolus, outra companhia dedicada a criar ilusões no palco ao combinar dançarinos habilidosos, objetos cênicos inventivos e artifícios de iluminação. O Momix, seu trabalho solo, veio dez anos depois, em 1981, e já foi visto por mais de 3 milhões de pessoas ao longo de suas quatro décadas de existência.
Hoje, porém, o americano de 77 anos diz se ver menos como um coreógrafo e mais como um artista visual, “um pintor ou um escultor” que usa “corpos, luz e som para criar imagens”.
Com um entusiasmo juvenil, ele conta que anda mais interessado em fotografia do que em qualquer outro meio —são de autoria dele a maioria das imagens projetadas sobre o cenário e os figurinos e adereços dos dançarinos no espetáculo apresentado na turnê, “Botanica”.
“Sou um amador. Não sou, sabe, um fotógrafo de verdade. Mas isso provavelmente é uma coisa boa, porque tenho diversas musas bem no meu quintal”, ele diz, referindo-se às dezenas de espécies de flores que cultiva no jardim. “Acho que a fotografia está me ajudando a ver mais. E não é preciso ir longe, basta abrir os olhos.”
Essas projeções representam, aliás, a principal inovação desta montagem do espetáculo em relação à sua versão original, encenada nos Estados Unidos em 2009 e no Brasil em 2011, durante a décima vinda do grupo ao país —esta é a 13ª. De lá para cá, as tecnologias de iluminação cênica avançaram muito, comenta Pendleton.
Também houve mudanças sutis na duração dos números e na trilha sonora, alterações que, segundo o diretor, tinham como principal objetivo aumentar o valor de produção da obra. “Achamos que a versão antiga precisava de uma ‘poda’, se me permite a metáfora”, ele brinca.
“Botanica” propõe um passeio lúdico pelas quatro estações do ano, com dez bailarinos-acrobatas se revezando entre seres reais e imaginários da flora e da fauna. Eles fingem ser flores e árvores, aves e mamíferos —a certa altura, até um dinossauro aparece.
É um retrato bastante idealizado da natureza, que contrastava com os ventos de mais de 70 km/h registrados no Rio de Janeiro na segunda-feira passada (21), véspera do início da turnê do espetáculo pelo país.
Questionado se as transformações provocadas pelas mudanças climáticas motivaram um olhar diferente sobre “Botanica” desde a sua criação, Pendleton responde que esta é uma preocupação recorrente dele. Ele vive na zona rural de Connecticut, no nordeste dos Estados Unidos. “Os incêndios florestais pelo mundo têm me deixado apavorado, para ser sincero.”
Mas, prossegue, seu maior desejo não é compartilhar “os seus impulsos mais patológicos com a plateia”. Daí a visão idílica do meio ambiente que o Momix propõe, não só em “Botanica”, mas também em outros espetáculos, que com frequência jogam com as semelhanças entre as formas humanas e não-humanas.
“Não posso falar pelos outros, mas há artistas que adoram te deixar morrendo de medo”, diz Pendleton. “Costumo dizer que o Momix não deve mostrar como o mundo é na realidade. Você já lê sobre isso na primeira página do jornal todas as manhãs. Tentamos mostrar como o mundo poderia ser em uma fantasia, algo um pouco mais positivo, mais criativo.”












