Antes de responder à segunda pergunta, Sheila Hicks põe na mão do repórter um pequeno trabalho seu, feito de fios verdes. Manda segurar.
“Feche os olhos, pense na sua próxima pergunta, mas continue segurando isso”, diz. “Seus pensamentos começam a se organizar. Fica mais real, mais centrado. Porque isso tem uma verdade tátil. O resto é mental.”
Foi assim a hora e meia seguinte, no pátio do século 14 onde ela vive e trabalha desde os anos 1970, escondido atrás de dois portões em Saint-Germain-des-Prés. A entrevista começou num banco ali fora, seguiu pela vizinhança, com ela apontando as fachadas onde, segundo conta, se imprimiam panfletos clandestinos da Revolução Francesa e se fabricavam guilhotinas, e terminou dentro do ateliê —ele não é grande e está forrado do chão ao teto de tecidos, fios e cor, quase um mundo à parte.
Aos 92 anos, Hicks responde a tudo com paciência e bom humor, mas no ritmo dela. Entre uma resposta e outra, pergunta “o que você faz da vida?”, oferece chá, chama as assistentes, abre livros e corrige o rumo da conversa. A energia impressiona menos que a curiosidade, que é o motor de tudo. Ela pergunta mais do que responde.
Sete pessoas de nacionalidades diferentes circulam pelo ateliê durante a semana. No chão se acumula o que embarca nos próximos meses para o Palais des Beaux-Arts de Lille, na França, e, depois, para o Padiglione d’Arte Contemporanea, em Milão. Agora é a vez do Brasil.
Nascida em Hastings, no estado americano de Nebraska, e hoje uma das figuras centrais da arte contemporânea, com obras no MoMA, no Met, no Pompidou e na Tate, Hicks passou quase 70 anos fazendo com fibra o que se esperava que fizesse com tinta, numa época em que o têxtil era tratado como artesanato de segunda linha. A partir desta semana, São Paulo recebe duas exposições dela ao mesmo tempo, as primeiras no país desde a 30ª Bienal de São Paulo, há 14 anos.
Na galeria Nara Roesler, “Autobiografia de um Fio” reúne mais de 20 trabalhos produzidos desde 2017, vários inéditos. São monocromos têxteis que dialogam com a Bauhaus, as pequenas tramas que ela chama de “minimes” e as “boules”, novelos densos de algodão, linho, náilon e seda, dentro dos quais a artista costuma esconder objetos pessoais que o público jamais verá.
É a primeira individual dela numa galeria brasileira. A curadoria é de Luis Pérez-Oramas, diretor artístico da galeria, que descreve a montagem como uma germinação, do mínimo ao monumental. Foi ele quem trouxe Hicks ao Brasil pela primeira vez, como curador-geral da Bienal de 2012, e é ele quem assina agora, com Ana Roman e Paulo Miyada, também a mostra do Tomie Ohtake.
No Instituto Tomie Ohtake, “O que que É Isso?” ocupa duas das maiores salas da casa com obras das últimas seis décadas, dispostas sem cronologia nem narrativa. Há colunas, trouxas, painéis, cortinas, peças que cabem na palma da mão e outras em escala de arquitetura. O critério da montagem não é a data, é o corpo de quem visita —o percurso, a percepção do espaço, a experiência da cor.
A mostra volta também ao período de formação da artista, com registros de suas viagens pela América Latina nos anos 1950, e pendura têxteis andinos do comodato Masp Landmann ao lado das obras dela. As duas exposições serão acompanhadas de uma publicação conjunta do instituto e da Nara Roesler Books.
Se estará em São Paulo na abertura, não sabe. Diz, rindo, que não sabe nem se estará ali no dia seguinte —nessa idade, ficou difícil assumir compromisso com muita antecedência.
O título da mostra do Tomie Ohtake é a pergunta que Josef Albers —mestre da Bauhaus exilado nos Estados Unidos e então professor em Yale, onde ela estudava— fez a ela nos anos 1950. Hicks corrige a versão mais contada da história.
“Ele não viu um tear. Não tinha tear nenhum. Ele viu bricolagem”, diz. “Eu estava no departamento de pintura, e ele passava pelas mesas, quase todos garotos. Chegava na minha e falava ‘garota, o que é isso que você está fazendo?’ Olhava minhas pinturas, depois olhava aquilo na mesa. Retalhos, sementes, fósforos, pedaços de pau. Galhos. Nós.”
Por que largou a tinta pelos fios, ela explica sem apelo nenhum à teoria. “Eu queria dar a volta nos cantos, sair por trás, voltar pela frente, esconder, reaparecer. Na pintura, eu não conseguia fazer isso.”
E o que respondeu a Albers? “Eu queria muito saber. Continuo com a mesma resposta.” Sobre em que momento entendeu o que estava fazendo, é igualmente econômica. “Não estava claro. Continua não estando.”
A primeira vinda a Paris também não foi decisão dela. Quem a intimidou, conta, foi um professor de francês de Yale, com uma frase que ela repete até hoje, imitando o sotaque. “‘Mademoiselle’, a senhora nunca será uma mulher culta enquanto não conhecer ‘la France'”. Ele lhe deu uma bolsa e pediu que não o decepcionasse, porque era a primeira mulher a receber aquele dinheiro. “Fiquei com raiva. Me senti diminuída”, diz. “Mas fiz o meu trabalho. E ainda estou fazendo.”
O que a interessa mais, porém, não é o passado. É o primeiro gesto do dia. “Você acorda de olhos fechados e decide se levanta ou não. O que faz para se confortar? Toca onde está dormindo. O lençol, o travesseiro. Você pensa também com os dedos. Se estivesse tocando cubos de gelo ou espinhos, ia querer ficar escondido ali.”
Daí a pergunta quase obrigatória —o que sobra disso num tempo em que as crianças crescem tocando vidro liso? Hicks não faz o discurso nostálgico esperado. Diz que olha o celular todas as manhãs, vê o noticiário, vê Instagram, e que aquilo se parece com uma lembrança de infância, no banco de trás do carro dos pais, atravessando o Nebraska e olhando pela janela.
“Agora a janela é uma tela”, diz. “E amanhã você troca de lugar com o seu irmão e olha para o outro lado. Às vezes você vai para o banco da frente, ao lado do seu pai, que está dirigindo, e aí você vê a estrada. Vê as placas. Vê as escolhas. E pergunta por que ele pegou este caminho e não aquele. Aonde estamos indo? E ele responde ‘não sei, estamos explorando’.”
Então ela emenda, sem que ninguém tenha puxado o assunto. “É nisso que a gente pensa agora, na situação política do mundo. Somos todos reféns? Não temos poder. Não estamos no comando do nosso destino. Não sabemos para onde vamos. Mas mantenha os olhos abertos, porque talvez seja preciso descobrir como dar meia-volta.”
Americana que vive em Paris desde 1964, ela responde à pergunta sobre como vê o país de origem em poucas palavras. “Através de um telescópio. Depende de que parte eu estou olhando.” Depois devolve a pergunta ao repórter.
Sobre inteligência artificial, o mesmo. “Perplexa. Estou perplexa. Acho que quase todo mundo está. Fique acordado. Vamos ver o que acontece.”
A discussão que a persegue há décadas, se o que ela faz é arte ou outra coisa, ela recusa de saída. “A arte não precisa de passaporte”, afirma. “Qualquer um pode fazer arte e descobrir arte do seu jeito. O vizinho vai dizer que não é arte, vocês vão brigar, e aí você diz ‘então me mostra o que é arte para você’. E começa uma conversa muito interessante.”
O Brasil entrou cedo nessa história. Hicks diz ter pisado no país pela primeira vez em 1958, na perna final da longa viagem pela América Latina que definiu sua obra, a mesma em que expôs em Santiago e Buenos Aires. Perguntou a quem encontrava quem eram as pessoas criativas dali, ouviu dois nomes e foi atrás dos dois.
“Eles me convidaram. Fui visitar cada um na casa dele”, diz, referindo-se a Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx. Brasília ainda não passava de canteiro e ela não chegou a ir. Perguntada se o Brasil deixou marca no seu trabalho, não cita técnica nem referência. Fala do tamanho do país. “É maravilhoso. É vasto. É aberto. Todo dia é uma surpresa. Cada direção que você toma é uma surpresa.”
Mais de meio século depois, ela voltaria a São Paulo para expor num pavilhão no Ibirapuera —o parque que Niemeyer e Burle Marx projetaram juntos. Era a Bienal de 2012, e da janela ela via, toda manhã, uma centena de pessoas fazendo ginástica lá fora.
Ela e a equipe passaram a imitar os exercícios do lado de dentro do vidro. O pessoal riu. Alguns começaram a contornar o prédio para ver o que era aquilo e foram barrados na bilheteria por não terem ingresso. “Eu disse que eram meus amigos”, afirma. “A gente tinha feito amizade através do vidro.” Hicks diz esperar que aconteça de novo agora.













