São Paulo
Conhecido por retratos exibidos em placas de vidro na biblioteca Mário de Andrade e na estação de metrô Sumaré, Alex Flemming está em cartaz em São Paulo até o fim de agosto com “Apocalipse”. A série de telas reflete a preocupação do artista com o clima bélico no mundo ao imaginar a destruição de construções emblemáticas no mundo.
Exposição “Apocalipse” de Alex Flemming usa casarão de Ramos de Azevedo de cenário para mostrar a destruição da memória e da sociedade
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João Pedro Adania/Folhapress
Por isso, o cenário é tão importante para entender o ponto de vista de Flemming. Desde 10/8, ele ocupa um imóvel construído pelo arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928), que projetou o Theatro Municipal e o Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca). O prédio também fica na antiga rota usada por indígenas para conectar o litoral ao interior do continente sul-americano, chamada de Caminho do Peabiru.
Porém, tanto a importância do edifício quanto sua relevância geográfica estão esquecidos, afirma Flemming. Ele explora, então, sentido na deterioração das paredes, na irregularidade do piso, na falta de luz elétrica em alguns cômodos e nas vidraças quebradas.
O efeito dessas imperfeições no prédio contribui com a exposição, ajudando a construir um campo de significados para quem visita. “Aqui o público imerge na ruína caindo aos pedaços, tropeça no chão”, diz. “Isto é o esquecimento, isto é a destruição, isto é o apocalipse.”
A escuridão causada pela falta de luz em alguns trechos reforça o tema do esquecimento, além de ser contraponto aos museus tradicionais, que o artista chama de cubos brancos —neutros, claros, limpos e imunes ao que acontece do lado de fora.

Alex Flemming expõe obras em casarão centenário em São Paulo
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João Pedro Adania/Folhapress
Nos quadros de “Apocalipse”, ele imagina a ruína da igreja de Notre-Dame, em Paris, o templo da Sagrada Família, em Barcelona, e a ponte de Londres, por exemplo, a fim de representar a destruição da própria civilização.
As pinturas também mostram a explosão do Palácio do Alvorada, em Brasília, do Museu Guggenheim, em Nova York, e da mesquita Azul, em Istambul.
Mas a série não surgiu no vácuo. O estopim foi em 2015, quando terroristas invadiram a casa de shows Bataclan, na capital francesa, deixando 90 mortos. Outras 40 pessoas morreram naquela noite, em uma série de ataques. Reivindicado pelo Estado Islâmico, foi atentado mais letal da história do país europeu.
Também integra a mostra a coleção “Retratos Invisíveis”, que reúne quadros que abordam o sumiço das pessoas, e seus objetos como forma de lembrança. Em “O Dentista”, é possível ver luvas, jaleco e óculos —mas nada da pessoa que os usava.
A série usa referências ao artista alemão Christian Schad (1894-1982), mas a principal conexão entre as obras é a valorização do retrato. Também é uma forma de Flemming sinalizar que voltou a viver no Brasil após 34 anos em Berlim.
A mostra do artista ocupa um palacete centenário localizado no centro de São Paulo que foi comprado por um empresário após décadas de abandono. A propriedade, que estava havia cerca de 90 anos sem ocupação permanente, deve passar por um processo de restauração parcial e ser transformada em um centro cultural aberto ao público.
Apocalipse
R. Roberto Simonsen, 97, região central. De seg. a dom., das 11h às 16h. Até 30/8. Grátis.
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