Como o corpo feminino se torna uma arma de expressão na arte

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Como o corpo feminino se torna uma arma de expressão na arte


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A artista Regina José Galindo é despida aos poucos, peça por peça. Quem tira suas roupas são os espectadores da performance “Deportada”, em exibição no Masp (Museu de Arte de São Paulo). Ao lado da artista, uma pilha de roupas vai crescendo.

Ela traja vestes de Cristina Cazales Pacheco, uma mexicana forçada a deixar Nova York e retornar ao seu país natal. A performance é uma alusão à perseguição aos imigrantes em curso nos Estados Unidos.

“O corpo é uma arma de expressão, de luta, resistência e resiliência”, disse a artista em uma entrevista ao repórter Davi Galantier Krasilchik.

Tanto é uma arma de expressão que faz parte de uma longa história da presença feminina nas artes visuais. Em abril deste ano o MAC-USP fez uma mostra sobre a vanguarda feminina dos anos 1970. A exposição, que ficou em cartaz até o fim do mês passado, incluía 60 obras da coleção artística Verbund, criada em 2004 para incluir mais mulheres no cânone da arte.

A curadora Gabriele Schor se fiou nesse marco da década de 1970 por ter sido um período de efervescência na produção feminina e feminista. Foi quando emergiram artistas como a italiana Marcella Campagnano e as austríacas Renate Bertlmann ou a Valie Export. Essa última retratou a si mesma numa colagem como a “Pietà” de Michelangelo, com as pernas abertas e dando à luz uma máquina de lavar roupas.

A onda vinha também das Américas. Nos Estados Unidos, Mierle Laderman Ukeles transformava o cuidado e as tarefas domésticas no seu manifesto de 1969, em que se posicionava como “artista de manutenção”. O documentário “Maitenance Artist”, de 2025, lembra a trajetória da artista.

A cubana Ana Mendieta, lembrada pela minha colega Angela Boldrini na edição de 9 de julho desta newsletter, se embrenhava na terra para explorar as relações do corpo feminino com o ambiente.

No Brasil, a série “Fotopoemação”, de Anna Maria Maiolino, balançava as estruturas com registros fotográficos como “Por Um Fio”, em que um barbante conectava a artista a sua mãe e sua filha, representando a passagem do tempo e a ancestralidade.

Maiolino e Mendieta foram parte da exposição “Mulheres Radicais”, em cartaz no Museu do Brooklyn, em Nova York, e depois na Pinacoteca, em São Paulo, em 2018. Elas são lembradas no documentário homônimo, lançado em 2023. Para quem se interessa pelo tema, a Pinacoteca disponibiliza para venda o catálogo da exposição.

Recomendo, ainda, a leitura deste texto escrito pela curadora da exposição, Cecilia Fajardo-Hill. Nele, ela destrincha o sexismo do mundo das artes.


Uma mulher para conhecer

Existe um ditado que diz: por trás de todo grande homem há uma grande mulher. É datada essa ideia de que as mulheres devem estar nos bastidores do sucesso dos homens, mas a história da arte está repleta de casos assim.

Eileen O’Shaughnessy é um desses casos. Nascida na Inglaterra em 1905, ela foi casada com George Orwell, autor de “1984” e “Revolução dos Bichos”. A relação durou até a morte dela, em 1945, por complicações de uma cirurgia de endometriose.

Formada em literatura em Oxford, onde teve aulas com J.R.R. Tolkien, ele teve um papel crucial na obra do marido. Depois que Orwell e O’Shaughnessy se casaram, a escrita dele foi da água para o vinho.

Amigos do escritor e até seu editor notaram melhora. Os biógrafos de Orwell creditaram a mudança ao casamento. Mas não a Eileen. Para eles, a escrita de Orwell melhorou porque agora ele fazia sexo regularmente.

A figura de Eileen foi redescoberta pela jornalista australiana Anna Funder, que se debruçou sobre a esposa no livro “A Vida Invisível da Sra. Orwell”, uma mistura de ensaio e biografia romanceada.



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