“Quando você fala em regulação e taxação [de empresas de inteligência artificial], em cinco segundos aparecem cem funcionários dessas empresas para fazer lobby no Congresso”, afirmou o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, nesta quinta-feira (23). “Tem que ser por aí”, completou.
A afirmação foi feita numa mesa da CasaFolha, espaço do jornal na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. O encontro, que teve também a participação da colunista da Folha Carol Tilkian e foi mediado pelo jornalista Uirá Machado, editor da CasaFolha, discorreu sobre os impactos da inteligência artificial no jornalismo e nos relacionamentos.
Dávila respondia a uma pergunta do público que relembrava as acusações de racismo contra agentes de inteligência artificial e questionava quem responsabilizar pelo viés do algoritmo. O jornalista havia contado uma anedota: perguntara a uma IA quais seleções não tinham jogadores negros na Copa do Mundo de futebol masculino de 2026. A primeira resposta, disse, foi estereotipada, citando países como a Suécia, a Suíça e o Japão. As três equipes, embora tenham populações negras minoritárias, têm jogadores negros defendendo o país.
“O problema é que essas empresas são como a República Popular da Coreia do Norte, não têm ombudsman, não têm ouvidor”, disse Dávila, que elogiou o modelo europeu de regulamentação. “Eles disseram: ‘Olha, se vocês querem ser acima da lei, acima dos países, acima de tudo, a gente vai começar a taxar e regular, porque são as duas maneiras que eles respondem’.”
Em julho de 2025, as autoridades da União Europeia anunciaram novas regras para os sistemas de IA mais poderosos, como os de OpenAI, Microsoft e Google, que terão de melhorar a transparência, limitar violações de direitos autorais e proteger a segurança pública. A nova regulação começa a vigorar a partir de 2 de agosto e será implementada em etapas.
O diretor de Redação também comentou as negociações feitas pela Folha com as empresas OpenAI e Google. Em maio, o jornal, juntamente com o UOL, firmou o primeiro acordo comercial de uma empresa de mídia brasileira com a OpenAI, responsável pelo ChatGPT.
A nova parceria serve para fornecer conteúdo jornalístico para o ecossistema de inteligência artificial da empresa de tecnologia, elevando a confiabilidade das respostas entregues pelo chatbot. Os termos dos acordos são sigilosos, mas Dávila afirmou que eles são “vantajosos para os dois lados” e defendeu o diálogo com as empresas.
O objetivo é coibir a apropriação de reportagens pelas tecnologias sem remuneração para os veículos. “Nós adotamos a postura de primeiro chamar para conversar, depois mandar uma notificação extrajudicial e, se não funcionar, entramos com uma ação judicial”, afirmou.
Foi o que aconteceu com a OpenAI, em agosto de 2025 —o processo foi encerrado com o acordo deste ano. Já com o Google, a Folha firmou parceria em abril de 2026.
Seguindo a pergunta norteadora do debate, “qual destino estamos construindo com a inteligência artificial?”, Carol Tilkian, que é psicanalista, analisou o uso da tecnologia em relacionamentos amorosos, afetivos e terapêuticos. Para ela, a busca pela otimização do tempo, das respostas e o constante desejo pelo “melhor” são prejudiciais às interações.
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“Quanto menos a gente se autoriza a dividir as intimidades, mais a gente usa a IA como ferramenta para desabafo e elaboração”, afirmou, lembrando pesquisa que mostra que 1 em cada 4 brasileiros diz não se sentir próximo a ninguém.
Usar a tecnologia como terapeuta, diz, minimiza o atrito que é natural da conversa humana. “É querer que alguém entenda e traduza nossas emoções e não é sobre traduzir, é sobre mudar de posição, estranhar”, disse —e ponderou que o processo terapêutico não deve levar a boas respostas, mas a fazer melhores perguntas.
A psicanalista afirmou que a lógica também se aplica aos relacionamentos. Pacientes, contou, chegam ao consultório dizendo que enviaram conversas com o parceiro para agentes de inteligência artificial para saber quem estava certo, ou fazem perguntas para entender o sentido de questionamentos do outro.
“Você não sabe por que quis se separar, não tem um único motivo claro depois de 20 anos”, afirmou Tilkian. “A IA dá respostas claras pra coisas que são da ordem do sentir”, concluiu.
Mais cedo, Machado dividiu uma mesa com Mauricio Stycer, colunista do jornal, numa conversa mediada pelo jornalista João Gabriel de Lima.
Ambos conceberam livros a partir da trajetória de pessoas quase desconhecidas do grande público. Stycer lançou neste ano “Rotas de Fuga”, com aventuras de seus antepassados, enquanto Machado esmiuçou a vida do enxadrista Henrique Mecking, o Mequinho, no livro “Entre Bispos e Reis”.
O astro do esporte nasceu em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 1952, e impressionou por, desde criança, ter enfrentado adultos de igual para igual. Em 1972, quando se tornou o primeiro brasileiro reconhecido como Grande Mestre de xadrez, foi tratado como um herói nacional.
“Foi recebido pela torcida do Flamengo, pela bateria da Mangueira. Organizaram uma recepção para ele no aeroporto. Imagina, um enxadrista com recepção inspirada naquela da delegação campeã do mundo em 1970”, disse Machado.
A ditadura militar decidiu instrumentalizar o sucesso para colher vantagens políticas. No entanto, no auge do sucesso, ele surpreendeu a todos ao se afastar dos torneios. À época, afirmou que tinha miastenia gravis, uma doença que afeta os músculos e, em casos mais severos, pode levar à morte. Até hoje, porém, pairam dúvidas sobre o diagnóstico.
Isso porque o médico do torneio do qual ele desistiu descartou problemas físicos, atribuindo o quadro a um transtorno psiquiátrico. “Para a comunidade enxadrista, prevaleceu a leitura desse cardiologista a respeito do estado mental do Mequinho. No meio e na imprensa repercutiu muito mal.”
A partir daí, ele se voltou ao grupo Renovação Carismática Católica para buscar cura. Após uma sessão, ele conseguiu se levantar da cadeira e sair de casa pela primeira vez em meses. Tornou-se, então, um divulgador do movimento cristão.
O jornalista esbarrou com a história do esportista há seis, quando começou a estudar xadrez na internet. Um dos vídeos explorava justamente a trajetória do grande mestre. “E aí eu vi que era um baita personagem à procura de um biógrafo.”
No caso de Stycer, os personagens que ele escolheu retratar sempre permearam a sua vida. Em “Rotas de Fuga”, ele retrata as aventuras de Jacob, Abraham e Boruch, respectivamente o avô materno, o tio paterno e o pai do jornalista. Além da relação de parentesco com Stycer, os três guardam em comum histórias de resistência.
Jacob desertou do Exército russo durante a Primeira Guerra Mundial. Abraham foi um militante socialista preso pelos soviéticos que migrou para os Estados Unidos. Por lá, continuou a militância sindical até o fim da vida. Por fim, Boruch passou a Segunda Guerra Mundial em Xangai, para onde se refugiou após escapar da perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial.
“Sempre que comentava isso com alguém, provocava estupor. ‘Como é que seu pai passou a guerra em Xangai? O que é isso?’”, disse Stycer. “E eu, muito lentamente, fui conhecendo essa história.”
O processo de fato não foi rápido. Isso porque o pai do jornalista tinha dificuldade em narrar o que viveu durante o conflito em razão da violência.
“A dificuldade de falar sobre o trauma é uma coisa muito comum entre pessoas que viveram experiências traumáticas de guerra. Meu pai não evitava falar, mas falava muito moderadamente.”














