Crítica: Documentário sobre Martin Short é o filme mais delicioso do ano

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Crítica: Documentário sobre Martin Short é o filme mais delicioso do ano


Em uma das inúmeras férias passadas na casa à beira de um lago, no Canadá, de Martin Short e sua família —à época formada pelo ator, sua mulher, Nancy Dolman, sua mais fiel admiradora e eterna parceira de tudo na vida, os três filhos adotivos do casal e os amigos que ele convidava todos os anos e que nunca perdiam a oportunidade de aparecer—, ele e Tom Hanks decidem fazer, de brincadeira, uma releitura de uma cena do clássico “Butch Cassidy and the Sundance Kid“.

Em um barco, Tom Hanks, falando como se fosse Forrest Gump interpretando Robert Redford, e Martin Short, no papel de Paul Newman, recriam em tom de paródia uma das cenas mais marcantes do faroeste. Nela, os dois ladrões, encurralados pela polícia e sem outra saída além de saltar de um penhasco rumo a um rio de águas geladas, vivem um momento inusitado: Sundance Kid, personagem de Redford, confessa a Butch Cassidy que não sabe nadar. O parceiro mais experiente cai na gargalhada, amarra a própria mão à do amigo e, sem dar espaço para hesitações, salta do penhasco.

A filmagem da cena entre amigos ficou gravada porque um dos convidados das viagens de férias era Steven Spielberg, que conta depois em entrevista que, como não tinha nenhum talento para divertir os amigos, se escondia atrás de sua câmera de super 8. Em outra festa, em que todos eram sempre convidados a cantar, tocar piano ou fazer alguma cena cômica, a atriz Sally Field levanta a saia e sobe em cima do piano, de onde pega o microfone e canta uma música.

A câmera caseira parece onipresente, e há cenas íntimas, como Martin Short lendo um livro com um dos filhos com menos de um ano, ou, em outra situação, assistindo ao bebê vendo uma cena do pai na TV e morrendo de rir. Em várias passagens quem filma é o próprio ator, e, pelo menos no que entrou na uma hora e quarenta minutos da duração do documentário “Marty Life is Short”, ele nunca encontrava nenhuma resistência de sua mulher, que parecia achar graça do marido sempre. Como mais de um entrevistado confirma, Nancy ria das piadas de Martin Short como uma pessoa normal, não como sua mulher. Ou seja, de verdade. Acho.

O diretor do documentário é um dos amigos que frequentava as casas e as festas da família de Martin Short, tanto em Los Angeles, onde moravam por causa do trabalho, quanto na beira do lago na região de Toronto, onde passavam as férias. E esse amigo é Lawrence Kasdan, diretor dos clássicos “The Big Chill”, “Silverado”, “Wyatt Earp” e “Corpos Ardentes”, entre muitos outros.

Short é canadense e desembarcou nos Estados Unidos ao lado de uma geração de conterrâneos que incluía Catherine O’Hara (1954 – 2026), Eugene Levy, John Candy (1950-1994), Rick Moranis, Andrea Martin e Victor Garber. O grupo se conheceu em Toronto, nos anos 1970, integrou o elenco da montagem canadense do musical “Godspell“, passou pela filial local da companhia de improvisação Second City —criada em Chicago— e, por fim, consolidou-se no humorístico televisivo SCTV.

Quando o programa de TV foi cancelado pelo canal canadense, todos se mudaram para Los Angeles ou Nova York, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Short foi imediatamente convidado a fazer parte do elenco de “Saturday Night Live“, o programa cômico lendário da TV americana que revelou Adam Driver, Chris Rock, Eddie Murphy, Bill Murray, Tina Fey, Seth Meyers e Marcello Hernández.

Short, curiosamente, ficou apenas um ano no “SNL”, porque o programa semanal exigia muitas horas diárias de trabalho e dedicação total. E àquela altura, entre 1984 e 1985, ele já era casado e tinha três filhos pequenos e preferiu não passar tanto tempo longe da família.

Com muito mais fracassos que sucessos na carreira e momentos bastante dramáticos na vida pessoal, o que mais encanta ao conhecer um pouco mais profundamente este ator cômico brilhante é como ele parece ter um dom natural para ser feliz e aproveitar a vida. É quase como se ele fosse um ativista da causa, um daqueles incansáveis, mas cujo único tema é viver bem.

Quando perde uma pessoa da família, como acontece, mas não vou dizer quem, ele sofre o baque, como todo mundo, mas depois reage da maneira mais construtiva, sem pieguice, honrando seus mortos, lembrando sempre deles, mas com a certeza de que se deixar abater pela perda é um desserviço a todo o amor que sentiu pela pessoa.

“Ele funciona sempre na velocidade do prazer”, explica Hanks. “É a única constante na história de Martin Short”, completa o amigo. Se isso não é uma lição de vida, eu não sei o que mais poderia ser.



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