A vitória preliminar do Instituto Baccarelli como novo gestor do Complexo Theatro Municipal pelos próximos cinco anos está sendo contestada pela Sustenidos Organização Social de Cultura, a atual responsável pelo equipamento.
A OS entrou com um recurso, na semana passada, afirmando que o parecer da comissão avaliadora tem erros de avaliação e falhas metodológicas, pedindo a anulação do certame e a republicação do chamamento. Já o Baccarelli —também responsável pela primeira sala de concerto dentro de uma favela no Brasil— entrou com um contrarrecurso, na última quarta-feira (20), defendendo o resultado.
O parecer técnico havia sido divulgado no início do mês. O Baccarelli obteve 75,5 pontos, contra 57,5 da Sustenidos Organização Social de Cultura, considerando critérios técnicos, artísticos, administrativos e financeiros das propostas apresentadas.
A comissão avaliadora foi formada por Leonardo Camargo Oliveira dos Santos, diretor de formação da Fundação Theatro Municipal, Thiago de Almeida Tavares, da diretoria artística da fundação, e Rita de Cássia Ribeiro dos Reis, como membro suplente.
Quem ganhar ficará responsável por todo o complexo, que reúne o Theatro Municipal, a Praça das Artes e os corpos artísticos municipais —a Orquestra Sinfônica Municipal, o Balé da Cidade e os corais ligados à Fundação Theatro Municipal.
Procurada por meio de sua assessoria de imprensa, a fundação afirma que vai analisar os recursos e dará o veredito final. Na sequência, há a homologação do resultado pela própria fundação, o que deve ocorrer nas próximas semanas.
Um dos principais argumentos do recurso da Sustenidos é que a própria comissão reconheceu falhas no sistema de pontuação do edital referente à análise de prestações de contas e gestão eficiente de recursos. Diante disso, a comissão teria desconsiderado o critério, em vez de anular ou corrigir o certame. Sobre isso, o Baccarelli afirma que a comissão agiu de forma legítima e clara, já que teria avaliado as duas concorrentes sob os mesmos critérios e preservado a continuidade do processo.
A Sustenidos também afirma que o Baccarelli não tem experiência comprovada em todas as áreas ligadas ao Theatro Municipal —como ópera, dança e teatro—, já que seu currículo é mais centrado na música sinfônica e em projetos de educação. O Baccarelli diz, por sua vez, que o edital não exigia atuação simultânea em todas essas frentes, mas experiência em pelo menos uma delas.
O instituto oferece, há três décadas, as aulas de formação musical para os seus estudantes, em Heliópolis, na zona sul da capital paulista, e é responsável por 12 Centros Educacionais Unificados, os CEUs, e dez escolas municipais de ensino fundamental, em gestão compartilhada com a secretaria de Educação da cidade.
Na análise do eixo técnico-artístico, os avaliadores destacaram que a proposta do Baccarelli apresentou coerência curatorial e diversidade estética, embora a instituição tenha sido criticada pela ausência de parte da programação sinfônica detalhada.
Já a Sustenidos perdeu pontos importantes após a comissão identificar conflitos de agenda entre produções previstas, subutilização da Orquestra Sinfônica Municipal em determinados concertos e mudanças consideradas incoerentes em sua estrutura curatorial.
A Sustenidos e a Prefeitura de São Paulo vivem uma crise que chegou a seu ponto mais crítico no ano passado. O atual contrato com a gestora da fundação vai até o final de maio, mas a gestão Nunes já tentava romper o acordo com a Sustenidos desde setembro do ano passado.
Nunes tomou a decisão porque a organização social não demitiu um funcionário que compartilhou postagem no Instagram dizendo que o influenciador trumpista Charles Kirk era nazista. O funcionário chegou a ser afastado temporariamente pela OS.
Para críticos, a direção artística da Sustenidos seria orientada por pautas ligadas à esquerda. Vereadores conservadores, aliados a Nunes, se posicionaram contra a administradora, por uma suposta doutrinação ideológica no teatro.
Nesse meio tempo, um músico da Orquestra Sinfônica Municipal foi afastado após ter criticado, na internet, a produção da ópera “Macbeth”, que esteve em cartaz no ano passado. Em suas redes sociais, ele chamou a montagem de “destruição da ópera e da música clássica no TMSP.”
Em 2023, o Tribunal de Contas do Municípiojá havia aprovado por unanimidade uma recomendação de que a Fundação Theatro Municipal realizasse novo edital para a escolha de uma organização social de cultura para gerir o teatro, para a substituição da Sustenidos.
Em dezembro do ano passado, porém, o tribunal suspendeu o certame, após o texto sofrer uma série de críticas.
Entre os pontos levantados, estavam a falta de fundamentação técnica para o valor do contrato de R$ 663 milhões, critérios de julgamento “pouco objetivos e metodologicamente inconsistentes” e redução expressiva das metas artísticas sem justificativa técnica.











