A encenação de “Madame Blavatsky – Amores Ocultos” apresenta um desafio: o convite de ocupar o espaço intermediário entre o fato histórico e a transfiguração poética. E em vez da cronologia estrita de Helena Petrovna Blavatsky, o texto de Cláudia Barral e a direção de Marcio Macena visam a particularidade.
Não é tanto uma biografia didática quanto uma existência de Mel Lisboa, como se ela fosse o receptáculo de algo que não caberia nos livros de história. Assistimos a uma desconstrução meticulosa da persona pública da fundadora da Sociedade Teosófica. Blavatsky vem à tona fragmentada pelas vozes que tentaram defini-la por séculos: a ciência positivista que a declarou uma fraude, a religião tradicional que a via como ameaça, o próprio tempo, insistente em simplificar estilos de vida complexos.
A montagem pode ser definida como uma “não-peça”. Não por causa do espírito de Helena resistindo a quem tentou escrevê-la, mas porque recusa a linha que começa, tem meio e termina. É uma polifonia contínua, onde seu discurso é atravessado pelo eco de críticos e devotos, somando-se a uma densidade em que a veracidade dos fenômenos mediúnicos se deprecia em relação a uma mulher enfrentando preconceitos.
Mel Lisboa desempenha um trabalho de intensidade e contenção ao mesmo tempo. Ela evita a imitadora informal e caricatural para buscar uma transformação mais profunda; sua voz abandona o tom cotidiano, assumindo uma textura quase geológica, enquanto seu corpo se reconfigura em uma nova geometria, mais pesada e curvada pelos quilômetros que Blavatsky percorreu ao redor do mundo.
Essa alteração se torna ainda mais interessante quando lembramos que a atriz também protagoniza “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical”. Ao assistir às duas figuras, Mel nos parece ser artisticamente coerente como uma mulher que teve que se inventar para desfrutar da liberdade, assim como Rita e Helena.
Macena aposta no rigor do vazio, valendo-se apenas dos objetos “pedidos” por Blavatsky, evitando distrações cênicas para que a iluminação de Ligia Chaim marque os contornos do invisível. O figurino de João Pimenta evita o fetiche da reconstrução do século 19, para que a personagem entre em um limbo atemporal. O espetáculo esquiva-se do extraordinário em troca da vibração silenciosa de um pensamento inflexível.
Três perguntas para…
… Marcio Macena
Como você equilibrou a vasta documentação histórica sobre a personagem com a liberdade criativa necessária para uma montagem teatral contemporânea?
Acho que esse equilíbrio começa pelo texto da Claudia. Ela já me entrega essa liberdade para mesclar esses dois universos. A ideia de que uma atriz incorpore o espirito da personagem para que ela mesma possa dar seu depoimento sobre a sua trajetória, tira do espetáculo qualquer sombra de uma narrativa didática sobre ela. Tudo que eu não queria desse espetáculo era que ele fosse uma aula sobre a história da Helena para os leigos. A ideia era que o público se interessasse e se identificasse com ela e com a atriz. Isso já acontece na entrada do público, quando a Mel recebe a todos no foyer do teatro, e se repete quando ela quebra a quarta parede e conta à plateia como ela foi parar ali.
Para além da trajetória de Blavatsky, quais temas humanos você acredita serem os pilares que conectam essa história ao espectador de hoje?
A própria Blavatsky coloca que poucas coisas mudaram desde a última vez que seu corpo habitou este planeta. A injustiça é a marca da mão humana, e por isso ela prega que todas as pessoas tem que lutar pra fazer um mundo melhor para todos e não para alguns! Sabemos que a violência, a estupidez, a ignorância ainda corrompem o mundo, e o legado da Blavatsky que mais me interessava em passar para o público é que a nossa missão é lutar por justiça e entender que cada elemento transforma o cenário.
Como você equilibra a direção de Mel Lisboa em dois registros tão diferentes — um mergulho na contenção e no fragmento histórico, e outro na explosão biográfica e musical? O que ela traz de comum a esses dois universos?
Realmente são dois universos completamente diferentes, mas que de alguma forma se completam. No caso da Rita, eu sempre soube que queria a Mel, mesmo ela não acreditando. Eu insisti muito. Quando ela topou, começamos a trabalhar, fomos buscar o corpo da Rita, o comportamento, os trejeitos, até uma certa corcundinha às vezes. Foi um processo incrível, já que existe muito material a ser pesquisado para servir de base. E assim foi feito.
No caso da Helena foi totalmente oposto: a gente não tinha quase nenhuma imagem dela, nenhum registro. Nosso único material era o que ela dizia, como pensava e se expressava. Essa personagem foi criada fisicamente do zero, do jeito que a gente imaginou.
Mas acredito que a Rita ajudou a formar a Blavatsky da Mel, pois as duas foram mulheres que se opuseram às barreiras do patriarcado, foram pioneiras em alguns movimentos, foram feministas quando essa palavra nem existia. A Rita estudava a Blavatsky, talvez até se inspirasse nela. A Mel fez uma simbiose dessas duas personagens, e acho que na montagem da “Autobiografia” ela coloca traços da Blavatsky na criação dessa nova Rita. E uma curiosidade: as duas morreram no mesmo dia. Como dizemos no texto da Blavatsky, “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.”
Teatro Estúdio – rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos, região central. Segunda e terça, 20h. Até 7/7. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
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