Uma jovem tímida se apaixona pelo príncipe da monarquia mais poderosa do mundo. Após alguns meses de namoro, o aristocrata decide pedi-la em casamento. Cercada de luxo, a cerimônia acontece em um palácio diante dos olhos do mundo. Mais de 700 milhões de pessoas assistem ao que parece ser o final de um conto de fadas. Essa história, porém, era só o começo de um dos matrimônios mais conturbados e midiáticos da monarquia britânica.
O desenrolar desse enredo é o fio condutor do musical “Princesa do Povo”, produção que reconta a trajetória de princesa Diana —morta em um acidente de carro em Paris há quase três décadas. Em cartaz no Teatro Liberdade, região central de São Paulo, a produção busca a pessoa que existia por trás do mito e as intrigas que se escondiam atrás dos portões palacianos.
Com 23 atores em cena, o espetáculo começa a partir de 1980, quando ela engata um relacionamento com o hoje rei Charles 3º —um príncipe, à época, cobiçado por mulheres do mundo todo. A partir daí, vemos Lady Di cair numa espiral de desilusão à medida que percebe as traições do marido e o desprezo da família real.
“Enquanto atriz, quis mostrar o que de fato ela estava sentindo”, diz Sara Sarres, que dá vida à princesa. “Meu objetivo foi evidenciar que ela não se sentia uma pessoa amada, mas sim uma peça num jogo para atrair olhares positivos para a monarquia.”
Antes do casamento, Diana caiu nas graças da rainha Elizabeth 2ª por ser tudo o que ela queria em uma nora —bonita, aristocrática e virgem. No entanto, após o enlace com Charles, ela se mostrou menos submissa e discreta do que a monarca imaginava.
O carisma de Diana não demorou a se impor, atraindo para ela os olhos da imprensa e do público. “Ela queria ser amada no casamento, mas acabou sendo amada pelo mundo”, diz Sarres. A postura empática ajuda a explicar o fascínio por ela.
No musical, um dos momentos de maior impacto emocional acontece quando a personagem aperta a mão de um paciente durante a inauguração de uma ala hospitalar dedicada ao tratamento de pessoas com HIV e Aids —cena que rodou o mundo em 1987.
Com um gesto tão simples quanto um aperto de mão, Diana ajudou a desmistificar preconceitos em torno de quem vivia com o vírus. À época, muita gente acreditava que a infecção era transmitida por meio do toque. “Foi exatamente esse olhar humano que encantou o mundo inteiro. As pessoas se sentiam vistas e acolhidas”, diz Sarres.
O musical, porém, não mostra apenas momentos enternecedores. Ao longo da vida, Diana teve problemas relacionados à saúde mental, como depressão e bulimia. No espetáculo, vemos a princesa internada em um hospital logo após ter tentado suicídio.
A instabilidade emocional era agravada pela relação extraconjugal de Charles com Camilla Parker-Bowles, hoje rainha consorte. Os dois se conheceram no começo dos anos 1970, quando tiveram um romance de idas e vindas. Eles se separaram brevemente após o casamento de Charles com Diana, mas reataram durante o matrimônio.
“Quando recebi o papel, eu achava a Camila terrível, mas a função do ator é questionar preconceitos e humanizar o personagem”, diz Giselle Prattes, que dá vida à controversa figura. “Durante a pesquisa, descobri uma mulher forte, resiliente e extremamente inteligente.”
O público, porém, não vê assim. Na temporada carioca do musical, a atriz era recebida com vaias quando entrava no palco. “Na primeira vez, eu fiquei na dúvida. ‘Será que eles estão me aplaudindo ou me vaiando?’. Aí, na segunda vez, eu tive certeza. Pessoas mais velhas que acompanharam o sofrimento da Diana realmente odeiam a Camila.”
Charles é outra figura que não é benquista pelos admiradores de Diana. Para muita gente, ele é um dos artífices do calvário a que a princesa foi submetida. Intérprete do monarca no musical, Claudio Lins tem uma visão diferente.
“Quando a gente conta a história pelo ponto de vista da Diana, ele é um dos vilões”, diz o artista. “Mas, quando a gente vai buscar a humanidade dele, começamos a entender que fatores explicam por que as coisas aconteceram daquele jeito.”
O musical mostra que o principal fator de influência na vida dos personagens era de fato a monarquia —instituição representada na peça por Simone Centurione, na pele de uma gélida e austera Elizabeth 2ª.
“Ela é uma mulher que contém. Alguém que sente, mas não pode expressar”, diz a atriz, acostumada a viver personagens cômicas e expansivas. “Foi uma nova construção de atriz dentro de mim. Tive que aprender a mostrar força e sentir muito, mas sem gestos.”
Diretor do musical, Tadeu Aguiar diz ter privilegiado atuações multidimensionais, ou seja, que pudessem mostrar a complexidade dos personagens em vez de reduzi-los a vilões ou mocinhos. No caso de Diana, a preocupação foi evidenciar mais a intimidade da princesa do que a sua imagem pública.
“Ela não era uma instituição como era a rainha Elizabeth. Na verdade, ela quebrou essa barreira institucional para mostrar uma pessoa verdadeira, com alegrias e sofrimentos”, diz Aguiar. “É essa Diana que a gente quer mostrar.”












