Antonio Fagundes zomba do público de teatro atrasado e distraído em espetáculo

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Antonio Fagundes zomba do público de teatro atrasado e distraído em espetáculo


De repente, um alarme interrompe a entrevista. “Ixi! É o meu celular. Quem será?”, diz Antonio Fagundes, em meio a risadas do elenco de “Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo”, peça escrita e dirigida pelo artista. “Ah, é o meu filho. Dá licença um instante. Oi, filhão!”

A situação veio a calhar. O espetáculo que eles encenam agora no Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo, trata justamente de distrações e interrupções —muitas delas causadas pelos celulares. Onipresentes, os aparelhos se tornaram uma espécie de nêmesis da classe teatral.

Não raro, há quem decida responder mensagens ou dar uma conferida nas redes sociais durante os espetáculos, prática que Fagundes considera prejudicial ao público. “O que incomoda o ator é ver que a plateia está sendo incomodada. Quando toca o celular, a pessoa que estava rindo ou emocionada é interrompida, comprometendo o voo mágico proporcionado pelo teatro.”

Nos últimos meses, casos do tipo ganharam o noticiário. Eduardo Moscovis parou uma apresentação do monólogo “O Motociclista no Globo da Morte” para pedir que uma pessoa deixasse o teatro por estar usando o celular; Soraya Ravenle deu uma bronca na plateia durante o musical “Minha Estrela Dalva”; já Mateus Solano derrubou o aparelho de uma espectadora durante a peça “O Figurante”.

Em “Sete Minutos”, quem deixa a peça não é um espectador, mas o ator vivido por Norival Rizzo, que protagoniza a peça “Macbeth”, de William Shakespeare. Altivo diante do público, o veterano se prepara para uma das falas mais notáveis do espetáculo: “A vida não é mais que uma sombra errante. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”.

Mas uma sinfonia de tosses e pigarros na plateia faz com que ele vacile e, frustrado, se rebele. Abandona a peça para se entrincheirar no camarim, onde reflete, com altas doses de sarcasmo, sobre a relação entre atores e espectadores.

“Ao longo da minha carreira, passei por tudo que aparece nessa peça”, diz Fagundes, que escreveu o texto há 26 anos. “Ela é uma forma de concretizar a minha paixão pelo público e pelo fazer teatral.”

Essa paixão pela plateia, porém, pode ser tão conturbada quanto arrebatadora. Conhecido pela pontualidade, Fagundes não permite que os atrasados entrem após o início de suas peças —postura que já valeu ao artista alguns processos.

O mais recente aconteceu no ano passado, quando um casal decidiu processar o ator e sua mulher, a atriz Alexandra Martins, por ter sido proibido de entrar numa sessão da peça “Dois de Nós”. Na ação, eles pediam R$ 20 mil por danos morais e R$ 500 por danos materiais.

A Justiça de São Paulo, porém, decidiu a favor dos artistas, argumentando que o horário de início constava no ingresso, assim como a orientação de que não seria permitida a entrada após o começo do espetáculo.

Fagundes, inclusive, usou os embates em torno de sua pontualidade como disparador de um dos enredos da peça. Na história, 22 atrasados são barrados na porta do teatro. “No processo de criação, a gente faz de tudo para que a plateia se envolva com a história. Ao permitir que alguém entre atrasado, você está destruindo todo esse processo.”

A desatenção é outro elemento que tem comprometido o envolvimento das pessoas com os enredos. O problema já era uma realidade em 2002, quando Fagundes protagonizou a primeira montagem de “Sete Minutos”.

O título da peça faz referência a uma pesquisa sobre a concentração humana que ele encontrou na época. De acordo com o estudo, as pessoas conseguiam se manter atentas a uma determinada atividade por até sete minutos.

“Hoje, eu reduziria esse tempo para sete segundos. E tenho medo de que, daqui a 20 anos, sejam sete milionésimos de segundo”, diz o artista. “A nossa atenção realmente está cada vez menor.”

Na história, o personagem principal se vê às voltas não só com o uso de celulares, mas também com bips de relógio e ruídos de gente mascando chiclete. “O teatro era um templo, um lugar sagrado”, diz o decano para o ator em começo de carreira vivido por Conrado Sardinha. “Agora, parece uma feira. Está marcado para começar às 21h, eles chegam às 21h15.”

O humor da peça reside no caráter mordaz e zombeteiro do texto, um trabalho que arranca risos justamente por satirizar dramas cotidianos. “Com a comédia, a gente consegue desarmar e atingir melhor as pessoas.”

No palco, porém, poucos estão dispostos a levantar a bandeira branca. Os espectadores retratados na história se concentram no lado de fora do teatro, indignados com o fim abrupto da montagem de “Macbeth”. A eles se somam os 22 que nem tiveram a chance de se sentar na plateia. A confusão é tamanha que é preciso chamar um policial, personagem vivido por Fábio Esposito.

A turba raivosa é representada por duas pessoas. Enquanto Walter Breda dá vida a um senhor decepcionado por não ter visto a peça até o final, Ana Andreatta encarna uma das atrasadas. Revoltada por ter sido barrada, ela lança uma série de críticas à dramaturgia. Os comentários são tão absurdos que se tornam cômicos. “Até dói falar algumas coisas, mas é preciso se desprender para viver o papel”, diz Andreatta.

De certa forma, ela sintetiza a aversão que algumas parcelas da sociedade nutrem pela cultura. “Isso acontece no Brasil há muito tempo, mas está se espalhando também para a política. Essa personagem representa o nosso tempo.”

É justamente o caráter contemporâneo do texto que fez Natália Beukers decidir montar a produção. Na peça, ela é uma empresária teatral que tenta debelar a confusão que incendeia o teatro.

Após ler o texto no ano passado, a atriz juntou o elenco e convidou Fagundes para dirigir o projeto. “A gente discutiu muito sobre como a peça é atual, inclusive até mais do que quando foi escrita”, diz Beukers. “Fagundes conseguiu pôr em palavras o que eu sinto em relação ao teatro.”

A facilidade do ator em traduzir as inquietações de seus pares se deve à relação quase umbilical com a dramaturgia. Apesar da carreira profícua nas novelas, ele nunca deixou de lado a ribalta. Com frequência, emendou um trabalho atrás do outro, conciliando a televisão com os palcos. Desta vez não foi diferente.

Enquanto dirigia “Sete Minutos”, ele dava vida ao milionário Arthur Brandão em “Quem Ama Cuida” –nova novela da faixa das 21h da TV Globo. Com a obra, ele quebrou um hiato de sete anos fora dos folhetins. Nesse período, porém, não abandonou a dramaturgia, atuando em peças como “Baixa Terapia” e “Dois de Nós”.

“Eu costumo brincar que o teatro é um salto triplo mortal sem rede. É lá que você ousa, erra e aprende”, diz o artista. “O teatro é a pátria do ator.”



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