As denúncias em massa de abuso sexual e tráfico humano cometidos, ao longo de décadas, por Mohamed Al-Fayed (1929–2023), bilionário egípcio que viveu na Inglaterra, devem repercutir no Brasil nos próximos meses. Mohamed foi pai de Dodi Al-Fayed, namorado que estava com a princesa Diana no acidente de carro em Paris, em 1997, que tirou a vida de ambos e é uma figura amplamente conhecida em diferentes partes do mundo.
Segundo notícias da imprensa inglesa e francesa, as violências sexuais e o esquema de tráfico comandados por Mohamed teriam sido operados por meio de seus empreendimentos, como a luxuosa loja de departamento Harrods, em Londres, e o hotel cinco estrelas Ritz, em Paris. As denúncias, que remontam a 1977 e se estendem até pouco antes de sua morte, apontam uma preferência por mulheres jovens, candidatas a emprego em suas empresas.
O escândalo tem se intensificado desde sua morte e fontes da polícia britânica confirmam até o momento 154 mulheres que o acusam. Trata-se de uma quantidade impressionante de denúncias, algo que encontra paralelo no Brasil ao caso de Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, conforme revelado pela Agência Pública há alguns anos.
Klein foi pontado, após sua morte, como suposto abusador em série de crianças e adolescentes –sobretudo meninas brancas– em inúmeros episódios que teriam ocorrido na sede da empresa, bem como em iates e propriedades no litoral.
Ricos, tanto Fayed (muçulmano na Inglaterra) como Klein (judeu no Brasil) morreram protegidos por forças policiais e de acusação nos países onde viveram. Importa marcar etnias, religiões e nacionalidades para insistir no ponto de que a violência sexual masculina transcende diferenças de fé, etnia, cultura ou política. O denominador comum dos abusadores é outro: homens que se aproveitam da opressão estruturada por sociedades patriarcais para abusar de meninas e mulheres.
No caso de Fayed, as suspeitas de prevaricação (omissão gritante) policial ganharam novos contornos com o depoimento de Pelham Spong, sobrevivente de 41 anos, de nacionalidade estadunidense.
Segundo repercutido na imprensa, Spong foi recrutada em 2008, durante um processo seletivo para o hotel Ritz, como assistente de Al-Fayed. Ainda na seleção, foi exigido um exame ginecológico, e uma viagem sua a Londres foi custeada sob pretexto de uma “semana de orientação profissional” junto ao bilionário.
Pouco depois do início dessa suposta orientação, Spong foi chamada à sala de Al-Fayed, às 22h. Ele afirmou que suas funções incluíam manter relações sexuais com ele e tentou beijá-la à força. Diante da recusa, tornou-se mais agressivo, até que ela conseguiu se desvencilhar e sair do local, com as pernas tremendo de pânico.
Dias depois, deixou o trabalho e reportou o ocorrido diversas vezes à polícia da capital inglesa, a qual encerrou as investigações sem sequer ouvir o empresário. Spong afirma ainda que funcionários do Ritz não só tinham conhecimento dos abusos como colaboravam para o aliciamento de jovens e o envio delas “de bandeja” ao magnata.
Ao tomar conhecimento desse caso, lembrei-me das notícias da chamada “farra do whisky” promovida por Daniel Vorcaro, evangélico e ex-dono do Banco Master, na mesma Londres onde Al-Fayed –e tantos outros “lordes” ao longo da história– construíram suas redes de abuso sexual.
Pensemos em Al-Fayed, Vorcaro, Klein e, por que não, Epstein: casos que possuem muitas diferenças, mas também similaridades inquietantes. A correspondência entre luxo, mulheres sob exploração sexual e desproteção por parte das autoridades chama a atenção.
No caso brasileiro –envolvendo garotas de programa, convidados do banqueiro e provavelmente autoridades públicas–, o evento ocorreu, segundo reportado na coluna de Andreza Matais no Metrópoles, na suíte presidencial do hotel cinco estrelas The Peninsula London. Um broche distribuído pelo banqueiro funcionaria como credencial de acesso à suíte.
Graças a uma rede construída em presenças internacionais, pude informar a polícia londrina na semana passada sobre a farra brasileira. Fiz com alguma esperança de que, pressionada pelos seus próprios problemas, o órgão de investigação possa agir de forma diferente e direcionar algumas perguntas ao hotel, para que este informe quem esteve presente na orgia e se, de alguma forma, o estabelecimento colaborou para o episódio.
Cedo ou tarde, o pacto masculino há de ceder. Quem sabe assim a ainda sonolenta Polícia Federal brasileira desperte para investigar o tráfico sexual no caso do Banco Master –inclusive como elemento-chave para a admissão da delação premiada daquele que contratou esses encontros, bem como em delações de outros envolvidos nas orgias, seja a de Londres, a de Lisboa ou a de Trancoso. É o mínimo.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-leonardo-da-vinci-em-dest-2889320692.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-mulher-acima-de-60-anos-c-2893863994.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-vaso-sanitario-branco-bri-2889373971.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-leonardo-da-vinci-em-dest-2889320692.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



