Do cangaço à pandemia, Pavilhão da Magnólia leva tensões sociais ao teatro

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Do cangaço à pandemia, Pavilhão da Magnólia leva tensões sociais ao teatro


Sob um emaranhado de canos, atores debatem a distribuição de água no Brasil. Entre passagens bíblicas, relatos coloniais e solos de guitarra, eles contam histórias, organizam esquetes e entoam músicas sobre crises hídricas e a desigualdade no país.

Noutra peça, o grupo festeja em um bar. Com direito a danças e bolo de aniversário, a celebração logo migra para dentro de um teatro. No processo, os artistas levantam questões de gênero e raça e contam causos da pandemia da Covid-19.

Ainda que temas e espaços separem as produções, há muito em comum entre os espetáculos do Pavilhão da Magnólia. Ambos trazem discussões sociais à luz de dramaturgias que misturam ficção e realidade.

A trupe cearense se apresenta em São Paulo a partir desta quinta-feira (30), no Sesc Avenida Paulista. “Por mais lotada que seja essa metrópole, também estamos muito sozinhos”, diz Nelson Albuquerque, fundador do grupo e intérprete em ambas as apresentações.

“Queremos pensar a existência coletiva de modo mais sensível. Hoje, eu tenho a impressão de que precisamos relembrar, o tempo todo, a importância de se viver em comunidade, conviver com nossas diferenças e promover debates que considerem percepções distintas em relação à cidade.”

Em “A Força da Água”, a ser encenado até 3 de maio, uma parede de papéis molhados simboliza tensões normalizadas pelo dia a dia. Metalinguística, a peça une personagens que buscam encontrar uma trama para expor angústias pessoais. Dessa forma, questionam a fragilidade do fazer artístico, numa realidade que restringe mesmo o acesso à água.

“Pode parecer restrito ao Nordeste, mas o problema é mundial”, adiciona Albuquerque, ao falar do projeto que surgiu de um grupo de pesquisas. “Nosso objetivo é denunciar como governos ainda lidam com isso. No Brasil, é necessário comprar água. Ela não é um direito constitucional.”

Já “Há uma Festa Sem Começão que Não Termina com o Fim”, que acontece entre 5 e 7 de maio, surgiu com maior descontração. Inspirada no isolamento pandêmico, a produção tenta resgatar a coletividade e já percorreu cenários diversos com personagens mascarados. Agora, o ponto de partida será a própria avenida Paulista, um dos pontos de maior circulação em São Paulo.

Apesar da abordagem leve —mesmo quando o elenco vai ao teatro, o tom é de uma conversa entre amigos—, a peça projeta assuntos como o racismo e estigmas contra a população indígena via dramas pessoais de seus atores.

Finalmente, algumas semanas separam as apresentações de um espetáculo inédito, que subverte outro esteriótipo popular —a interpretação ultrapassada do cangaço brasileiro. Em “Jararaca[s]”, o Pavilhão da Magnólia leva ao Itaú Cultural a trajetória de Jararaca, que pertenceu ao emblemático bando de Lampião.

A narrativa acompanha a última semana de José Leite de Santana, que em 1927 foi capturado e morto por policiais. A ideia é explorar complexidades políticas e simbólicas daquele contexto, em que alguns viam os cangaceiros como bandidos e outros como párias sociais.

“A formação do Brasil é muito complexa, mas por vezes nos deparamos com debates muito simplórios. Os Jararacas ainda existem, nas pessoas que o Estado insiste em matar até hoje. Que corpos são esses? Que territórios são esses em que a violência reina?”, questiona Albuquerque, que cita as mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, entre outros casos contemplados pela peça.

Às vésperas de uma nova eleição presidencial, o trio de espetáculos do grupo cearense quer subverter a falta de sensibilidade em um mundo polarizado. “Todos querem que problemas sejam resolvidos com a maior rapidez possível. Mas certas questões não vão simplesmente desaparecer.”



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