“Betrayal” não é uma peça sobre o que se diz, mas sobre como sobrevivemos ao que calamos. Sob a direção sensível e implacável de Lavínia Pannunzio, o palco deixa de ser cenário para se tornar laboratório do afeto. Ali, a famosa estrutura inversa de Harold Pinter nos transforma em cúmplices: assistimos ao fim para, só então, buscar as pistas do começo.
O minimalismo da cena é um convite ao desnudamento. Em um espaço sem excessos, o sofá de seis metros — que se estende como um oceano intransponível entre os corpos — faz com que cada respiração pese. É um teatro de arqueologia humana, onde o público escava, junto com os personagens, os escombros de verdades que o tempo soterrou.
O que há de mais sólido nesta montagem é a decisão de manter os três atores em cena o tempo todo. Essa presença ininterrupta cria uma espécie de vigilância compartilhada; é o lembrete físico de que, no amor e na traição, nunca se está realmente a sós. O espectro do “outro” habita cada gesto, mesmo quando ele não faz parte do diálogo.
É nesse campo de forças que o trio principal trava uma batalha silenciosa e devastadora. Luiza Curvo, como Emma, foge de qualquer clichê; ela não é a “infiel”, mas a mulher que tenta equilibrar seus desejos em um tabuleiro de lealdades cruzadas.
Ao seu lado, Leonardo Brício e Diego Machado conduzem com requinte o esfacelamento da fraternidade masculina. Há uma brutalidade contida no trabalho de ambos: enquanto um lida com a erosão lenta da confiança, o outro carrega a culpa que se disfarça de intimidade. A química entre Brício e Machado traduz o colapso de uma amizade que, sob o peso do segredo, torna-se carcaça de si mesma.
Esse silêncio, aliás, não é um vazio, mas um evento que acontece o tempo todo no palco, esculpido pela luz de Sarah Salgado e pela sonoridade de Rafael Thomazini. Ele evidencia o momento exato em que a ponte entre as pessoas simplesmente quebra.
Nesse hiato, a presença de Miranda Diamant surge como um ponto de estranhamento. Seja como a garçonete que testemunha a conversa em Veneza ou traduzindo em Libras a música “Can’t Take My Eyes off You” na cena final, ela parece representar o rastro deixado por quem foi traído sem saber: o olhar da sociedade ou a própria consciência que tudo observa.
A tradução de Luiz Frias preserva a aspereza original de Pinter, permitindo que Pannunzio extraia a brutalidade das relações de um jeito sofisticado, sem ceder ao dramalhão. A peça nos joga de frente com as nossas próprias rachaduras e com a percepção de que o palco pode ser o espaço onde a intimidade se torna questão pública de ética.
Três perguntas para…
… Lavínia Pannunzio
Seu texto de cena parece dissecar as relações sob uma luz quase clínica. Como foi o processo de transformar o palco nesse “laboratório” onde o silêncio e o espaço físico dizem tanto quanto o texto de Pinter?
É quase uma autópsia mesmo. Olhamos clinicamente para entender o que está por trás de um triângulo que nunca se configurou de fato. O que me interessou foi investigar o “germe do veneno” nessa história. Quando a peça começa, do fim para o começo, já vemos uma relação sem química. Mesmo no auge do caso, existe um projeto de “brincar de casinha” que um relacionamento extraconjugal não admite. É como um vinho que, ao ser aberto, começa a morrer.
A questão central não é a libido, mas o que há entre essas três pessoas. Investigamos a misoginia e a objetificação da mulher. Há uma violência latente: por que o marido, Robert, humilha a esposa em público? Na nossa montagem, quando ele fala sobre ter batido nela, ele busca a cumplicidade da plateia masculina. Ele busca legitimação para sua brutalidade. O que Pinter descreve é a toxicidade de pessoas cultas e letradas que são capazes de crueldades absolutas.
A escolha de manter os três atores (Emma, Robert e Jerry) em cena o tempo todo cria uma vigilância constante. Como você trabalhou com o elenco essa sensação de “presença espectral”, onde o traído ou o traidor está sempre lá?
Essa escolha foi fundamental porque o terceiro elemento está sempre presente, mesmo quando ausente fisicamente. Quando dois estão juntos, o terceiro é o assunto. Eles estão permanentemente atrelados; um não é validado sem o outro. Quis assinalar essa “presença espectral” porque é a própria narrativa de Pinter que nos impõe isso. Além disso, esteticamente, prefiro um teatro onde todos estão narrando a mesma história o tempo todo. Dificilmente você verá um ator escondido na coxia em uma peça que estou dirigindo. Ali, eles funcionam como testemunhas e narradores uns dos outros.
A presença de Miranda Diamant, especialmente no uso da Libras na cena final, traz uma camada de estranhamento e beleza. O que essa figura representa para você no contexto da traição?
A Miranda é a luz e o contraponto contemporâneo. Ela representa uma geração que não aceita mais que digam como devem se vestir ou se relacionar. Eu queria alguém que comentasse o machismo asqueroso desses personagens: homens que dizem não querer uma mulher “nem a um quilômetro de distância” de seus rituais masculinos.
Em cena, a Miranda funciona como uma comunicadora universal. Ela triangula com a plateia para mostrar que sabemos que aqueles personagens são “tiozinhos machistas”. Ela reescreve a peça visualmente, manifestando nossa indignação e garantindo que o público não “normalize” a toxicidade. O uso da Libras e a estética meio punk — que historicamente sucedeu a década em que a peça se passa — simbolizam a briga contra essa burguesia hipócrita. Ela é a potência da fala feminina trazendo palavras melhores e novas perspectivas para uma obra de 50 anos.
Teatro UOL – avenida Higienópolis, 618 – Higienópolis, região oeste. Sexta a domingo, 20h. Até 31/5. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. R$ 150 (inteira) setor A, em
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