Clique aqui e escute a matéria
O prefeito do Recife, João Campos, assinou nesta quinta-feira (12) a ordem de serviço para a construção da ponte que vai ligar os bairros do Cordeiro e Casa Forte. A estrutura terá cerca de 380 metros de extensão e deve conectar a Avenida Caxangá à Avenida 17 de Agosto, criando uma nova alternativa de deslocamento entre as zonas Oeste e Norte da cidade.
A obra integra o conjunto de intervenções do complexo viário da III Perimetral e, segundo a prefeitura, deve reduzir distâncias e tempo de viagem para quem circula pela região.
Durante o discurso, o prefeito destacou que a gestão tem priorizado investimentos em áreas periféricas da cidade. “Mais de 70% do orçamento de investimento da prefeitura está na periferia da cidade”, afirmou.
Ele também citou obras de contenção de encostas e ações voltadas à população que vivia em áreas de risco. “A gente colocou investimento público para proteger as pessoas, como fizemos com mais de 70 mil pessoas que moravam em área de morro e tinham risco de deslizamento”, disse.
Prefeitura fala em diálogo sobre desapropriações
O prefeito também comentou sobre as desapropriações necessárias para a construção da ponte e afirmou que a prefeitura criou um canal de diálogo com moradores.
“Temos uma comissão permanente liderada pela vice-prefeitura e pela URB para dialogar com todos os moradores da área, para questionar desapropriações, renegociar valores ou até judicializar, se for preciso”, afirmou.
Segundo ele, a gestão busca conciliar a execução da obra com os interesses da população.
“É fundamental construir sempre pensando nas pessoas, mas jamais deixar de fazer algo que a cidade espera e sonha”, disse.
Moradores denunciam falta de participação no projeto
Apesar das declarações da gestão municipal, moradores do bairro de Santana — área diretamente afetada pela obra — afirmam que não foram incluídos na elaboração do projeto.
A historiadora Roseli, moradora da comunidade, afirma que a população tenta participar das discussões desde 2024.
“Sou Roseli, historiadora e moradora do bairro de Santana. Nasci e me criei no bairro e hoje estamos enfrentando a dificuldade de diálogo com a gestão pública da cidade do Recife, que desde 2024 nos ignora na formação e na contribuição do projeto da ponte Cordeiro–Casa Forte. E quando eu falo o nome da ponte já mostra o silenciamento do nosso território”, afirmou.
Segundo ela, houve encontros com representantes da prefeitura, mas sem espaço para discussão.
“O que houve foram reuniões onde apenas a prefeitura e a URB apresentaram o projeto da ponte, mas sem diálogo com a comunidade. A gente chegou a dizer que tinha jurídico, arquitetos, engenheiros, uma equipe que poderia contribuir para que o território não fosse afetado, mas isso não aconteceu”, disse.
Para Roseli, a ausência de participação da comunidade evidencia um processo de apagamento do bairro. “Hoje teve a ordem de serviço e mais uma vez a prefeitura ignora o conhecimento e o saber popular da comunidade.”
Impacto no trânsito e nas ruas da comunidade
Um dos pontos mais criticados pelos moradores é a previsão de um retorno de veículos no entorno da ponte, que deve passar por ruas estreitas do bairro.
Segundo relatos da comunidade, o projeto prevê que veículos que venham do Cordeiro possam retornar utilizando as ruas Henrique Machado e Olegarinha da Cunha.
“Quando eu era criança eu brincava na rua Olegarinha da Cunha. As crianças ainda brincam nessas ruas. Mas agora querem colocar um retorno da ponte ali, com ônibus e carros passando. São ruas muito estreitas”, relatou um morador.
De acordo com a comunidade, muitas casas da área não possuem calçadas adequadas, o que pode aumentar riscos para pedestres.
“A pessoa vai abrir a porta de casa e dar de cara com um trânsito rápido. Isso vai sufocar a comunidade”, afirmou.
Críticas ao projeto e às diretrizes urbanísticas
O coordenador da associação Ameciclo — organização que atua na promoção da mobilidade por bicicleta —, Daniel Valença, afirma que o grupo acompanha o projeto há cerca de dois anos e identificou inconsistências na proposta apresentada pela prefeitura.
“O que a gente vem travando há meses começou na verdade há dois anos. A gente entrou com diversos requerimentos administrativos pedindo acesso ao projeto para que nossa equipe de arquitetos pudesse analisar se estava em conformidade com a legislação”, afirmou.
Segundo ele, o material não foi disponibilizado integralmente à comunidade.
“Depois de muito tempo eles não deram o projeto para a gente. Fizeram apenas uma reunião mostrando como seria. E lá mesmo a equipe de arquitetos apontou que a própria URB estava descumprindo diretrizes urbanísticas da cidade.”
Entre os exemplos citados estão as dimensões de estruturas previstas no projeto.
“O manual urbano prevê largura mínima para paradas de ônibus e calçadas. No projeto apresentado, esses espaços foram reduzidos. Em alguns pontos a calçada fica com cerca de 1,80 metro. Se tiver um cadeirante esperando o ônibus, um pedestre já não consegue passar”, explicou.
Para Valença, a proposta prioriza veículos em detrimento da circulação de pessoas.
“Você vê claramente que a prefeitura está priorizando a passagem de carros e não de pessoas. A gente quer uma cidade para caminhar, para pedalar, para viver. Não uma cidade desenhada apenas para o carro.”
Ele também questiona os impactos reais da obra no trânsito da região.
“A ciência urbana mostra que fazer obra para carro não resolve congestionamento. Muitas vezes só gera mais trânsito. Se você quer reduzir engarrafamento, precisa investir em transporte público e outros modos de mobilidade.”
Desapropriações e temor entre moradores
Outro ponto de preocupação entre os moradores são as desapropriações necessárias para a construção da ponte. Segundo lideranças da comunidade, cerca de 150 casas podem ser impactadas diretamente.
A moradora Fátima Bonfim, que vive em Santana há cerca de 60 anos, afirma que o principal temor da população é perder suas casas e a estrutura de vida construída ao longo de décadas.
“Moro lá há 60 anos. A gente não está tentando impedir o progresso. A gente só queria que a ponte fosse feita sem esse retorno que vai prejudicar as casas da frente”, afirmou.
Segundo ela, a comunidade teme impactos diretos na rotina do bairro.
“Todo mundo ali tem uma vida estruturada. Trabalho, escola, posto de saúde, tudo perto. Se tirarem as pessoas dali, como é que fica?”, questionou.
Fátima também afirma que a possibilidade de desapropriação tem causado insegurança entre moradores.
“Isso tira seu sono. Você fica sem saber o que vai acontecer com sua casa, com sua vida.”
Para ela, o projeto deveria considerar alternativas que reduzam impactos na comunidade.
“Tem espaço para fazer diferente. Não precisa mexer nas casas. A gente só quer que respeitem quem mora ali há tanto tempo.”
Debate sobre o nome da obra
Outro ponto levantado pela comunidade é o próprio nome da obra. Segundo moradores e representantes de movimentos urbanos, a denominação “Ponte Cordeiro–Casa Forte” ignora o bairro de Santana, onde a estrutura deve desembocar.
“O correto seria Cordeiro–Santana, porque é ali que a ponte chega. Quando se insiste nesse nome, você acaba apagando o bairro”, afirmou Valença.
Ele também destaca que o território carrega uma história marcada por desigualdades urbanas.
“Se você olhar a formação histórica da região, Santana surgiu como área onde trabalhadores foram empurrados enquanto as áreas mais nobres ficaram em Casa Forte. Essa divisão urbana ainda existe.”
Comunidade promete continuar mobilização
Apesar do início das obras, moradores afirmam que continuarão pressionando a prefeitura por mudanças no projeto.
“A gente não é contra melhorar a cidade”, disse um dos representantes da comunidade. “O que queremos é que as leis urbanísticas sejam respeitadas e que a comunidade seja ouvida antes que as decisões sejam tomadas.”

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-panela-de-feijao-com-cald-2901485930.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ilustracao-artistica-real-2901464013.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)







/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-panela-de-feijao-com-cald-2901485930.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ilustracao-artistica-real-2901464013.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)