No palco da tenda onde ocorrem as principais exibições da Mostra de Cinema de Tiradentes, Julio Bressane pediu paciência aos espectadores. Calmo, a voz baixa, não tentou induzir o público a uma ou outra visão de “O Fantasma da Ópera”, curta-metragem codirigido com Rodrigo Lima que abriu o evento, numa sexta-feira atipicamente chuvosa na cidade mineira.
Disse somente que o mais interessante é aquilo que desagrada, e que se tivesse disposição, o público poderia encontrar, ao final do filme, uma “fonte de água cristalina”.
No dia seguinte, mais aclimatado à correria do festival, falava mais animado, gesticulava, enquanto era cobiçado pelos jornalistas e pelo público, tentando desvendar os mistérios deste veterano que completa 80 anos em fevereiro, mais de 60 filmes nas costas. E, como ele costuma repetir, são os filmes —não só os dele— que escondem o cinema.
“O filme aparece quando ele está oculto. O ocultar é o aparecer dele. É uma questão de expressão, de perceber esse fantasma que faz a ópera. É a velha história do máscara de ferro”, diz o cineasta.
Ele se refere à trama gótica de Gaston Leroux, que inspirou tanto o cinema mudo como um dos espetáculos mais longevos da Broadway, sobre o homem desfigurado que vive nos subterrâneos da Ópera de Paris. “Ele é que luta, fazendo a coisa acontecer. É o inconsciente que te movimenta, sem que você perceba o que é.”
Em 26 minutos, Bressane e Lima articulam imagens feitas durante a rodagem de “Pitico, Hermes Aires Azevedo (1881-1959), Historiador da Província”, um longa prestes a ser finalizado, sobre a gênese de uma pequena cidade do interior. Acompanhado da atriz Josie Antello, o protagonista será Paulo Betti, um ator que faltava no estrelado repertório do cineasta carioca.
“Mas não tem nada a ver com making of”, afirma Bressane, categórico. “Quando começamos a separar o material, surgiu o filme e o fantasma, e o desaparecimento e a morte do fantasma —que sou eu.”
Bressane nunca se escondeu das câmeras. Não é incomum que seus filmes, desde os anos 1960, rasguem a cortina da ilusão, revelando o entorno do cinema, as equipes que compõem o seu ateliê. Dessa vez, essa presença é mais ostensiva.
Num preto e branco pelas lentes do fotógrafo Pablo Baião, Bressane aparece com a farta barba branca que deixou crescer nos últimos anos. Com uma aura profética, qual o são Jerônimo que retratou num filme de 1999, ele dá orientações aos atores e técnicos.
“Não é uma representação, é um movimento de criação”, diz. “Ali é minha finitude. Quando você acaba um filme, o diretor morre.” Ele afirma ainda que não dirige os atores, apenas dá a eles uma situação e deixa que a câmera os acompanhe como os modelos de uma pintura. Os olhos esbugalhados e as mãos espalmadas são os gestos de uma mente guiada pelo cinema —luz e movimento.
Daí que tampouco está interessado em esconder os mecanismos dos ditos efeitos especiais. No caso do “Fantasma da Ópera”, impressiona as mil formas com que a equipe trabalha uma cadeira de balanço. Ora ela parece oscilar sozinha, ora vemos o fio de nylon que alguém puxa para produzir o movimento.
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Depois, é Betti quem repousa no móvel, escondido por um lençol iluminado, enquanto a câmera registra esse jogo de sombras. Por fim, é o próprio Bressane quem rapidamente senta na cadeira, num “fast-forward” fantasmagórico.
“A repetição para mim é algo fundamental. Repetição significa desigualdade”, afirmou, em uma conversa aberta para o público, na noite de sábado.
Foram, aliás, 40 minutos em que Bressane se abriu de forma pouco usual, interrompidos bruscamente por uma queda de energia. Amaciado pela pequena multidão de jovens aos seus pés, alguns até pedindo autógrafos, se emocionou quando o ator Miguel Falabella, da plateia, lembrou como foi viver o Júlio César de “Cleópatra”, em 2007. Em especial, a cena da morte do personagem, quando ele cobre o próprio rosto com sua túnica antes de desabar esfaqueado.
Em meio ao papo, Bressane enfatizou que “a grande questão da arte é a expressão de uma emoção”. “Não há nenhuma imagem que seja desprezível. Desprezível é sempre você, que não compreende aquela imagem que lhe faltou. Todas as imagens têm alguma coisa.”
A fala parece uma resposta às críticas daqueles que não embarcam nas suas obras, por vezes taxada de hermética, mas também ilustra sua visão do atual estado do cinema.
Apesar de ter elogiado “Palco Cama”, sobre Zé Celso, e ter prestigiado a sessão de “Querido Mundo”, de Falabella, no evento, Bressane prefere não comentar outras produções nacionais no geral, lembrando um conselho do amigo francês Claude Chabrol —nunca fale do filme de gente viva.
“Um arranhãozinho, uma simples batida pode virar uma ferida capaz de matar”, diz. “Hoje, eu não me sinto em condições de fazer esse tipo de exclusão.”
Parece também uma forma de se reservar à sua visão particular da produção de cinema, imparável mesmo entre as crises —a ditadura militar, o exílio, o fim da Embrafilme, os buracos nas políticas públicas de fomento etc.
“A questão do cinema como negócio é importante. Quer dizer, hoje tem comércio de tudo. Mas você, como pessoa, tem que ver a necessidade na qual a sua patologia insiste.”
De certa forma, Bressane soube manter um ritmo quase industrial às margens de uma aparelhagem nacional, ao lado de parceiros históricos como Rogério Sganzerla e de toda a equipe da TB Produções —incluindo aí sua mulher, Rosa Dias, as filhas Tande e Noa, o diretor Bruno Safadi, além de Lima, montador de seus filmes há quase duas décadas.
A impressão deixada por “O Fantasma da Ópera” é de que Bressane, de fato, contempla o fim serenamente. O curta parece um irmão de outras investidas recentes, como “A Longa Viagem do Ônibus Amarelo“, de sete horas, ou “Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísicas”, filmes-montagem em que revê fotogramas de filmes seus e de outros autores.
Nos últimos minutos do trabalho, o cineasta vetusto aparece caminhando por uma trilha, envolto pela natureza, até sair de cena. Ficam apenas as silhuetas negras de folhas sobre a tela prateada, enquanto a sala se preenche com um jazz de Johnny Dodds.
“A minha desgraça é uma coisa musical”, resume o fantasma.
O jornalista viajou a convite da Universo Produção

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