Quase dez mil pernambucanos desalojados e desabrigados precisam de um lugar seguro para viver sem medo – e muitos mais continuam assim, em suas casas
JC
Publicado em 04/05/2026 às 0:00
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A situação de emergência decretada pelo governo do Estado em 27 municípios pernambucanos leva em consideração, entre outros fatores, o fato de que os habitantes não dispõem de condições para superar os danos e prejuízos provocados pelas inundações. Ou seja, há o reconhecimento da necessidade de apoio financeiro e logístico para que as consequências dos alagamentos, deslizamentos de terra e perdas das famílias e das cidades, venham a ser enfrentadas com aportes adequados e suficientes para retomar o que existia antes, e seguir em direção a um futuro melhor, de preferência em mais segurança.
E é aí que o problema retorna ao ponto de sempre. As pessoas desalojadas e desabrigadas, que já chegam a dez mil no estado, devem ir para lugares em que o risco continua sendo presente. E outros milhares de habitantes moram em áreas arriscadas, a maioria mapeadas, conhecidas do poder público. Mesmo assim, e apesar dos investimentos declarados pelos governantes, a situação emergencial de moradia é antiga e permanece – e o decreto é a formalização disso, depois de dias de muita água caindo de céu, e de tragédias com mortes geradas primariamente não pelas chuvas, mas pela ocupação de locais propícios a trágicos desfechos, na vulnerabilidade às chuvas.
De acordo com a Defesa Civil, são 7,7 mil indivíduos desalojados e 1,6 mil desabrigados em Pernambuco, em decorrência das chuvas recentes. As seis mortes confirmadas pelo Corpo de Bombeiros ocorreram por deslizamentos de terra, na Região Metropolitana do Recife. Dos seis mortos, três eram crianças, sendo dois bebês. Vidas soterradas não pelo infortúnio, mas pela imprevidência que alia a falta de opção da população por moradia com o descontrole urbano e os baixos investimentos em habitação, que incluem a infraestrutura de serviços básicos e segurança em áreas sabidamente de risco.
As ações de resgate – mais de 800 realizadas nos últimos dias – e a ativação de 29 abrigos para receber quem teve que sair de suas residências, evidenciam o comprometimento dos gestores públicos com a segurança da população. No entanto, é forçoso admitir que configuram medidas retardatárias, que poderiam ser poupadas se a correta prevenção, ao longo de décadas, tivesse acontecido. E dentro das políticas preventivas, certamente estaria um planejamento habitacional que restringisse a ocupação em zonas de risco, bem como oferecesse moradia de qualidade para reduzir o déficit habitacional e garantir segurança, de fato, a quem depende da sorte quando o tempo fecha.
Segundo levantamento de 2024, há na Região Metropolitana do Recife mais de 200 mil pessoas morando em áreas de risco. É uma parcela grande da população, exposta a tempestades desde sempre, à espera de decisões que priorizem, quando não está chovendo, a situação emergencial em que já se encontram, às vezes, por anos. Para que não saibam para onde voltar, ou nem tenham como ir para outro lugar, seguindo a viver em ansiedade climática.


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