O senso comum costuma crer que pessoas altamente treinadas em ciência necessariamente são ateias. Ledo engano. Aqueles que lidam com o universo de alguma forma na sua atividade cotidiana e científica sustentam uma dose significativa de experiência espiritual e, talvez mesmo, mística, diferentemente de muitos profissionais das ciências humanas, biológicas e da filosofia, que costumam alimentar um ateísmo muito mais claro e praticam o proselitismo ateu abertamente, como uma forma de virtude intelectual.
Independentemente da crença de cada um, suspeito que tomar o ateísmo como virtude intelectual é um equívoco filosófico recorrente.
Entre esses profissionais praticantes das ciências que lidam com o espaço fora da Terra, os astronautas são um exemplo especialmente significante, pela simples razão de que sua relação com o espaço é, digamos assim, prática: eles frequentam o espaço.
Recentemente, o piloto da nave Artemis 2, Victor J. Glover, ao orbitar a Lua, fez uma oração se referindo ao amor de Cristo. Afinal, por que um astronauta, formado na mais fina ciência de frequentar o espaço, seria religioso e faria alguma forma de oração ao navegar pelo espaço? Meu foco aqui é o que se chama, em estudos da religião, de dimensão estética ou “geográfica” das manifestações espirituais ou místicas —não as tomo como sinônimos, mas não farei essa digressão aqui.
Mas, antes, vejamos outras manifestações espirituais de astronautas quando longe da Terra, vendo-a diante da imensa escuridão, vastidão e silêncio que caracteriza o espaço. Como foi dito certa feita pelo astrônomo Carl Sagan, a partir da foto tirada da Terra pela sonda Voyager 1 em 1990, a bilhões de quilômetros, nosso planeta é “a pale blue dot” —um pálido ponto azul. Essa afirmação implica uma enorme humildade cósmica, elemento comumente associado a experiências espirituais.
No dia 24 de dezembro de 1968, na nave Apollo 8, que foi a primeira a orbitar a Lua, sua tripulação, constituída pelos astronautas Frank Borman, James Lovell — que ficou famoso quando interpretado por Tom Hanks no filme “Apollo 13” e pelo seu “Houston, we have a problem”, em 1970 —e William Anders, leu os primeiros versos do livro do Gênesis ao orbitar o satélite e fez uma mensagem de Natal. Foram ouvidos por milhões de pessoas na Terra e “bombou”, como se costuma dizer hoje.
Já na Apollo 11, a primeira a pousar na Lua, em 20 de julho de 1969, o astronauta Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar no satélite —o primeiro foi Neil Armstrong, que desde então viveu uma vida um tanto reclusa como professor em Cincinnati, Ohio, e recusou toda a fama que lhe era devida— levou um pão e um vinho, para celebrar a comunhão, e leu trechos do Evangelho de João.
A Apollo 15 também pousou na Lua, em 1973. Após o retorno, o astronauta James Irwin, que caminhou no astro, afirmou algumas vezes que havia sentido mais a presença de Deus do que do espaço. Tornou-se profundamente religioso, desde então.
Claro que estamos falando de americanos que cresceram num ambiente cristão, e o contexto é sempre determinante nesses casos —os soviéticos nada falaram de Deus. Mas o espaço, a Lua, a solidão da Terra e da humanidade nesta vastidão indiferente a nós que é o espaço, compõem o que em estética da religião —estética aqui se refere a sensação, como no grego, nada tendo a ver com a arte— se chama de experiência de descentramento do eu e do mundo, revelando nossa pequenez e insignificância diante do todo. No caso, o espaço.
Estamos diante de um caso dramático do sublime kantiano, que transcende nossas capacidades cognitivas, epistêmicas e, ao mesmo tempo, eleva a alma, geralmente produzindo em quem o experimenta forte sensação de humildade cósmica e beleza, elemento essencial de qualquer narrativa espiritual que se preze.
Mesmo o estoicismo, em figuras como o imperador romano Marco Aurélio, via, no fato de sermos um “pedaço insignificante” de uma natureza que nos ultrapassa e nos determina, um elemento que o especialista em filosofia antiga Pierre Hadot considerou uma experiência passível de ser um exercício espiritual transformador da vida —nos termos do próprio Hadot.
A experiência do espaço tem profundo eco metafísico, justamente devido à sua imensidão misteriosa e silenciosa. Ao mesmo tempo, nossa fragilidade essencial diante dele nos encanta, assim como nossa solidão nele, e, quando digo “nossa solidão”, refiro-me à solidão da Terra.
Só nessa condição podemos, talvez, reviver o mistério que nossos ancestrais viveram no despertar das suas consciências.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ralo-de-pia-com-agua-morn-2901735907.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ralo-de-pia-com-agua-esco-2901321250.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)







/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ralo-de-pia-com-agua-morn-2901735907.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-ralo-de-pia-com-agua-esco-2901321250.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)