Em síntese, fumar causa câncer, doenças cardiovasculares e uma ampla gama de complicações graves, muitas delas incapacitantes e potencialmente fatais
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Após uma prazerosa viagem de férias, ao lado das filhas e da netinha Maria, percorrendo 14 cidades da França, Suíça e Itália, pude constatar — não sem certa decepção — que o chamado “Velho Mundo” ainda não conseguiu se libertar de um vício igualmente antigo e profundamente nocivo: o tabagismo. Os verdadeiros “escravos da nicotina” estavam presentes em praticamente todos os locais icônicos por onde passamos. Surgiam nas deslumbrantes estações de esqui dos Alpes suíços, como Monte Titlis, Jungfrau, Mürren e Schilthorn; nas esplendorosas catedrais de Strasbourg, Notre-Dame de Paris e no majestoso Duomo de Milão; nos magníficos museus do Louvre e o Musée d’Orsay; nos requintados restaurantes L`Avenue, em Paris, Cantinetta Antionori, em Zurique, Caravelle, em Lucerna, e Biffi, na suntuosa Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão; bem como nos charmosos cafés do Quartier Latin e de Saint-Germain-des-Prés, em Paris.
Lá estavam eles, invariavelmente, em áreas reservadas ou mesmo do lado de fora dos estabelecimentos, enfrentando o rigor do inverno europeu para satisfazer a dependência. A cena repete-se com impressionante regularidade: o fumante, isolado, tragando silenciosamente, alheio ao entorno histórico e cultural que o cerca. Muitos já exibiam o estereótipo inconfundível do portador de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), sequela implacável de anos — ou décadas — de exposição ao tabaco. Tosse crônica, dispneia aos mínimos esforços e fisionomia envelhecida compõem um retrato clínico que salta aos olhos do observador atento.
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Todavia, o que mais me deixou atônito foi a expressiva quantidade de usuários de dispositivos eletrônicos para fumar, os chamados vapes, sobretudo entre jovens, e a alarmante facilidade de aquisição desses produtos. Vendidos livremente em bancas de revistas, tabacarias e estabelecimentos similares, esses dispositivos são frequentemente apresentados como alternativas “menos nocivas” ao cigarro tradicional. Tal narrativa, entretanto, não se sustenta à luz das evidências científicas mais recentes. Estudos acumulados demonstram que os vapes também provocam danos cardiovasculares e respiratórios significativos, além de expor adolescentes e adultos jovens a um elevado risco de dependência química. Um dado particularmente preocupante é que apenas 1 ml de nicotina líquida pode conter quantidade superior à de um maço inteiro de cigarros convencionais. Soma-se a isso a variedade de aromas artificiais, estratégias de marketing sedutoras e a falsa percepção de segurança, compondo um cenário propício à iniciação precoce e à manutenção do vício.
Diante desse panorama, torna-se evidente que o esforço hercúleo da comunidade científica internacional — e, em especial, das sociedades médicas europeias — para combater o tabagismo assemelha-se, por vezes, a um verdadeiro “trabalho de Sísifo”. Na mitologia grega, Sísifo, considerado o mais astuto dos mortais, foi condenado por Zeus a empurrar eternamente uma pesada pedra morro acima, apenas para vê-la rolar de volta ao ponto inicial sempre que se aproximava do cume. A metáfora ajusta-se com precisão à luta contínua contra o tabaco: avanços regulatórios, campanhas educativas e alertas científicos são frequentemente neutralizados por novos produtos, novas estratégias comerciais e velhas dependências.
Em síntese, fumar causa câncer, doenças cardiovasculares e uma ampla gama de complicações graves, muitas delas incapacitantes e potencialmente fatais. Morrer por isso antes da velhice, entretanto, não é um destino inexorável — é uma consequência evitável. Superar o tabagismo exige coragem, lucidez e amor à vida. Exige, sobretudo, informação de qualidade, políticas públicas eficazes e o compromisso coletivo com a prevenção. Como profissionais de saúde, educadores e cidadãos, cabe-nos transformar conhecimento em ação, prevenção em prioridade e longevidade em conquista. A batalha contra o tabagismo não se limita ao consultório médico; ela se estende às escolas, às famílias, aos espaços públicos e às decisões políticas que moldam o futuro das próximas gerações. Permanece atual e contundente a afirmação de Sir Richard Doll, pioneiro nas pesquisas sobre os malefícios do tabaco: “A morte na velhice é inevitável, mas a morte prematura, não.”
Antônio Carlos Sobral Sousa
Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação
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