A viagem de cruzeiro prometia luxo, conforto e tranquilidade. No entanto, após o navio zarpar, coisas estranhas começam a acontecer. Primeiro, ele entra em curto-circuito, depois um funcionário é picado por uma cobra. Para arrematar, os passageiros entram em conflito, transformando a embarcação em um campo minado.
A peça “Reset América Latina” leva a ideia de perrengue chique a novas dimensões ao retratar embates para refletir sobre o nosso passado colonial. Mais do que lançar um olhar retrospectivo, a peça está interessada em entender como séculos de exploração moldaram as dinâmicas sociais do presente.
A produção reflete também sobre como o conceito de latinidade cria uma identidade homogênea para classificar povos essencialmente diferentes. “Essa é uma construção de origem colonial que foi naturalizada no nosso dia a dia”, diz Juão Nyn, um dos membros do coletivo Estopô Balaio, grupo responsável pela criação do espetáculo.
A peça é a parte final da “Trilogia da Amnésia” —projeto que reflete sobre como identidades nacionais e regionais podem ser excludentes e, por vezes, violentas.
A iniciativa começou em 2020 com a peça “Reset Nordeste”, em que a trupe examinou o conceito de nordestinidade. Três anos depois, o grupo investigou o que é ser brasileiro e, agora, analisa os sentidos da latinidade.
Não à toa, esse capítulo da trilogia se passa no interior de um navio, meio de transporte fundamental para o projeto colonial. No entanto, diferente do que acontecia na expansão marítima, a embarcação do espetáculo passa longe do desconforto e da insalubridade. Isso não quer dizer, porém, que essa viagem seja tranquila.
“As pessoas entram no cruzeiro achando que é tudo muito chique e legal, mas essa embarcação começa a emborcar e ruídos aparecerem”, afirma Nyn.
Os ruídos de que fala o ator se fazem sentir sob a forma de hierarquias sociais. Enquanto alguns tripulantes podem comer o que quiserem, outros precisam dividir refeições frugais.
É o caso, por exemplo, de um grupo de amigos que conseguiu embarcar na viagem graças a um sorteio. Apesar da euforia dos colegas de viagem, uma das integrantes desse grupo tem uma visão bem mais melancólica sobre a viagem.
Interpretada por Dandara Azevedo, Paulina não consegue relaxar. Enquanto os amigos tiram fotos e tomam coquetéis, ela diz que a ideia de ser latina é ridícula e questiona se realmente vale a pena ocupar aquele espaço de luxo.
“Essa personagem funciona como um ponto de tensão. Ela mostra que às vezes a gente está em um lugar, mas não necessariamente tem voz”, afirma Azevedo.
De certa forma, o incômodo da personagem em estar naquele navio espelha as inquietações do coletivo em ocupar um espaço cênico. Fundada há 15 anos no Jardim Romano, na zona leste da capital paulista, o Estopô Balaio é conhecido por usar as ruas como palco, de modo a descentralizar e democratizar a dramaturgia.
No entanto, a companhia se viu diante de um problema nos últimos tempos. A maioria dos editais que financiam a atividade teatral privilegia projetos em instituições teatrais.
Nesse cenário, a trupe passou a encontrar dificuldade para conseguir financiamento, problema que tem se agravado nos últimos anos. Em razão disso, o grupo decidiu montar “Reset América Latina” no Sesc Belenzinho.
Além de uma referência ao projeto colonial, o navio da peça é uma metáfora para o próprio teatro. “Estamos embarcando numa viagem, como se estivéssemos também em um cruzeiro”, diz Ana Carolina Marinho, que dá vida à Paola na encenação.
“Cada um de nós tem enfrentado dilemas diferentes em relação a essa estrutura, porque ela pode oprimir e centralizar.” Ainda que de maneira não intencional, a sua personagem também reproduz mecanismos de opressão.
Em um dos momentos de maior tensão dramática do espetáculo, ela pede para ser servida por Paulina –a personagem de Dandara Azevedo. Ao confundir a passageira com uma funcionária, a personagem acende tensões de raça e classe.
O embate entre as duas aumenta de forma progressiva até resultar em um desfecho inesperado. Num flerte com o realismo mágico, Paulina sugere trocar de pele com Paola, o que de fato se concretiza na encenação. A partir daí, a personagem parece perder de vista as preocupações sociais e passa a adotar uma personalidade quase aristocrática.
“É uma reflexão não só sobre expansão de corpo e de consciência”, diz Azevedo. “Se a gente não prestar atenção, a pele nova não terá a nossa cor nem as nossas histórias. Inclusive, essa mudança pode homogeneizar as pessoas e deixar todo mundo em um barco furado.”

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