Opinião – Joanna Moura: Narcisa, Boninho e o privilégio de ser ex-pai

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Opinião – Joanna Moura: Narcisa, Boninho e o privilégio de ser ex-pai


Quando eu era criança, três dos meus quatro irmãos não moravam conosco. Flavia, Marta e Pedro são frutos de casamentos anteriores do meu pai e moravam com suas respectivas mães em outro estado. Nos víamos algumas vezes por ano, durante as férias escolares.

Na esteira de um desses encontros, meu irmão mais novo —o único que morava comigo— perguntou, perplexo, porque havia um tipo de irmão que morava junto e outro que morava longe. Meu pai lhe explicou: eram filhos dele com suas ex-mulheres, com as quais “o papai tinha casado antes de conhecer a mamãe”. Ao que meu irmão completou com a lógica peculiar das crianças: “entendi, eles são ex-irmãos”. A resposta arrancou risadas dos adultos e desencadeou uma longa explicação sobre como a regra que vale para casamentos não vale para irmãos. “Irmãos são irmãos para sempre”, sentenciou para pôr fim à conversa.

Por sorte ou obra do destino, a sentença se cumpriu e, mesmo com a distância física com que fomos criados, nosso vínculo fraterno só se fortaleceu. Ao ponto de negarmos veementemente o título de “meios-irmãos” com o qual conhecidos teimam em nos rotular. Nada disso. Somos irmãos, irmãos por inteiro porque assim escolhemos.

Hoje, quando me deparei com a entrevista da socialite Narcisa Tamborindeguy no De Frente com Blogueirinha, lembrei-me dessa história. No trecho que viralizou, Narcisa é perguntada sobre a relação de Boninho, ex-diretor da Globo e seu ex-marido, com a filha Marianna.

“Ele é um péssimo pai, pai ausente, que não dá amor para ela. Ele só gosta da outra filha, da Isabella”, disse, se referindo à filha mais nova de Boninho com a atual mulher, a atriz Ana Furtado.

Não vou me ater a este caso em particular. Não conheço Narcisa, nem Boninho, nem Ana, nem Marianna, muito menos Isabella. Com certeza, como em qualquer imbróglio familiar, sobram versões para todos os lados. Mas usarei o desabafo de Narcisa como gancho para falar sobre esta opção que é oferecida para os homens de se divorciarem não só da esposa, mas também dos filhos, como se a dissolução de um casamento incluísse, na separação de bens, também as crianças. Mas, ao contrário das lutas que travam por imóveis ou dinheiro, esses homens frequentemente abrem mão com facilidade da divisão igualitária dos herdeiros.

Do alto dos meus 40 anos já observei (a segura distância, felizmente) divórcios dos mais diversos e posso atestar: o abandono (em maior ou menor medida) por parte dos homens de filhos de casamentos anteriores está longe de ser anedota viral. Pelo contrário, é real e muito comum. Especialmente quando os pais, pós-separação ou divórcio, se juntam a uma nova mulher. Mais ainda quando essa nova união gera uma nova criança.

É como se o cérebro ou coração desses homens fosse capaz de amar (e por amar me refiro não ao sentimento etéreo e difícil de mensurar, mas ao esforço diário de se fazer presente, cuidando, provendo, se interessando) apenas um núcleo familiar por vez.

É verdade que família não é um conceito estático. Pais se separam, casam-se com outras pessoas, têm mais filhos. Mas a matemática, nesses casos, deveria somar em vez de subtrair. Não são as crianças que assinam o divórcio, nunca deveriam, portanto, ser tratadas como ex-filhos.


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