Steven Spielberg, elevado a cineasta pelos alienígenas, retorna à órbita com ‘Dia D’

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Steven Spielberg, elevado a cineasta pelos alienígenas, retorna à órbita com ‘Dia D’


Se alguém na Terra deveria ter recebido a visita de um extraterrestre, esta pessoa é Steven Spielberg. É o que o próprio diretor vem dizendo em entrevistas, nas quais se apresenta como um embaixador desses seres, para divulgar o filme “Dia D”, que o leva de volta ao seu universo favorito.

Foram os alienígenas que elevaram Spielberg a um dos maiores cineastas do mundo. Primeiro com “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, de 1977 —até hoje um dos seus filmes mais elogiados—, depois com “E.T. – O Extraterrestre”, de 1982, referência ao unir ficção científica e tintas infantis, e então “Guerra dos Mundos”, de 2005, atualizando o livro clássico de H.G. Wells.

Após duas décadas, ele retorna aos discos voadores para falar, mais uma vez, do encontro entre o comum e o extraordinário. “Dia D”, hoje nos cinemas, não questiona apenas se estamos sozinhos na galáxia, mas o que deveríamos fazer frente a possíveis visitantes.

A trama põe dois civis, Margareth e Daniel —interpretados por Emily Blunt e Josh O’Connor—, no meio de uma celeuma com alienígenas que foi escondida da sociedade por décadas.

Margareth é uma meteorologista que entra em colapso quando, tomada por uma força sobrenatural, faz suas previsões numa língua nada humana. Daniel, por sua vez, tenta derrubar uma corporação que mantém secreta a presença de alienígenas na Terra.

É, de certa forma, uma versão mais grave do que Spielberg fez aos 30 anos em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, no qual um homem comum descobre evidências de vida extraterrestre escondidas pelas autoridades. À época, o filme ajudou a impulsionar um tema até então restrito às teorias da conspiração.

Mas o Spielberg que retorna aos discos voadores neste ano não é o mesmo de “Contatos Imediatos”. Se antes o cineasta tinha apenas uma esperança na existência dos aliens, agora, aos 79, ele parece ter certeza.

Isso ficou mais forte nos últimos anos. Em 2017, o Pentágono admitiu ter gastado milhões de dólares com programas para investigar fenômenos aéreos não identificados. Depois, o Congresso americano fez audiências públicas sobre o assunto e o presidente Donald Trump passou a divulgar documentos sobre óvnis até então mantidos em sigilo.

Foi nesse contexto de interesse renovado que Spielberg decidiu voltar ao tema. Uma espécie de tratado sobre o poder da informação, “Dia D” usa suas mais de duas horas para criticar extensivamente o fenômeno das “fake news”, o abuso da inteligência artificial, as guerras e a crueldade do ser humano diante de seres indefesos.

O filme mostra ainda um governo americano displicente, uma sociedade manipulável e a ciência usada para o mal. Ao site americano Fandango, o diretor disse que quem for ao cinema certamente vai pensar que a história é um retrato do que vivemos agora.

Há razão para ele pensar isso. A dois meses da estreia do filme, Donald Trump lançou o site aliens.gov, no qual chama imigrantes em situação irregular nos Estados Unidos de alienígenas —ironicamente, “Dia D” aponta justamente como a sociedade transforma o estrangeiro em algo a ser temido.

Spielberg nunca escondeu sua desconfiança do governo. Sinais disso aparecem em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, lançado após o fim da Guerra do Vietnã e em meio às cicatrizes do escândalo Watergate, quando americanos debatiam a credibilidade das suas autoridades.

Na trama, Rory, um homem comum, desafia militares para encontrar os extraterrestres que o fascinam. O filme terminou de alavancar sua carreira depois do sucesso de “Tubarão”, dois anos antes, que o tornou um artista respeitado em Hollywood.

A obsessão de Spielberg pelos mistérios do céu surgiu na infância, quando ele foi levado pelo pai para ver uma chuva de meteoros. Encucado com a possibilidade de existirem civilizações em outros planetas, o garoto acabou influenciado pelo patriarca, um fã de ficção científica, que dizia ao filho que a humanidade não poderia, de forma alguma, estar sozinha.

Antes de “Contatos Imediatos”, aos 17 anos, Spielberg rodou “Firelight”, uma obra amadora que indicava o que ele faria com mais maestria —e dinheiro— depois. No longa, um grupo de cientistas investiga luzes estranhas no céu.

Talvez porque tenha descoberto sua paixão por cinema tão cedo —ainda criança ele já fazia filmes, como mostra o autobiográfico “Os Fabelmans”, de 2022—, o diretor goste de levar crianças ao centro de suas histórias.

Sua infância, embora feliz, foi marcada por bullying e pelo divórcio dos pais, que o levou depois a imaginar “E.T.: O Extraterrestre”. Elliott, o protagonista do filme, também precisa lidar com a solidão de uma separação, e acaba encontrando um amigo no alienígena que é abandonado pelos seus pares.

Ao lado de “Contatos Imediatos”, “E.T.” ajudou a redefinir a ficção científica sobre alienígenas com uma abordagem emocional, diferente do tom que dominou o gênero décadas antes, em títulos como “A Guerra dos Mundos”, de 1953.

É irônico, então, que Spielberg tenha decidido refazer justamente essa história em 2005. Sua versão é a única, entre seus quatro filmes sobre ETs —com “Dia D” agora na conta—, que os retrata como destrutivos. Hoje, o diretor diz que fez o longa no anseio de refletir sobre os traumas deixados pelos ataques de 11 de Setembro.

De lá para cá, Spielberg fez tanto filmes mais realistas —como “Lincoln”, “Ponte dos Espiões” e o jornalístico “The Post: A Guerra Secreta”— como aventuras para a família — “As Aventuras de Tintim”, “O Bom Gigante Amigo” e “Jogador Nº 1”. Mas nunca deixou de orbitar seu tema favorito —produziu a minissérie “Taken”, sobre uma família envolvida com supostas abduções, e voltou à franquia “Indiana Jones”, dirigindo o “Reino da Caveira de Cristal”, que tem uma subtrama alien.

Nessas duas décadas, o cinema voltou a tratar os alienígenas com ares mais reflexivos, seja nas mãos de Denis Villeneuve, que fez em “A Chegada” uma defesa sobre linguagem, e nas de Jordan Peele, que convocou os extraterrestres para criticar preconceitos da humanidade em “Não! Não Olhe!”.

“Dia D” também debate linguagem e pincela temas como saúde mental e religião em oposição à ciência. Mas Spielberg ainda é Spielberg —o que aterrissa nos cinemas agora é mais um filme para o coração do que para a cabeça.



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