Clique aqui e escute a matéria
A alta da UTI costuma ser interpretada por famílias como o encerramento de um ciclo crítico. Na prática, segundo o médico intensivista João Gabriel Ramos, Presidente da Clínica Florence, esse momento marca o início de uma nova etapa, que envolve riscos, necessidade de acompanhamento e, em muitos casos, reabilitação estruturada. A chamada Síndrome Pós-Cuidados Intensivos reúne um conjunto de alterações físicas, cognitivas e emocionais que podem surgir após a internação prolongada e impactar diretamente a funcionalidade do paciente.
Presidente da Associação de Medicina Intensiva da Bahia (Amib), o intensivista João Gabriel Ramos afirmou ao JC que a compreensão sobre esse período ainda é recente na medicina. “A vitória esperada na UTI era a alta com o paciente vivo, e o que acontecia depois não era acompanhado. Quando passamos a observar o longo prazo, percebemos sequelas que duram bastante tempo.”
Esse movimento está associado ao envelhecimento da população, à maior sobrevida de pacientes graves e ao avanço das terapias intensivas. Com mais pessoas sobrevivendo a quadros críticos, cresceu também a necessidade de entender as consequências após a estabilização clínica.
A síndrome pós-UTI pode afetar múltiplas dimensões. Entre os sintomas mais comuns estão fraqueza muscular, falta de ar e perda de autonomia para atividades básicas. Há também prejuízos cognitivos, como alterações de memória e raciocínio, além de impactos emocionais, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. “Muitas famílias ficam surpresas quando o paciente sai da UTI e ainda está tão fraco. Mas isso é esperado. O corpo passou por um trauma fisiológico imenso. A recuperação não acontece sozinha,” destaca o profissional.
Além dos efeitos individuais, o quadro pode alterar a dinâmica familiar e profissional. Dr Ramos alertou que parte dos pacientes não consegue retomar o trabalho ou retorna em condições diferentes, com redução de carga horária ou renda, o que amplia o impacto da recuperação. “Imagina uma pneumonia, uma infecção, uma cirurgia. A pessoa tem a expectativa de que, após controle da doença aguda, ela volte ao que era antes. Mas o que acontece é que muitas vezes, mesmo após estabilizar a doença aguda, a pessoa ainda sofre com consequências e com dificuldades que ela não tinha antes da doença aguda”, avaliou.
Dr João Gabriel Ramos, médico da Clínica Florence – DIVULGAÇÃO/ CLÍNICA FLORENCE
A perda de massa muscular e de funcionalidade é um dos principais desafios durante e após a internação. De acordo com o especialista, esse processo pode ocorrer em internações superiores a três dias, especialmente quando há ventilação mecânica, infecções graves ou cirurgias de grande porte. A recuperação, no entanto, varia conforme o histórico do paciente, a gravidade do quadro e as estratégias adotadas após a alta.
“Os primeiros 30 dias são os mais difíceis, e até três meses ainda pode haver piora. Em cerca de seis meses, metade dos pacientes apresenta melhora funcional, mas uma parcela pode manter sequelas por mais tempo”, explica. Dr. João. O médico comenta que, em até um ano, entre 10% e 15% podem permanecer com limitações.
Plano estruturado após a alta
A ausência de um plano de cuidados no momento da alta é apontada como um dos principais fatores de risco para complicações. Sem diagnóstico claro das sequelas, pacientes podem não compreender sintomas como fraqueza, dor ou alterações cognitivas, o que dificulta a busca por tratamento adequado.
“Todo paciente que ficou mais de dois ou três dias na UTI deveria passar por uma avaliação multidimensional”, destaca João Gabriel Ramos. Essa análise inclui aspectos físicos, cognitivos e emocionais, além da definição do local mais adequado para a continuidade do cuidado, que pode variar entre acompanhamento ambulatorial, atendimento domiciliar ou internação em unidade de transição – que são os hospitais especializados em reabilitação itensiva.
Segundo o médico, cerca de um terço dos pacientes pode se beneficiar de um período adicional em hospitais de cuidados pós-agudos, com foco em estabilização e reabilitação mais intensiva antes do retorno para casa.
O profissional destaca que esse modelo de cuidado está consolidado em outros países há décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, estruturas como LTACH (Long-Term Acute Care Hospitals) e IRF (Inpatient Rehabilitation Facilities) fazem parte da jornada assistencial de pacientes críticos. Ele cita o exemplo da Cleveland Clinic, onde cerca de um terço das altas de UTI são encaminhadas para esse tipo de unidade.
“Segundo estudos científicos da Prescott & Angus, publicado no JAMA em 2018, aproximadamente 40% dos sobreviventes de sepse são reinternados em até 90 dias após a alta hospitalar, independentemente do local onde foram tratados. O que se busca evitar é a reinternação prevenível, causada por perda de funcionalidade, dificuldade de deglutição, quedas ou uso inadequado de medicamentos”, declara.
Além da reabilitação, o plano pós-alta deve incluir revisão de comorbidades, reconciliação medicamentosa e definição de metas terapêuticas. A ausência dessas etapas pode elevar o risco de complicações, incluindo novos eventos clínicos e até mortalidade.

Clínica Florence – DIVULGAÇÃO
Mudança de cultura na medicina
O foco tradicional da terapia intensiva esteve concentrado na redução da mortalidade. Segundo o especialista, esse cenário começou a mudar nas últimas décadas, com a incorporação de cuidados paliativos e, mais recentemente, com a atenção aos desfechos de longo prazo.
“Hoje existe uma terceira fase, entender como devolver essas pessoas para a sociedade”, justifica. Ele destaca que diretrizes recentes já incluem recomendações voltadas à recuperação pós-UTI, algo que não era comum até poucos anos atrás.
Apesar dos avanços, ainda há um distanciamento entre a alta hospitalar e o acompanhamento contínuo, especialmente porque muitos profissionais não acompanham a evolução dos pacientes após a internação.

Clínica Florence – DIVULGAÇÃO
Papel da família e da reabilitação intensiva
A participação da família é considerada parte central do processo. Desde a internação, a presença de familiares pode contribuir para reduzir quadros de confusão mental e estresse, além de auxiliar na adaptação do paciente ao ambiente hospitalar.
“Não existe reabilitação sem o apoio da família”, frisou o médico ao JC. Ele recomenda que os familiares participem ativamente, busquem informações e sejam orientados sobre os cuidados necessários após a alta.
Entre as perguntas consideradas essenciais estão entender o plano de reabilitação, se tem indicação de reabilitação multiprofissional intensiva internado em Hospital Especializado e qual o nível de dependência no momento de alta da UTI.
É nesse contexto que a reabilitação intensiva multiprofissional ganha destaque. O modelo prevê carga mínima de 18 horas semanais, com atuação integrada de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. “Não basta fortalecer o punho, é preciso recuperar a capacidade de realizar tarefas do dia a dia, como girar uma maçaneta”, exemplifica Dr. João.
Segundo o especialista, esse tipo de abordagem está associado à recuperação mais rápida, menor risco de reinternação e redução de eventos adversos, como quedas e infecções.
O profissional revela que há evidências publicadas na literatura científica sobre os resultados desse modelo. Ele comentou que a Clínica Florence publicou no periódico internacional Critical Care Science (2024) e que esse foi o primeiro estudo brasileiro sobre desfechos de pacientes pós-UTI em unidades de transição.
A pesquisa acompanhou 847 pacientes e demonstrou melhora do estado funcional em 85% dos casos, com média de internação de aproximadamente 36 dias e oferta de até 18 horas semanais de terapias multiprofissionais.
Dr João disse ao JC que a instituição se tornou uma referência nacional no cuidado pós-UTI durante a pandemia de Covid-19, recebendo pacientes de diferentes estados do país para reabilitação intensiva, inclusive com suporte de transporte aeromédico.

Clínica Florence – DIVULGAÇÃO
Unidades de transição e continuidade do cuidado
As unidades de cuidados pós-agudos surgem como alternativa intermediária entre o hospital e o domicílio. Esses espaços atendem tanto pacientes que ainda não têm condições de alta quanto aqueles que, mesmo estáveis, se beneficiam de reabilitação intensiva.
Entre os perfis atendidos estão pessoas em desmame de ventilação mecânica, pacientes com traqueostomia, necessidade de curativos complexos ou limitações funcionais importantes. Também há casos em que a internação visa intensificar o processo de recuperação.
“O hospital de transição permite um cuidado mais focado na reabilitação, com equipe integrada e maior intensidade terapêutica”, afirma. Segundo o médico, esse modelo pode acelerar a recuperação e reduzir riscos associados ao retorno precoce para casa sem suporte adequado.

Clínica Florence – DIVULGAÇÃO
Alerta para o momento da alta
Para famíliares e pacientes, a recomendação é tratar a alta da UTI como uma etapa de transição, e não como o fim do tratamento. “É comum que as famílias entendam a saída da UTI como o fim do cuidado, mas isso não deve ser tratado como regra nem como uma conclusão definitiva. Cada paciente precisa ser avaliado de forma individual, para que receba o acompanhamento e o tratamento mais adequados”, afirma João Gabriel Ramos.
Ele orienta que o principal ponto para a família questionar aos profissionais é a garantia sobre os próximos cuidados. “A pessoa precisa perguntar como será o acompanhamento após a alta e quais estratégias serão adotadas para aumentar as chances de recuperação”, diz.
A definição de um plano estruturado, com acompanhamento contínuo e reabilitação adequada, é apontada como elemento central para reduzir complicações, melhorar a qualidade de vida e ampliar as possibilidades de retorno às atividades anteriores.
Mais sobre a Clínica Florence
A Clínica Florence é referência nacional em reabilitação intensiva e cuidados paliativos, sendo o primeiro hospital de transição de cuidados do Norte/Nordeste brasileiro. Com atendimento 24 horas e equipe multiprofissional, já atendeu mais de 5 mil pacientes ao longo de sua trajetória. Atua em um ambiente pensado para proporcionar conforto e acolhimento. O trabalho é integrado, humanizado e envolve também a família, com orientações para o retorno seguro ao lar. Conheça mais aqui.


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-papel-higienico-sendo-jog-2886332075.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-mulher-com-cabelo-grey-bl-2885760299.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)








/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-papel-higienico-sendo-jog-2886332075.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-mulher-com-cabelo-grey-bl-2885760299.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)