Seu suplemento faz bem ao coração? Ou você só acha que faz? Veja onde termina o benefício e começa o excesso

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Seu suplemento faz bem ao coração? Ou você só acha que faz? Veja onde termina o benefício e começa o excesso


Em congresso, cardiologista alerta para uso indiscriminado de suplementos e defende abordagem individualizada e em mudanças no estilo de vida

Por

Cinthya Leite


Publicado em 07/08/2026 às 15:13
| Atualizado em 07/08/2026 às 15:14


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RIO DE JANEIRO* – Em um cenário marcado pela busca cada vez maior por saúde, longevidade, emagrecimento e performance, os suplementos alimentares ganharam espaço na rotina de milhões de pessoas. Cápsulas de vitamina D, ômega-3, magnésio, creatina, antioxidantes e coenzima Q10 passaram a fazer parte de uma espécie de “farmácia pessoal” que, muitas vezes, cresce sem que haja uma pergunta fundamental: há realmente indicação para tudo isso?

O alerta ganha relevância em um momento em que a relação entre alimentação, metabolismo, obesidade e doenças cardiovasculares ocupa lugar central na medicina. O tema é discutido, nesta sexta-feira (7), durante o Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or, realizado no Rio de Janeiro, que reúne especialistas para discutir avanços e desafios no cuidado cardiovascular.

Nesse contexto, o acompanhamento individualizado é fundamental, e o trabalho conjunto entre médico e nutricionista ganha cada vez mais importância. Enquanto a avaliação médica permite identificar doenças, fatores de risco, indicações e possíveis interações com medicamentos, o nutricionista tem papel essencial na avaliação da alimentação, das necessidades nutricionais e na definição de estratégias alimentares e de suplementação quando elas forem realmente necessárias.

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É essa atuação integrada que ajuda a evitar tanto deficiências quanto o consumo desnecessário de produtos em nome da saúde.

Entre os participantes do congresso, está o cardiologista Marco Antônio Alves, coordenador da Cardiologia do Hospital Esperança Recife, que dedica uma de suas discussões ao uso racional de suplementos e seus possíveis impactos sobre o coração.

A principal mensagem do especialista é menos sobre demonizar ou defender suplementos e mais sobre tirar esses produtos do território do consumo automático. 

“O suplemento precisa ser encarado de forma séria; ele tem um racional fisiológico, mas na prática nem sempre agrega valor se não houver uma indicação precisa”, alerta Marco Antônio. 

Suplemento não é para todo mundo

Os suplementos são vendidos como produtos associados à saúde e ao bem-estar, mas não são inofensivos nem mesmo apropriados para qualquer pessoa.

Na prática clínica, Marco Antônio Alves diz encontrar uma situação curiosa: pacientes que resistem ao tratamento medicamentoso convencional, mas não demonstram a mesma resistência quando o assunto é consumir vários suplementos.

“No consultório, enfrento o desafio de pacientes jovens que resistem a tomar um medicamento para hipertensão, mas aceitam tomar dez suplementos sem questionar”, ressalta. 

A questão, segundo ele, não é simplesmente tomar ou não tomar. É entender para quem, em qual dose, com qual objetivo e diante de qual condição clínica determinado produto pode fazer sentido.


CINTHYA LEITE/JC

O cardiologista Marco Antônio Alves é coordenador da Cardiologia do Hospital Esperança Recife. No congresso, ele dedica uma de suas discussões ao uso racional de suplementos e seus possíveis impactos sobre o coração – CINTHYA LEITE/JC

 

Entre os suplementos discutidos pelo cardiologista, estão ômega-3, vitamina D, magnésio, resveratrol, creatina, berberina e coenzima Q10. Eles não devem, porém, ser colocados no mesmo grupo nem tratados como soluções universais.

A evidência científica varia conforme o composto, a população estudada, a dose e a indicação. E, de acordo com o especialista, não existem evidências que sustentem a ideia de que o uso generalizado de suplementos reduza a mortalidade cardiovascular na população como um todo.

Isso não significa que suplementar nunca seja necessário. Há situações específicas nas quais a suplementação pode ter papel relevante, especialmente quando existe deficiência, uma condição clínica particular ou uma indicação terapêutica bem estabelecida.

O desafio está justamente em diferenciar necessidade de consumo por hábito.

Coenzima Q10: um exemplo de que contexto importa

A coenzima Q10 é um dos exemplos citados pelo cardiologista para mostrar como o contexto clínico muda a interpretação de um suplemento.

Segundo Marco, a coenzima Q10 pode ter utilidade em determinados pacientes, incluindo pessoas que utilizam estatinas ou apresentam insuficiência cardíaca. Mas isso não significa que a coenzima Q10 deva ser incorporada automaticamente à rotina de qualquer pessoa preocupada com o coração.

A mesma lógica vale para outros produtos. Um suplemento que pode ser interessante para determinado paciente pode ser desnecessário para outro.

É uma distinção simples, mas fundamental: o fato de um produto ter uma função fisiológica não significa que toda pessoa precise utilizá-lo.

A nova fronteira: medicamentos para tratar a obesidade

A discussão sobre suplementação também se conecta a uma das maiores transformações recentes da medicina: o avanço dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, especialmente os chamados análogos do GLP-1 (semaglutida e tirzepatida, por exemplo), popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. 

Para o médico, cardiologia e endocrinologia estão cada vez mais próximas justamente porque a obesidade deixou de ser vista apenas como uma questão estética e passou a ser reconhecida como um importante fator de risco cardiometabólico.

Esses medicamentos já demonstraram benefícios clínicos relevantes em grupos específicos de pacientes, inclusive com redução de eventos relacionados à insuficiência cardíaca e benefícios sobre a saúde renal em determinadas populações.

Mas o especialista chama atenção para um problema: o tratamento da obesidade não pode ser reduzido ao número exibido na balança. 

Quando uma pessoa perde peso, é desejável que a maior parte dessa perda venha do tecido adiposo (gordura). Entretanto, parte do peso perdido pode corresponder à massa muscular. Em determinadas situações, uma perda significativa de músculo pode contribuir para redução de força e piora da composição corporal.

É nesse ponto que entram alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas, exercício físico (especialmente treinamento de força) e, quando houver indicação, estratégias nutricionais ou suplementação.

A creatina, por exemplo, pode ser uma ferramenta importante em determinados contextos relacionados à preservação ou ganho de massa muscular. Mas novamente a lógica é a mesma: ela não substitui alimentação, atividade física nem acompanhamento profissional. 


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Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or, no Rio, conta com cerca de 7 mil inscritos – DIVULGAÇÃO

O risco de transformar o emagrecimento em uma corrida

Outro aspecto levantado por Marco Antonio Alves é a utilização de medicamentos para perda de peso sem acompanhamento adequado ou por meio de produtos cuja procedência e regularidade sanitária não estejam asseguradas.

A popularização desses tratamentos criou um ambiente no qual a busca por resultados rápidos pode ultrapassar os limites da segurança.

Nesse cenário, o médico faz um alerta que vale para medicamentos e suplementos: procedência, indicação, dose, acompanhamento e qualidade do produto importam.

Não é porque determinado produto circula amplamente nas redes sociais ou é utilizado por celebridades e influenciadores que ele é automaticamente adequado para todos.

A medicina baseada em evidências exige justamente o contrário: avaliar o paciente antes de decidir pelo tratamento.

O coração começa muito antes do consultório

Apesar de toda a discussão sobre suplementos e medicamentos, a mensagem central do cardiologista é mais tradicional e, talvez, justamente por isso, mais importante.

Para Marco Antônio Alves, mudanças no estilo de vida continuam sendo a primeira linha de prevenção e tratamento de diversas doenças cardiovasculares.

Sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física regular, controle do peso, abandono do tabagismo, redução do consumo de álcool quando necessário e atenção à saúde mental formam um conjunto de medidas que nenhuma cápsula consegue substituir.

Antes de comprar, uma pergunta

A indústria do bem-estar costuma vender uma ideia sedutora: a de que existe uma cápsula capaz de compensar uma rotina desequilibrada.

A cardiologia oferece uma resposta menos imediata, porém mais consistente: não existe suplemento capaz de substituir um estilo de vida saudável.

Isso não torna suplementos inúteis. Em determinadas pessoas, eles podem desempenhar um papel importante e até necessário. O ponto é que seu uso precisa estar inserido em uma estratégia de cuidado, e não funcionar como um atalho.

A pergunta mais importante, antes de acrescentar um novo produto à rotina, portanto, talvez não seja “qual suplemento devo tomar?”, mas: “eu realmente preciso dele?”. 

A resposta, quando envolve saúde cardiovascular, deveria vir de uma avaliação individualizada e de uma decisão compartilhada com um profissional habilitado. 

“Pequenas intervenções e orientações rápidas podem ter um impacto gigante na prevenção de doenças cardiovasculares, o que é muito mais eficiente e barato para a saúde pública do que tratar a doença instalada”, destaca Marco Antônio. 

*A jornalista acompanha o congresso a convite da Rede D’Or. 






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