O aniversariante desta sexta (7) é Caetano Veloso, que completa incríveis 84 anos. Desde que me dou por gente, o baiano de Santo Amaro sobrevoa o debate nacional. Uma carreira longeva produziu momentos marcantes, daqueles que visualizamos sem ter vivido. Mas há um desses episódios históricos que sempre quis ver, mas cujo registro visual desapareceu.
Sou historiador da música popular. Depois de anos de árduas pesquisas e várias desilusões em encontrar fontes perdidas, pergunto-me qual seria o “santo graal” da música brasileira. Ou seja, qual é aquele documento que simbolicamente seria mais importante reencontrar?
Meu “santo graal” da música popular é o vídeo do discurso de Caetano Veloso durante a performance da canção “É Proibido Proibir”, no 3º Festival Internacional da Canção Popular, transmitido pela TV Globo em setembro de 1968. É aquela exibição em que Caetano criticou a patrulha de esquerda universitária com o famoso discurso: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”
O festival foi transmitido ao vivo para o Rio e São Paulo. Depois os videotapes foram retransmitidos em vários estados do país. Mas as fitas perderam-se. Argumenta-se que, caras na época, as fitas teriam sido reutilizadas, apagando-se o conteúdo original. Outros dizem que foram queimadas no incêndio de 13 de julho de 1969, que consumiu boa parte do arquivo da Globo.
Caetano e Gilberto Gil haviam lançado o tropicalismo em 1967, quando mostraram as canções “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. Nelas, os baianos já propunham aquilo que “É Proibido Proibir” levou a extremos —a poesia não linear, a contestação às convenções das esquerdas e direitas, a mistura do tradicional com o moderno, a introdução de guitarras na MPB e a antropofagia.
O Festival da TV Globo tinha uma fase estadual, outra nacional e, por fim, a internacional. “É Proibido Proibir” foi apresentada por Caetano, ao lado da banda de rock Os Mutantes, regidos pelo arranjo de orquestra do maestro, três dias depois.
Quando apresentou a canção pela segunda vez, Caetano resolveu cutucar ainda mais o público. Começou cantando um tanto quanto desafinado por não se ouvir devido às vaias iniciais. Até conseguiu chegar à parte da letra que diz: “A mãe da virgem diz que não…”
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O caldo ferveu quando Caetano começou a rebolar e chamou ao palco o hippie americano John Dandurand para dar gritos no microfone, transformando a provocação em uma vaia ensurdecedora.
Caetano não deixou por menos e ironizou: “Se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!” Em seguida, disse que a vaia da plateia de esquerda era uma atitude fascista. O público então virou-se de costas. Irônicos, Os Mutantes imitaram o gesto, virando de costas para a plateia.
Cada vez mais irritado, Caetano criticou o júri: “Me desclassifiquem junto com Gil! E contra vocês! O júri é muito simpático, mas é incompetente!”
A canção de Gil, “Questão de Ordem” não havia sequer passado na primeira classificatória. Ao ouvir o amigo em sua defesa, Gil entrou no palco para enfrentar a multidão ao lado de Caetano e, numa atitude bem antropofágica, comeu os tomates que a plateia jogava.
Ao contrário do que queria Caetano e do que lembra a memória popular, “É Proibido Proibir” não foi desclassificada. Ela ficou em quinto lugar na final paulista e foi para a disputa nacional. A partir daí começou um cabo de guerra entre Caetano e Augusto Marzagão, o todo-poderoso do festival da Globo, que cobrava sua presença na etapa seguinte.
Caetano manteve-se firme em entrevista ao Jornal do Brasil: “Entrei no festival para destruir a ideia que o público universitário, ‘soit disant’ de esquerda, faz dele. Eles pensam que festival é uma arma defensiva da tradição da música popular brasileira. E a verdade mesmo é que festival é um meio lucrativo que as televisões descobriram. Tradição bacana, nenhuma”.
Há episódios históricos que nunca foram filmados. Por exemplo, o lendário gol “mais bonito” de Pelé, marcado em 2 de agosto de 1959 no estádio do Juventus, na Mooca paulistana, que vive apenas no relato oral de quem viu.
O que difere este episódio do discurso de Caetano é que a performance do baiano foi, sim, filmada. E perdeu-se. O áudio foi preservado porque a gravadora Philips, aproveitando a repercussão da performance, lançou um compacto com “É Proibido Proibir” de um lado e o discurso de Caetano do outro. Hoje é possível ouvir o áudio de seu discurso em qualquer streaming. Mas o vídeo ninguém sabe onde foi parar.
Recentemente foram produzidos filmes baseados em arquivos que praticamente ninguém sabia da existência. Foi o caso de “Get Back”, de 2021, sobre os Beatles; “Elis e Tom”, de 2023, sobre o disco homônimo de 1974; e “A Noite que Mudou o Pop”, de 2024, sobre as gravações da canção coletiva “We Are the World”, com a presença de pesos-pesados da música americana em 1984.
Explorar documentos antigos faz muitos de nós nos sentirmos uma espécie de Indiana Jones dos arquivos. Quem sabe algum arqueólogo “rato de arquivo” não encontre uma cópia perdida do vídeo de “É Proibido Proibir”. Seria fantástico. E um belo presente de aniversário ao gênio da raça da canção nacional.
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