“Meu nome é Robert e eu sou da Inglaterra”, disse Robert Plant no meio de seu show no C6 Fest, como se o vocalista de uma das maiores bandas da história, o Led Zeppelin, precisasse de apresentação. O cantor foi a principal atração do último dia do festival, que aconteceu em São Paulo.
Plant retornou a São Paulo 11 anos depois de sua apresentação no Brasil, no Lollapalooza de 2015. Naquela ocasião, como agora, ele trouxe um show majoritariamente acústico, mas em nova versão, acompanhado pela banda Saving Grace e pela cantora Suzi Dian.
Esse formato de show teve alguns problemas no C6 Fest. Delicada, menos barulhenta e se aproveitando dos silêncios, a apresentação teve uma plateia dividida —uma parte maior em silêncio e prestando atenção, outra conversando. Os gritos de silêncio se proliferaram ao longo da performance. A falta de potência do sistema de som não ajudou.
Além das músicas do disco lançado por Plant com o novo grupo, no ano passado, o repertório conteve um punhado de canções do Led Zeppelin. A primeira foi “Ramble On”, lançada em 1969, e puxada por um violão de 12 cordas.
É como se Plant tivesse despido a canção das guitarras sujas de Jimmy Page e da bateria inquieta de John Bonham até que sobrasse apenas o essencial. Demorou um pouco até que a plateia cheia e bem espalhada na área externa do auditório Ibirapuera— percebesse, e celebrasse, que se tratava de um clássico do Led Zeppelin.
O próprio jeito de cantar de Plant é econômico. Conhecido por gritos e agudos cortantes, o roqueiro agora só sobe a voz quando sente que consegue alcançar as notas. Aos 77 anos, ele não faz as estripulias da juventude mas, no que se propõe a fazer, soa como se o tempo não tivesse passado para seu gogó.
O show mostrou como afloraram em Plant influências que ele tinha desde a época do Led Zeppelin. Isso inclui a música indiana e o som dos bandolins. As cordas, aliás, determinam a estética da apresentação, também com violão, violão de 12 cordas, banjo e até guitarra.
Dentro dessa formatação, o britânico foi dando novas encarnações às canções da antiga banda. “Four Sticks” veio com guitarra e arranjos de acordeon, instrumento que também adornou “Friends”. A única exceção foi “Rock and Roll”, clássico que veio roqueiro como a tradição pede, e com o sugestivo verbo “it’s been a long time since I rock and rolled”.
No caldo de folk e blues de Plant couberam músicas tradicionais e releituras de canções de outras bandas, como Low (“Everybody’s Song”), Moby Grape (“It’s a Beautiful Day Today”) e Neil Young (“For the Turnstiles”). Quase tudo veio em performances esticadas, com instrumentais cíclicos e repetições que remeteram aos mantras e à evocação de alguma espiritualidade.
Plant ainda lamentou em vários momentos que sua atual turnê estava acabando com o show em São Paulo. Também celebrou o que chamou de “um ótimo na minha vida enquanto cantor”.
O domingo no C6 teve também shows de Benjamin Clementine e Paralamas do Sucesso com Nação Zumbi durante a tarde. Já à noite, Caetano Veloso teve sua presença sentida no parque Ibirapuera, ainda que não tenha sido atração do festival.
Isso aconteceu porque dois artistas estrangeiros cantaram músicas conhecidas na voz do tropicalista. O primeiro foi o Beirut, que mostrou sua versão de “Leãozinho”, composição do brasileiro, cantada em português mesmo, e levada pelo vocalista Zach Condon ao ukulele.
Não é novidade que o Beirut cante a música —um vídeo da banda interpretando a canção há mais de dez anos dez muito sucesso no YouTube. O grupo também já admitiu, inclusive em entrevista recente à Folha, a influência da música brasileira em sua obra.
Essa aproximação se dá especialmente com a tropicália e a MPB dos anos 1970, e ficou patente no palco do C6. O show aconteceu na área externa do auditório, e não estava tão cheio quanto outras apresentações do mesmo dia —caso de Paralamas com Nação Zumbi, por exemplo.
Parte do público estava conversando e demonstrando pouco interesse no som da banda. Os americanos fazem um indie guiado por sopros com referências ao folk do leste europeu.
Quem também cantou Caetano —na verdade, uma composição de Peninha famosa na voz do tropicalista— foi a sueca Lykke Li. No meio do show na tenda Metlife, o palco secundário, a artista disse em português que cantaria uma música no idioma local.
Ela então puxou “Sozinho”, para surpresa e delírio da plateia, que ficou bastante cheia nesse show. Surpresa na verdade apenas para alguns —ela fez o mesmo cover em um show recente no Rio de Janeiro.
Mais cedo, no mesmo palco, a cantora francesa Oklou fez um dos melhores shows deste C6. Dona de um pop alternativo que bebe do hyperpop de Charli XCX e da PC Music, ela encontrou uma plateia que, se não estava abarrotada, estava repleta de fãs.
Em sua primeira vez no Brasil, Oklou disse que o público local é o mais insano para o qual ela já cantou. “É assustador como vocês sabem todas as letras, mas bom porque eu posso até esquecer”, ela disse.
A francesa cantou em cima de uma plataforma em que seus dois músicos ficaram posicionados nas pontas, e também brincou em um balanço pendurado no teto. Os telões azuis esfumaçados ornaram com o clima onírico de suas músicas, levadas por uma voz igualmente com aspecto de sonho.
Apesar de fazer um pop eletrônico, no palco Oklou não soou nem tão pop e nem tão eletrônica. Suas músicas têm um aspecto intimista e apesar de muitos elementos sintéticos —em especial as batidas—, há violões, guitarra, baixo e diferentes teclados, tudo tocado ao vivo, mas nunca todos eles de uma vez, com os músicos se revezando entre os instrumentos.
Oklou saiu de cena ovacionada, depois de improvisar uma música que não tinha ensaiado porque ainda havia tempo no show. Os brasileiros amaram a espontaneidade.














