Foi em 2016 que a Disney lançou “Moana: Um Mar de Aventuras“, animação em que a protagonista era uma adolescente de uma ilha do Pacífico, que salvava seu povo da fome e da sede. Uma década mais tarde, em tempos em que a pressão por representatividade racial e feminina se tornou ainda maior, o estúdio reaproveita o potencial de marcar pontos diante da chamada sensibilidade “woke” requentando o material, mas em uma versão com atores de carne e osso.
O novo “Moana”, que estreia nos cinemas nesta quarta (8), tem trama semelhante: a personagem-título é uma garota que em breve deverá assumir a liderança de seu povo, em uma ilha isolada por arrecifes —os nativos evitam ao máximo se afastar do litoral por medo do desconhecido para além das formações rochosas.
Um dia, diante da escassez de água e alimentos no local, a jovem percebe que terá de ir bem mais longe no oceano para pedir ajuda ao grandalhão Maui, um semideus que pode auxiliá-la a derrotar um monstro marítimo e devolver à população da ilha uma vida sem privações.
O ator Dwayne Johnson, também conhecido como The Rock, tinha dublado Maui na versão animada e agora assume o personagem por completo. Apesar de nascido nos Estados Unidos, o astro tem ascendência samoana —o elenco conta com cerca de 200 atores de origem étnica de ilhas do Pacífico. Inclusive a australiana Catherine Laga’aia, escolhida para viver a protagonista.
Johnson esteve no Rio de Janeiro na semana passada para divulgar o longa-metragem. “Na cultura samoana, nós temos o hábito de valorizar muito a família, de fazermos o que estiver ao nosso alcance por ela. E isso, me parece, é muito semelhante com hábitos da cultura brasileira“, disse o ator, em conversa com a imprensa, ressaltando sua conexão com o Brasil, ainda que seja apenas sua segunda passagem pelo país.
O filme é apenas mais uma das diversas adaptações com atores de produções animadas que fizeram sucesso no passado —entre produções recentes estão as live-actions “A Pequena Sereia“, de 2023, e “Lilo & Stitch“, no ano passado.
A prática costuma ser vista como prova de uma dificuldade da parte dos grandes estúdios de Hollywood em produzir material verdadeiramente inédito hoje em dia. Mas Johnson diz acreditar que, no caso de “Moana”, a importância de existir uma versão com elenco humano ultrapassa questões de ordem criativa.
“Diante de um produto muito querido, os fãs costumam ter medo de novas versões. Dizem que não é preciso transformar em live-action, e eu entendo isso. Mas acho que mostrar humanos em algumas situações é importante”, ele diz. “Quando eu era jovem, você quase não via gente de pele mais escura entre as grandes estrelas. Para pessoas como eu, e agora as minhas filhas, por exemplo, é muito importante ter esse tipo de representação na tela.”
Além da questão racial, o filme tem também certa atualidade na forma como mostra a fragilidade masculina —Maui, embora seja um semideus, em certo momento revela a Moana ter medo e limitações diante de incertezas.
“Aprendi muito sobre mim mesmo. A cena mais significativa para mim é aquela em que Maui mostra sua vulnerabilidade para Moana. É importante para o personagem, mas foi importante para mim pessoalmente. E também acho que deve ser para todos os homens em geral”, diz Johnson.
O ator afirma que Maui foi em grande parte inspirado em seu próprio avô. “Ele era um homem forte, mas que, diferentemente de mim [na vida real], tinha uma grande cabeleira”, diz o ator careca, rindo. “Era durão, mas também um homem terno, que não tinha medo de chorar na frente dos outros. Não tinha problemas com a masculinidade dele.”
Dirigido por Thomas Kail, o live-action traz novas versões de algumas das músicas lançadas na animação de 2016, como “How Far I’ll Go”, indicada para o Oscar de 2017, além de uma canção feita especialmente para o novo longa, “Along the Way”. E destaca a novata Laga’aia como uma promessa estelar, mesmo em filmes que não priorizem discussões sobre etnia.
“Foi tão bom poder vê-la conseguir fazer coisas tão difíceis, como cantar e dançar tantas coreografias, dando corpo a essa personagem. E ela tem bom ‘timing’, é difícil porque grande parte das cenas somos só eu e ela em um barco. E, apesar de toda a pressão que recaía sobre ela, e mesmo ela sendo ainda muito jovem, conseguiu fazer tudo muito bem”, diz o ator, que reconhece que ele próprio, apesar da maior experiência profissional, também teve desafios parecidos.
“No meu caso, também foi muito difícil, principalmente ter que cantar e dançar. E ainda usar aquela peruca de cabelos longos, que esquentava infernalmente a cabeça.”













