Existem vários temas desenvolvidos com profundidade em “Meia-Palavra”, primeiro romance do jornalista Helio Gurovitz, mas a questão central é o tempo, mais precisamente se as pessoas se transformam conforme ele passa.
Cinco personagens que atingem a maioridade na década de 1980 e nutrem uma forte relação de amizade, erguida desde a infância numa escola judaica no bairro paulistano do Bom Retiro, são postos à prova. Têm seu caráter e suas ideias testadas na juventude e na idade adulta. E expõem a sempre precária condição humana, com suas contradições e fragilidades.
O autor explora filosoficamente a dimensão do tempo, o que existe de fato e o que é uma ilusão da nossa mente. “O livro começa a existir para mim quando eu entendo que não há apenas uma forma de encarar o tempo”, diz Gurovitz, hoje editor de Opinião do jornal O Globo. “Cada personagem vai tratar isso de uma maneira, cada um tem seu olhar.”
Um deles, o cientista João, se debruça sobre isso com a visão de um matemático e considera o tempo real, desenvolvendo uma tese conhecida como o Teorema de Katz.
Já o jornalista Paulo, o único não judeu do grupo, vê o tempo como algo que o transforma. Sérgio é músico e, para ele, o tempo é um instrumento. O jornalista Max o encara como uma herança familiar passada de geração em geração. E o arquiteto Bóris, seu irmão gêmeo, tem um certo recalque, resiste a essa ideia.
Gurovitz mostra essas diferenças por meio da ficção e explora as oscilações em todos os personagens. Tudo começa no Réveillon do ano 2000 em Nhandu, antigo nome da praia de Paúba, no litoral norte de São Paulo, onde os cinco se encontram.
A reunião havia sido acertada muitos anos antes, quando o grupo já frequentava o lugar. O que João e Paulo, especialmente, queriam verificar —em uma espécie de aposta filosófica— é como cada um deles mudaria com o passar do tempo.
No livro, os diálogos fluem, as descrições são minuciosas e impressiona o grande conhecimento do autor, formado em ciência da computação, sobre matemática e física. O arco temporal do romance vai de 1979, na infância dos cinco rapazes, até 2013, quando se aproximam dos 50 anos.
Esse caminho tem como pano de fundo acontecimentos como a queda do Muro de Berlim, o atentado que derrubou as torres do World Trade Center e, no final do livro, as manifestações de junho que mobilizaram milhões de brasileiros.
Outro elemento fundamental é o judaísmo. O Holocausto é o trauma comum dos antepassados desses homens. Discute-se também, em vários momentos, a questão do sionismo, movimento que defende o direito à autodeterminação do povo judeu.
Quem mergulha fundo nessa história é Sérgio, que fazia pouco do judaísmo e acaba morando seis anos em Israel. Cumpre o serviço militar e mata “entre 5 e 10 palestinos”, além de participar do comício em que o primeiro-ministro Isaac Rabin foi assassinado.
Há também um confronto de visões entre Max e Bóris. Ao final, o último se converte ao cristianismo e se torna discípulo do guru da direita Olavo de Carvalho.
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Em “Meia-Palavra”, Gurovitz escapa da armadilha da autoficção e investiga, com seus personagens redondos, o que existe entre uma frase e outra, entre aquilo que se diz e o que se prefere esconder. A linguagem não serve apenas para comunicar: ela também dissimula, revela e cria mal-entendidos.
“O livro vai se construindo em cima de várias omissões”, diz o autor. “Ele não é construído apenas em cima do que você sabe a respeito do que acontece, mas também em cima do que não é dito.”
O título “Meia-Palavra”, segundo o autor, reflete essa ambivalência. Não é simplesmente a palavra incompleta ou o que fica suspenso no discurso, mas aquilo que pode ser reconstruído ou compreendido pelo bom entendedor.
A obra tem quatro partes divididas por três entreatos (entremez) em que o narrador dá pistas sobre o andamento da história. Reflete também sobre seu próprio papel. É ele que “controla o andamento do tempo e fá-lo passar a seu bel-prazer”.
O narrador tudo pode —e pode ser qualquer coisa, inclusive um personagem. No quinto capítulo, que se passa em São Paulo, em 2004, Paulo assume a narrativa e a desenvolve em primeira pessoa.
Outro momento em que isso acontece é no capítulo 14, nas sessões de psicanálise de Bóris. A primeira pessoa ressurge no terceiro entreato, quando o narrador fala do “tempo quântico e abrupto e do contínuo e gradual”.
A própria extensão da obra, de 800 páginas, passa uma mensagem. Num momento em que a literatura tende a ser pressionada pela velocidade e pela concisão, Gurovitz opta por um longo romance no qual a passagem do tempo transforma —ou não— as pessoas, desgasta as amizades, muda os propósitos, revê convicções e dá novos significados a acontecimentos aparentemente sem importância.
“Procuro não ter uma atitude moral diante dos personagens”, afirma o escritor. “De certa forma, o livro não tem herói nem vilão. Cada um leva a vida para um buraco diferente. Cada um tem a própria existência e seu jeito de levá-la para frente ou para trás.”












