A partir de uma curiosidade vinda da infância, a educadora e psicanalista Janine Rodrigues escreveu o livro infantil “Por Que Não Existe Flor Preta?”. A história une o lúdico e o simbólico a uma explicação científica para responder ao questionamento da pequena Iana, uma menina que passeia pelo mundo tentando encontrar flores nessa tonalidade.
Ela vê pássaros e animais pretos, noites escuras e sombras, mas a dúvida sobre as flores permanece. É a avó quem a ajuda a encontrar uma resposta.
Em uma reflexão sobre autoestima, ela conta à neta que as flores pretas existem, mas não na natureza. Elas se transformaram em crianças negras, livres para circular, falar e cantar. Essa, no entanto, é só metade da resposta que o livro traz. A segunda parte da história apresenta a explicação científica.
Não há flores pretas na natureza porque não existem pigmentos capazes de produzir essa coloração das pétalas. Além disso, a cor das flores está ligada à polinização: as plantas precisam ser vistas por insetos e aves para se reproduzir, e o preto absorve luz demais para cumprir essa função. No final do livro, um biólogo responde à pergunta em linguagem acessível para crianças.
“A proposta é que a gente traga a verdade, mas também trabalhe o lúdico: a criança preta é a flor preta, portanto ela existe”, diz a autora, que é fundadora da Piraporiando, editora e consultoria que atua com projetos de educação para as relações étnico-raciais.
Janine também conta que essa era uma dúvida que ela tinha quando criança e que, durante anos, foi somente uma curiosidade.
Décadas depois, no entanto, a mesma pergunta voltou à sua vida por um motivo diferente. Nos últimos anos, ela, que trabalha com a promoção de projetos antirracistas em escolas, começou a ouvir relatos de crianças negras que eram constrangidas por colegas na escola a responder justamente essa questão.
Os alunos, quando não sabiam o que dizer, ouviam comentários racistas que associavam a ausência da cor preta nas flores a uma suposta inferioridade de pessoas negras.
“O racismo já se apresenta na vida escolar de alunos negros de uma maneira muito intensa. Tem a cor, tem o cabelo, tem uma estética que estranha esse corpo o tempo inteiro.”
Foi depois de ouvir relatos de alunos e professores que ela teve a ideia de publicar o livro. Um de seus objetivos, conta, era transformar uma pergunta usada para ferir em uma oportunidade de falar sobre identidade, pertencimento e autoestima.
“Chegou para mim com uma característica muito de vergonha e de tristeza”, afirma.
Desde o lançamento, em maio deste ano, Janine tem visitado escolas para conversar com estudantes sobre a obra. Ela conta, inclusive, ter voltado a colégios em que ouviu os relatos de alunos e professores que presenciaram situações de racismo.
Nos encontros, diz, crianças negras se ofereceram para ajudar na leitura da história. Queriam participar porque finalmente tinham encontrado uma resposta para uma pergunta que já havia sido usada contra elas. “Foi muito emocionante ver na roda de leitura que alguns alunos quiseram falar um pouco das suas próprias experiências”, conta ela sobre um dos eventos que aconteceu em uma escola na capital paulista, com estudantes entre 8 e 10 anos.
As ilustrações da história são da artista franco-congolesa Anne Muanaw e foram produzidas em preto e branco. A escolha, conta Janine, foi intencional. Ela queria associar a cor preta à delicadeza, ao lúdico e à imaginação.
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