Precarização dos artistas vem de muito antes da IA, diz escritor Odorico Leal

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Precarização dos artistas vem de muito antes da IA, diz escritor Odorico Leal


No conto que funciona como espinha dorsal da coletânea “Sonhos da Pessoa Física”, um grupo de artistas —escritores, ilustradores, tradutores, gente que trabalha fazendo livros— passa a ganhar um auxílio do governo por ter perdido renda para a inteligência artificial.

São os chamados “Luds”, brincadeira com a palavra “ludita”, as pessoas que caminham na contramão da tecnologia. Como quase tudo na jovem literatura de Odorico Leal, é uma piada autodepreciativa com coisa séria, uma melancolia doce e erudita cheia de piscadelas.

Não, ele não acha que um cenário assim é o destino inevitável das artes. “Luds” é, justamente, um exercício artístico —mais especulativo que fatalista.

“Minha inclinação foi escrever um pequeno pesadelo”, diz o autor em seu apartamento na zona oeste de São Paulo. “Esse é o pior cenário possível para o nosso nicho.”

Odorico, nascido na piauiense Picos há 43 anos, se consagrou como um contista respeitado já na sua obra de estreia, em 2024. “Nostalgias Canibais”, editado pela Âyiné, ganhou prêmios e elogios da crítica. Agora, em “Sonhos da Pessoa Física”, ele ajusta melhor seu jogo de cintura na Todavia.

“Meu estilo fica numa linha tênue entre o coloquial literário médio e o pomposo”, define. “Assim, se eu errar, se eu puser um pronome oblíquo a mais, uma palavra um pouco mais elevada, eu caio no pomposo.”

Doutor em literatura brasileira, ele lembra que a história dessa arte oscila num pêndulo entre dois extremos, “a oratória e a oralidade”. “Por muito tempo, o texto bacharelesco era tido no Brasil como um bom texto. E a história da prosa brasileira no século 20 é a da depuração e renovação dessa linguagem, do idioma brasileiro.”

É nesse balanço que ele trabalha —e demorou para se equilibrar direito na corda bamba. Lembra que mandou a versão original de seus primeiros contos para a editora Maria Emilia Bender, bambambã que trabalhou por décadas na Companhia das Letras e na revista Piauí.

“Duas semanas depois, ela me escreveu dizendo que tinha lido 20 páginas e não suportou mais continuar. Estava muito empolado”, lembra. “Ela usou uma palavra que eu até cito nos agradecimentos: ficou muito gongórico.”

Gongórico se refere a um estilo do barroco espanhol do século 17, recheado de metáforas que hoje passam como afetadas. Depois daquilo, Odorico modulou melhor seu texto, com pitadas de humor e coloquialismo que já usava nas crônicas que escrevia sem compromisso —hoje, ele tem um espaço regular na revista Quatro Cinco Um.

“Foi uma resposta brutal e, ao mesmo tempo, a melhor resposta que eu poderia ter, porque me abriu os olhos. A melhor coisa é receber uma bela de uma cacetada antes de publicar, e não depois de publicado.”

Afinar estilo leva tempo, mesmo, mas Odorico hoje tem um projeto literário amadurecido. “Sonhos da Pessoa Física” abre com um conto saboroso sobre uma dupla de escritores brasileiros que sonham em ser reconhecidos como escritores argentinos. Em seguida, o divertido “História da Beleza” acompanha um homem que se entende como a pessoa mais linda do mundo, até quebrar a cara.

O centro nervoso do livro, contudo, está em “Luds” e “A Forma Mais Humana”, este uma espécie de apêndice da mesma história narrado pela inteligência artificial que roubou o trabalho dos personagens.

Aqui, a ferramenta Vinci é apresentada como uma entidade todo-poderosa, capaz de decidir sobre morte e vida de toda a humanidade, como tanto se ventilou recentemente. Escolher o tom usado por uma narração de IA foi um desafio para o autor.

O editor de Odorico sugeriu um toque mais robótico ao texto, mas ele foi por outro caminho. “Achei interessante imaginar essa superinteligência como uma uma espécie de Deus, mas um deus grego. Os deuses gregos são profundamente caprichosos, meio insuportáveis. Então quis dar ao Vinci um toque mimado, arrogante.”

Essa é uma parte do livro que Odorico classifica como “francamente fantasiosa”, nem sequer especulativa. “Essa ideia do ex-funcionário da Anthropic de que daqui a dez anos vamos ser extintos é completamente absurda. Estamos em um momento de discussão e de disseminação de falsas certezas.”

Evitou a todo custo que seu texto fosse contaminado por esse “tom triunfalista das big techs”, o que não quer dizer que subestima a maneira como a IA pode prejudicar artistas como seus Luds.

“Mas a precarização da classe artística já é um tema há muito tempo”, afirma ele. “A inteligência artificial vem como aquela última pá de terra, para desestabilizar de vez essas identidades.”

É um choque a que ele já se acostumou como tradutor —verteu ao português autores como Toni Morrison e Hisham Matar. Hoje, quando você pensa na palavra “tradutor”, se lembra mais rápido de uma pessoa ou de um serviço da internet? Imagina se essa incerteza se expande para todos os ofícios?

Odorico ainda argumenta que uma máquina jamais escreveria algo como “Solenoide”, obra-prima gargantuesca do romeno Mircea Cartarescu. Mas o problema não é a grande e indiscutível arte e, sim, o trabalho do dia a dia, que paga a conta dos artistas.

O problema é o “suficientemente bom”, diz o autor. No caso das traduções, o público julga aquilo que a IA oferece como suficientemente bom. “E o que é suficientemente bom é maravilhosamente conveniente.”



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