Opinião: Beijo gay em ‘Quem Ama Cuida’ demorou, embora coroe o arco de Mau Mau

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Opinião: Beijo gay em ‘Quem Ama Cuida’ demorou, embora coroe o arco de Mau Mau


Levou 141 capítulos até que o beijão entre Mau Mau e Felipe fosse ao ar em “Quem Ama Cuida“. São dois terços da novela, caso se concretize a previsão de 210 episódios. É tempo demais para o casal celebrado pelo público chegar a uma intimidade que os casais heterossexuais da trama já tiveram há tempos.

A TV Globo tentou fazer jus à espera. Veio de Mau Mau a iniciativa. Na academia de dança, os rapazes se aproximaram, deixaram as confusões de lado, apertaram o corpo um do outro e finalmente encostaram os lábios. Não foi só uma bitoca. Eles se beijaram com desejo, excitados, como duas pessoas apaixonadas.

Os personagens se beijaram ao som de “Preciso Dizer que Te Amo”, música clássica de Cazuza composta por ele e Bebel Gilberto, que tocava de um vinil colocado na vitrola por Mau Mau, no início da cena. “E eu não sei em que hora dizer/ Me dá um medo, que medo/ É que eu preciso dizer que eu te amo/ Te ganhar ou perder sem engano”, diz a letra.

Mau Mau e Felipe são interpretados, nesta ordem, por João Victor Gonçalves e Pietro Antonelli, filho de Giovanna Antonelli e Murilo Benício. “Quem Ama Cuida” marca a estreia dele nas novelas.

Houve um vaivém entre o casal que quase tornou enfadonho acompanhá-los. Os dois se aproximaram na história há cerca de dois meses, quando Felipe ainda se entendia como heterossexual. Na semana passada, ele chegou a impedir as tentativas de Mau Mau de beijá-lo.

A exibição do beijo foi adiada duas vezes. A cena iria ao ar originalmente na quinta-feira de antes das eleições, mas acabou transferida devido ao debate presidencial, que provocou o cancelamento da novela na sexta. Depois, pulou de terça-feira (27) para esta sexta, após correções pedidas pela direção da Globo. Queriam mais contexto à descoberta de Felipe.

Tanto cuidado pode se explicar por um receio da emissora em relação à parcela mais conservadora do público, em especial após as eleições que dividiram o país.

A lentidão na condução do casal serviu ao menos para criar intimidade entre eles e o público e fazer do beijo uma espécie de recompensa narrativa. Não faltou torcida por Mau Mau e Felipe nas redes sociais.

É difícil não gostar de Mau Mau. Estreante na faixa das nove, o ator João Victor Gonçalves acompanhou a ótima performance de Tony Ramos como Otonieu, o avô homofóbico de Mau Mau. Algumas das melhores cenas de “Quem Ama Cuida” surgiram dessa tensão. Ajudou também o texto didático, mas não pedante, de Walcyr Carrasco e Claudia Souto.

O romance gay de “Quem Ama Cuida” sucede o sucesso impressionante do casal lésbico de “Três Graças”. A novela anterior das nove apresentou a paixão de Lorena e Juquinha, que viralizou na internet, com vídeos compartilhados até fora do país. A união das personagens deu tão certo que rendeu uma novelinha nas redes.

A Globo parece ter aprendido a construir romances gays com a química e o desejo que sempre dedicou aos casais heterossexuais. Mas ainda escorrega ao concentrar a representação LGBTQIA+ das novelas em um ou dois casais relevantes e resumir esses personagens à sexualidade.

Em “Quem Ama Cuida”, por exemplo, a homossexualidade de Mau Mau ainda é motor dos conflitos dele. É diferente de Adriana e Pedro ou Dora e André, casais hétero da trama usados para falar de amor e sexo, mas também de trabalho, ambição, dinheiro, ciúme.

Isso já foi melhor na televisão. Em “Amor à Vida”, de 2013, ser gay e afeminado eram algumas das muitas características de Félix, um vilão complexo, difícil de compreender e irredutível. O personagem é lembrado tanto pelo beijo em outro homem quanto por ter jogado uma bebê no lixo. Félix era mau, engraçado, e, além disso, homossexual.

O beijo entre Félix e Niko parou o país, o primeiro entre dois homens exibido em uma novela das nove da Globo. A recepção foi majoritariamente positiva.

Mas a emissora nem sempre encontrou a mesma tolerância. Políticos conservadores ameaçaram boicotar “Babilônia”, de 2014, depois que a novela exibiu um selinho entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg.

Apesar disso, houve outros casos interessantes no caminho. A torcida por Mau Mau e Felipe lembra aquela que se formou em torno de Kelvin e Ramiro, de “Terra e Paixão“, há três anos.

Embora parte da comunidade LGBTQIA+ tenha criticado o retrato estereotipado de Kelvin, um rapaz afeminado e engraçado, o romance entre ele e Ramiro conquistou o público e ganhou espaço na novela. A história também não apagou as outras dimensões dos personagens. Ramiro, por exemplo, seguia sendo um capanga bruto.

“Quem Ama Cuida” pode aproveitar que deu o beijão merecido de Mau Mau para agora levá-lo além das descobertas sexuais. Outros beijos e uma boa cena de sexo são bem-vindos, mas é bom que o rapaz ganhe mais dimensões para não ficar marcado só como o personagem gay da novela. É raro que o público simpatize tanto com alguém como Mau Mau, afinal.



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