Pierre Aderne traz em show intercâmbio entre culturas de língua portuguesa

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Pierre Aderne traz em show intercâmbio entre culturas de língua portuguesa


Rio, Tóquio, Toulouse, Los Angeles, Brasília, Nova York, João Pessoa. O cantor e compositor Pierre Aderne, 60, riscou o planeta em várias direções e se estabeleceu em Lisboa, onde se tornou uma espécie de embaixador da música brasileira entre a comunidade lusófona que vive na cidade. Espírito gregário, fez dos endereços onde morou pontos de encontro para saraus e jam sessions. Esse estilo de vida influenciou seu projeto musical e se faz notar em seus álbuns e shows.

O mais recente, “Povo Brasileiro”, será lançado nesta quinta-feira, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Estarão lá vários amigos do artista, como Fernanda Abreu, Paulinho Moska, Pedro Luís e Moacyr Luz. Vai ter semba, morna, coladeira —ritmos surgidos nas ex-colônias portuguesas— além de samba, fado e pontos de candomblé.

Pierre Aderne nasceu em Toulouse, na França, filho de português com brasileira. Passou a juventude em Brasília, onde entrou na faculdade de Educação Física e se enturmou com a geração brasiliense do rock nacional: Renato Russo, Herbert Vianna, Cássia Eller e os músicos do grupo Capital Inicial. Quando todos se mudaram para o Rio, Aderne foi junto e ampliou sua turma: Paulinho Moska, Maria Gadu, além de Mu e Dadi, que haviam tocado no grupo A Cor do Som.

Vários músicos passaram a frequentar o apartamento onde Aderne morava, na rua Nascimento e Silva, 130, em frente a outro endereço mítico da música brasileira: a rua Nascimento e Silva, 107, onde Tom Jobim viveu, imortalizada em canção de Toquinho e Vinícius de Morais. Foi com produção de Dadi que Aderne gravou seu primeiro álbum, “Casa de Praia”, em 2005. No mesmo ano, “Casa de Praia” foi lançado no Japão e deu início à carreira internacional de Aderne.

A grande virada do artista se deu em 2011, quando ele se mudou para Portugal. Em Lisboa, Aderne criou o projeto Rua das Pretas, endereço onde morou e passou a promover encontros entre músicos de várias nacionalidades. “Comecei a me interessar por toda aquela tradição musical riquíssima que tem o fado português, a morna cabo-verdiana, o semba angolano e vários outros ritmos”, diz Aderne. “Foi transformador.”

O novo álbum de Aderne, “Povo Brasileiro”, é uma espécie de síntese desses 15 anos em Portugal. “Povo Brasileiro” conta com a participação de uma fadista, Ana Margarida Prado, cantora que se vale da formação lírica para extrair as nuances emocionais de cada música.

No álbum, sua voz contrasta e se harmoniza com a de Zulu, uma das revelações do vibrante pop cabo-verdiano. Os arranjos ficaram a cargo de Kiko Horta, um dos líderes do bloco carnavalesco carioca Cordão do Boitatá. A faixa-título é uma parceria entre Aderne, Horta e o sambista Moacyr Luz, que coassina várias músicas do álbum.

O título é uma homenagem ao livro clássico de Darcy Ribeiro lançado em 1995. O álbum foi gravado na Casa Darcy Ribeiro, localizada em Maricá, no estado do Rio de Janeiro. O centro cultural foi projetado por Oscar Niemeyer e seu desenho é inspirado nas casas de indígenas tupinambás. No álbum, Ana Margarida Prado canta “Mãe Preta”, música que de certa forma sintetiza o espírito dos dois “Povo Brasileiro”, o de Darcy Ribeiro e o de Pierre Aderne.

A música foi criada em 1943 pelos compositores gaúchos Caco Velho e Piratini, e denunciava a violência da colônia, ao narrar a história de uma mulher que cuidava dos filhos de um senhor de escravos enquanto seus parentes eram açoitados. “Mãe Preta” foi gravada nos anos 1950 pela fadista Amália Rodrigues, mas com uma letra bem diferente, mais palatável aos tempos salazaristas. Em vez da violência, uma canção de amor, com o título “Barco Negro”.

A música que viajou do Brasil para Portugal desembarca novamente no Brasil, com sua letra original, no show do Circo Voador. A viagem de ida e volta mostra o quanto o intercâmbio entre culturas de língua portuguesa, promovido por Aderne, pode ser rico e provocativo —e como a música pode servir de meio de transporte ao encurtar distâncias no oceano.



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