Pesquisa de cinco anos expõe os conflitos e o humor na ascensão do Sisters of Mercy

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Pesquisa de cinco anos expõe os conflitos e o humor na ascensão do Sisters of Mercy


Quando decidiu escrever uma série de reportagens sobre os primeiros anos do Sisters of Mercy para o site britânico The Quietus, de 2016 a 2019, Mark Andrews imaginava apenas revisitar uma de suas bandas favoritas da adolescência.

Acabou produzindo uma pesquisa de cinco anos, baseada em dezenas de entrevistas, que deu origem ao livro “Pinte Meu Nome em Preto e Dourado – A Ascensão do The Sisters of Mercy”, lançado agora no Brasil pela Belas Letras.

O jornalista conheceu o grupo em 1984. O Sisters foi a primeira banda que viu ao vivo e também a primeira pela qual desenvolveu uma obsessão típica de colecionador. Guardava bootlegs, pôsteres, camisetas, gravações em VHS feitas da televisão e recortes de jornais. Com o tempo, porém, afastou-se da banda depois de assistir a dois shows em Bruxelas que o decepcionaram.

“O livro reacendeu completamente meu entusiasmo”, conta o jornalista. “Nos últimos anos voltei a vê-los inúmeras vezes e considero a formação atual tão interessante quanto qualquer uma das chamadas formações clássicas. Para citar ‘O Poderoso Chefão 3’: ‘Achei que estava fora, mas eles me puxaram de volta’.”

A obra acompanha os cinco primeiros anos da banda de rock gótico, da formação em Leeds, na Inglaterra, em 1980, até a implosão da formação clássica após o álbum de estreia, “First and Last and Always”, lançado em 1985.

Ao longo de 376 páginas, Andrews reconstitui a história a partir de entrevistas com músicos, empresários, técnicos, amigos, promoters e personagens da cena pós-punk inglesa, reconstruindo episódios muitas vezes conhecidos apenas por versões fragmentadas ou contraditórias.

O principal personagem continua sendo Andrew Eldritch, vocalista e líder da banda. Reservado, avesso à imprensa e conhecido por controlar cuidadosamente sua imagem pública, Eldritch parecia uma fonte improvável para um projeto desse porte. O acesso aconteceu por acaso.

Em 2016, Andrews pediu uma entrevista por intermédio de Chris Catalyst, então guitarrista do Sisters. Eldritch aceitou falar para divulgar um festival espanhol. Quando telefonou, deixou claro que preferia discutir qualquer assunto que não fosse a história da banda. “Ele disse: ‘Prefiro falar sobre papel de parede xadrez’.”

Andrews ignorou a sugestão. Em vez de começar pelas perguntas previsíveis, mencionou um episódio obscuro dos anos 1980: uma fita VHS perdida que continha gravações do Festival Futurama e alguns videoclipes do ABBA registrados da televisão. A lembrança da fita, que havia desaparecido, divertiu Eldritch.

Os dois passaram cerca de 90 minutos conversando sobre Leeds e os primeiros anos do Sisters. A entrevista deu origem ao primeiro grande artigo publicado pelo The Quietus e serviu de ponto de partida para todo o livro.

Andrews não conseguiu mais entrevistá-lo. “Tentei, mas não com muita insistência. Isso abriu espaço para que os outros integrantes da banda e uma série de personagens secundários também contassem suas versões.” Na avaliação do autor, o resultado foi um retrato mais complexo do vocalista do que teria sido possível caso dependesse apenas da narrativa construída pelo próprio Eldritch.

Recentemente, um integrante da equipe atual do Sisters resumiu essa impressão em uma frase que Andrews considera o maior elogio recebido desde o lançamento do livro. “Quando li o livro, consegui sentir o cheiro do Andrew.”

Embora Eldritch ocupe naturalmente o centro da narrativa, Andrews diz que uma de suas maiores surpresas foi descobrir alguém muito diferente da figura pública. “Ele continua sendo um mistério. Mas também é extremamente bem-humorado, culto e, surpreendentemente, muito agradável de conversar.”

Ao mesmo tempo, o livro não evita os inúmeros conflitos que marcaram sua trajetória. “Longe de ser uma biografia laudatória, a obra acabou ficando engraçada e triste. A gravação de ‘First and Last and Always’ também foi mais sombria —e divertida— do que eu imaginava.”

Apesar de o livro estar profundamente ligado à cidade de Leeds, Andrews rejeita a ideia de que existisse um “som de Leeds” capaz de explicar o Sisters of Mercy. Para ele, o diferencial estava na combinação improvável entre guitarras e bateria eletrônica.

O que Leeds oferecia, segundo ele, era outra coisa: uma rede extraordinária de clubes, promotores, universidades e bandas que conviviam em intensa competição, mas também colaboravam entre si. Nesse ambiente surgiram o F Club, organizado por John Keenan, e o núcleo formado por Eldritch, Gary Marx e Craig Adams.

Embora a narrativa culmine em “First and Last and Always”, Andrews explica que não fazia sentido prolongá-la até “Floodland” (1987). Além de considerar que a história da ascensão da banda já estava completa, ele afirma que seria impossível reconstruir o álbum seguinte com o mesmo rigor jornalístico.

O resultado, diz Andrews, seria um livro muito diferente —e provavelmente menos interessante. “Seria apenas a história de um músico feliz, trabalhando durante meses em estúdio no disco que sempre quis fazer. Que graça haveria nisso?”



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