O carisma de Woody, a confiança de Buzz Lightyear, a energia apaixonante de Jessie estão na raiz do sucesso de 30 anos da franquia “Toy Story”. De geração em geração, passando do menino Andy para a pequena Bonnie, o quinto filme da saga estreou na quarta-feira (17), agora com brinquedos mobilizados ante a ameaça dos mundos das telas para infância.
Os protagonistas —ao lado dos coadjuvantes não menos encantadores Senhor e a Senhora Cabeça de Batata ou Rex, o dinossauro medroso, e companheiros novos— temem ser trocados pelo tablet Lilypad, enquanto Bonnie fica cada vez mais deslocada.
Dados preliminares mostram que a nova trama chegou às telas gerando nível de buscas menor do que os lançamentos anteriores da franquia, o que pode mudar no decorrer do mês. O maior patamar foi atingido em 2019, com “Toy Story 4”, sequência em que o desafio dos brinquedos e resgatar Garfinho.
Há uma parcela de fãs que acredita que a saga poderia ter chegado ao fim com “Toy Story 3”, de 2010, e o rito de passagem de Andy indo para a faculdade e doando seus brinquedos para Bonnie. Entre eles está o cineasta Quentin Tarantino, que em entrevistas nos últimos anos afirmou que a sequência era um de seus longas favoritos e que não assistiria aos lançamentos posteriores.
Criadora de desenhos animados e professora de Cinema e Audiovisual da ESPM, Ale McHaddo discorda do cineasta de “Pulp Fiction”. Entre seus trabalhos estão “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste”, em cartaz nos cinemas, e “Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma”. Para ela, há uma lógica diferente na animação, que é ancorada no personagem, permitindo que eles ganhem vida e retornem de outras maneiras.
“O ‘Toy Story’ funciona muito bem, porque é um grupo de personagens com apelo e passa a fazer parte do imaginário das crianças e dos adultos que o apresentam aos seus filhos. Se pensarmos no Mickey e no Pernalonga, eles não envelhecem como um filme tradicional. O personagem bom trafega pela mídia, por histórias e pelo tempo”, diz.
O filme de 1995 foi o primeiro longa de animação 3D por computador. Ali começou uma nova era tecnológica para as narrativas infantis, encabeçada pela Pixar, que evoluiu de estúdio independente para um lucrativo braço da Disney —que tem em “Toy Story” uma de suas franquias mais rentáveis.
Além da bilheteria, a franquia conquistou cinco Oscars, um deles um troféu honorário dado ao primeiro filme.
McHaddo considera a nostalgia apenas mais um componente do sucesso da franquia, algo comum no universo infantil, povoado por avós e netos lendo gibis da Turma da Mônica. Se “Toy Story” estivesse restrito a ela, diz, seria visto hoje apenas pelos primeiros fãs dos anos 90, o que não é o caso.
“O novo filme traz uma análise em relação aos brinquedos nos dias de hoje, que é muito interessante e deve ter uma aceitação surpreendente”, diz.
Pesquisas do Pew Research Center e da Organização Mundial da Saúde, a OMS, e livros como “A Geração Ansiosa”, do psicólogo Jonathan Haidt, mostram que as redes sociais têm um impacto negativo crescente sobre a saúde mental de jovens, que sentem mais solidão, apesar de hiperconectados. Nesse cenário, o uso progressivo e prolongado de telas por crianças e adolescentes vem alarmando especialistas da infância.
À Folha, McKenna Harris, codiretora de “Toy Story 5”, afirmou que cada “Toy Story” lançado pela Pixar acompanhou mudanças dentro da empresa e no mundo. “Quando eu estava crescendo, era muito mais simples. Eles [os brinquedos] estão sentindo essa nostalgia em tempo real de como eram os filmes anteriores.”












